A dançarina e o coronel

Por Demétrio Diniz

Adélia Prado, em recente entrevista na televisão, disse que o escritor se alimenta das vivências da infância, e que o processo de criação nada mais é que a sua elaboração. Isto não é novidade, embora algumas situações excepcionais vividas na idade adulta possam também trazer inspiração. No caso de Aldo Lopes de Araújo, autor de A dançarina e o coronel, creio que os plantões numa delegacia de polícia, em Natal, nem o tempo como diretor do caderno cultural de A União, na Paraíba, o empurraram para o ofício de romancista. Pelo que conheço dele e de sua obra, o ponto de partida foram as histórias contadas em Princesa Isabel pelo velho Marçal, a quem toda noite, à luz elétrica ou no claro da lua, Aldo escutava quando criança numa postura quase que religiosa.

Depois disso lhe serviu de massa para o pão a capacidade de gostar e se deixar engravidar pelo imaginário popular. Tanto é que da história da guerra de Princesa, em 1930, sabe menos que as lendas, as narrativas populares que restaram dela. Esse mimetismo com o imaginário popular foi o ponto de apoio, sua base para o uso e desenvolvimento da criatividade literária.

Após o lançamento de O dia dos cachorros – que apareceu depois de alguns excelentes livros de contos -, dentro de um mês Aldo Lopes deverá estar lançando na Saraiva, no Midway, o seu segundo romance, A dançarina e o coronel.

Diante de um mundo mecânico, sem alma e sem graça, onde o que nos prende a atenção, além de denúncias sucessivas de corrução, é a violência urbana, A dançarina e o coronel chega trazendo um mundo mágico, singelo e bonito como um trigal maduro. Em Perdição, nome antigo de Princesa Isabel, terra natal de Aldo Lopes, revela-se um universo multifacetado, que vai do circo de Epaminondas Atirador de Facas, onde baila sensual a dançarina Mara Rúbia, até o ambiente mesmo da cidade de Perdição. Esta sim, muito mais mágica que o circo, porque assim eram as cidades antes que a modernidade as mecanizasse, tornando-as desprovidas de alegria e sentimento. Faço um parêntese para dizer que quando criança vivi numa cidade parecida com Perdição, onde quase fui levado por um papafigo que, para se curar da morfeia, por pouco não comeu cru o meu fígado. Lá também, duas ou três vezes, me deparei (ou pensei ter me deparado) com um lobisomem numa sexta-feira 13.

Em A dançarina e o coronel vamos encontrar Duarte Procópio, dono de uns bons e produtivos alqueires de terra na Lua, no lado escuro do satélite, que era de mais valor, e seu primo Anaximandro, proprietário de duas fontes de águas termais na Estrela D’Alva. Há também João Nazário, dirigente de entidade religiosa. Desgostoso com a vida, por fim acerta na tentativa de suicídio ao injuriar os maridos da cidade: um tiro de espingarda o derruba do palanque. Dos personagens que agradavelmente me marcaram lembro-me ainda do coreano, que veio do outro lado da Terra sem ninguém saber como, e arrecadava fundos para a guerra. Aboletado com uma banda de música na casa do provável doador, dela somente ia embora após receber a contribuição. O juiz Brito Ribeiro deu trabalho à banda, que tocou por um dia inteiro na sua casa. O juiz conversou e desconversou, até que se desfez do anel de formatura, lamentando-se por ter sido aquela joia um presente do pai.

O autor de A dançarina e o coronel levou oito ou dez anos para dar por concluído o romance, penteando o livro, carregando-o debaixo do braço, e só tendo a coragem de largá-lo agora, quando a vontade apaixonada de construir sua casa no topo da Serra dos Bernardinos permitiu o escorrego da cria. Nesse período da escrita, como mero leitor, acompanhei a tessitura do romance, os originais testemunhando os tombos e as alegrias de nossa amizade.

Premiado com bolsa pelo Ministério da Cultura, o livro justifica a extraordinária e longa dedicação: trata-se de romance divertido, de leitura agradável, e literatura bem acabada. Aldo Lopes de Araújo é autor universal, e eu não perdi a esperança de vê-lo traduzido em vários países, ao menos os da América do Sul, onde espero comprar El día de los perros e La danzarína y el coronel. Isto porque, amizade à parte, Aldo Lopes é escritor universal, nada ficando a dever aos seus pares contemporâneos.

Gostaria de finalizar o texto trazendo de volta Adélia Prado (inclusive foi com ela que me animei a fazer poesia, há vinte anos ). Na mesma entrevista a poeta de Divinópolis diz que o texto que não tem poesia não merece ser publicado. Discordando dessa posição radical, acredito ser diferente quando se trata de ficção: aqui prevalecem as imagens, a construção mesma da frase, a graça da narrativa, o enredo. Isto sem impedir que natural e eventualmente o texto ressuma alguma poesia.

O que não falta em A dançarina e o coronel é graça na narrativa, frases bem escritas, e sobretudo uma prosa rica em imagens e situações. W.J. Solha, intelectual de boa cepa, considerou-as na orelha do livro como surreais, algo que entendo como tiradas de um sonho. Vejo-as mais que verossímeis, realidade mesmo, próprias de um universo particular. A insipidez atual é que impede de se acreditar que houve mundos interessantes, plenos de humanidade, esta no sentido de acontecimento da vida. Conheçamos um deles, lendo A dançarina e o coronel.

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