A defesa da cultura num diálogo borgiano

Em seu conto “O informe de Brodie” (homônimo do livro), Jorge Luis Borges conta que encontrou dentro de um exemplar de As mil e uma noites de Lane um informe assinado por um viajante inglês, de nome David Brodie, que ele agora traduzia. O documento versava sobre um estranho povo, denominado Yahoos, que possuía, entre outras, as seguintes características: tinham costumes bárbaros e raros dentre eles possuindo nomes. Ademais, pescavam com as mãos e devoravam os cadáveres crus dos feiticeiros e dos reis, para assimilarem suas virtudes. Quase desprovidos de memória, seus feiticeiros gozavam, no entanto, da faculdade de prever com segurança fatos que aconteceriam dali a dez ou a quinze minutos.

Em seu informe, Brodie enumera outras qualidades dos Yahoos, afora aquela relacionada com os prognósticos iminentes: têm instituições, inclusive a da realeza, manejam uma linguagem baseada em conceitos genéricos, creem, como os hebreus e os gregos, na raiz divina da poesia e adivinham que a alma sobrevive à morte do corpo. Essas qualidades, na opinião do operoso relator, redimiriam os Yahoos, legitimando a defesa de sua cultura.

No livro Borges/Osvaldo Ferrari – Sobre a filosofia e outros diálogos (Hedra, 2009), com organização e tradução de John Kuinghttons, Borges retoma o tema desenvolvido no “Informe de Brodie”, dessa vez justificando-o filosoficamente: “É claro que toda cultura é mais ou menos rudimentar, mas temos de tentar salvá-la”.

Mais adiante, Borges reforça sua defesa da cultura in abstrato com a seguinte alegação: “Penso que a cultura não pode ser entendida sem a ética”. Isso equivale a dizer que, para ele, cultura se confunde com ética de forma inextricável e, além do seu largo sentido filosófico, teórico, oferece às pessoas uma práxis social pautada pela correção, pelo princípio da razão e do diálogo, em suma, pela ética.

O diálogo, aliás, é o tema eleito por Borges para discorrer, no seu tête-à-tête com Ferrari, sobre as virtudes desse gênero eminentemente social, segundo ele, criado pelos gregos: “No diálogo se consideram as diversas opiniões possíveis, e, de alguma maneira, se substitui o dogma e a prece também”.

Ainda dentro desse tema, Borges considera que um bom ponto de partida para o diálogo é supor que o interlocutor tem razão, lição que diz ter aprendido com os japoneses, nas duas viagens que fez ao Japão, país que o impressionou a ponto de levá-lo a estudar o idioma japonês.

Idêntica virtude percebe no idioma francês, em cuja conversação as palavras parecem admite inflexões de sentido, sublinhando pequenas diferenças, recusando outras, mas cortesmente. Em suma, o francês é, em seu modo de ver, um “idioma pensativo, digamos, não é um idioma que parte de uma verdade pressuposta, mas que está estudando os diversos matizes, as diversas possibilidades de um tema qualquer”.

Não deixa de ser interessante a visão de Borges sobre o declínio da leitura literária, fenômeno já claramente perceptível na última década do século passado. Seu diagnóstico, porém, é sumamente original. Trata-se, segundo ele, nada menos do que uma espécie de ascetismo. Mas de um ascetismo todo particular, praticado por “masoquistas que se castigam, não se sabe por que motivos, se abstendo dessa felicidade (a leitura) que está tão perto de todos”.

Outro traço marcante desse fenômeno, segundo Borges, é que se trata de um ascetismo que é praticado de maneira inconsciente, já que ninguém o justifica, o que o torna, portanto, intrigante e difuso, sugerindo-lhe prenúncios de um futuro em que a única função dos livros seria meramente decorativa.

Contra esse cenário culturalmente apocalíptico, Borges propõe um antídoto: a leitura em voz alta. E lamenta: “Mas é claro que isso agora está se perdendo, já que as pessoas estão perdendo o ouvido. Infelizmente, todos são capazes de leitura em voz baixa, porque não escutam o que leem, passam diretamente para o sentido do texto”, conclui.

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“Borges considera que um bom ponto de partida para o diálogo é supor que o interlocutor tem razão, lição que diz ter aprendido com os japoneses, nas duas viagens que fez ao Japão, país que o impressionou a ponto de levá-lo a estudar o idioma japonês”.

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