A difícil amizade com Israel

Mario Vargas Llosa
O Estado de S.Paulo

A cada dia que passa, fica mais difícil ser amigo de Israel, exceto para aqueles que acreditam incondicionalmente que tudo o que as autoridades israelenses fazem é bom, que todos os palestinos são terroristas e as críticas à política de Israel são sempre produto do antissemitismo. Continuo amigo dos israelenses, apesar da repugnância que me inspira o governo atual, a intransigência fanática dos seus colonos, os abusos e, às vezes, os crimes que Israel comete nos territórios ocupados, em Gaza, ou fora das suas fronteiras, como vimos com os nove mortos e as dezenas de feridos da frota da liberdade.

Essa última é somente uma das facetas de Israel. Há uma outra, admirável e exemplar, diluída pela primeira, contudo mais permanente e representativa: a de um país democrático e pioneiro, que, no meio do deserto e ao mesmo tempo em que travava três guerras, conseguiu formar uma sociedade do primeiro mundo, próspera, moderna, pluralista, com instituições sólidas, na qual se integraram pessoas com hábitos, línguas e tradições de todo o mundo.

Embora não o seja para os árabes, é uma sociedade absolutamente livre, na qual as pessoas exercem seu direito, de maneira sistemática, de criticar o poder com tamanha beligerância e virulência como jamais se observou em qualquer país do Oriente Médio, e é raro até mesmo nas democracias do Ocidente. Para mim, o trágico é que aqueles que se opõem à política de Benyamin Netanyahu e brigam por uma solução negociada do problema palestino são uma minoria eleitoral. No entanto, eles estão lá, desmoralizados.

Passei nove dias com alguns deles e, por isso, creio que há esperanças de que os falcões de Israel e os terroristas do Hamas acabem perdendo terreno e seja ressuscitado o espírito de Oslo, quando a paz esteve tão próxima, mas foi frustrada pelo assassinato de Yitzhak Rabin.

Esta foi a quinta vez que estive em Israel. Cheguei poucos dias depois da imbecilidade cometida pelas autoridades, impedindo Noam Chomsky de entrar no país – ninguém como elas para, com suas medidas equivocadas, contribuir para o desprestígio da imagem internacional do seu país.

Parti três dias depois de os comandos israelenses tomarem de assalto, em águas internacionais, o Mavi Marmara, um ato violento inútil que fez tanto dano para a imagem de Israel no mundo quanto a invasão do Líbano. Que também lhe valeu a inimizade da Turquia, seu único aliado entre os países muçulmanos, e uma avalanche de condenações que estão longe de cessar. Mas, ao que me consta, houve em Israel protestos enérgicos por essa minoria de “justos” – no sentido que Albert Camus dava à palavra.

No dia em que proferi uma conferência na Universidade Hebraica de Jerusalém, presenciei uma manifestação de estudantes árabes e israelenses, portando cartazes condenando a ocupação de casas pelos colonos judeus em Sheikh Jarrah. No dia seguinte, estive na praça vizinha a esse bairro onde, todas as sextas-feiras, reúnem-se centenas para protestar contra as tentativas do movimento colonizador extremista Gush Emunim, de ocupação de áreas palestinas. Encontrei-me com velhos amigos, como Meir Margalit, líder de uma organização de voluntários israelenses que reconstrói casas dos palestinos dinamitadas pelo Exército com a justificativa de que pertencem a parentes de acusados de terrorismo.

Também fazia parte do grupo Yehuda Shaul, fundador da organização Quebrando o Silêncio, integrada por ex-soldados do Exército empenhados em “abrir os olhos de israelenses e estrangeiros sobre os excessos e violências cometidos contra os palestinos”.

Passei o dia todo com Yehuda percorrendo as grutas do Monte Hebron, um espetáculo deplorável de camponeses e pastores árabes que, desalojados de suas terras pelos colonos de Gush Emunin, aferram-se a um território cercado de postos militares, onde os poucos poços de água que existiam foram fechados pelos invasores para forçá-los a partir. A maioria dos israelenses, que alcançou um nível de vida tão alto como o dos países mais avançados, nem mesmo suspeita que, a pouca distância das suas casas, vive uma sociedade miserável condenada ao desaparecimento.

Mas é ainda pior o espetáculo em Gaza, para onde voltei um dia depois do assalto ao navio Mavi Marmara. As casas bombardeadas nos bairros de Beit Lahiya, ao norte da Faixa, e de Ezbt Abed Rabbo, exibem interiores dilacerados, pedaços de ferro e escombros por toda a parte. O pior não é a desolação, mas ver que, sob essas ruínas, vivem famílias inteiras, crianças esfarrapadas e descalças brincando, inconscientes do perigo que correm.

Num artigo publicado em 8 de junho no El País, Bernard-Henri Levy nega que exista fome em Gaza pois Israel, diz ele, permite a entrada de caminhões de alimentos, diariamente. Ele está muito mal informado. Existe fome em Gaza, desnutrição, doenças que não podem ser curadas e gente que morre por falta de remédios e material para as equipes médicas, como qualquer pessoa pode ver ao visitar o hospital Al-Shifa, conversar com os médicos e se horrorizar com as condições em que trabalham.

O bloqueio de Gaza não tem desculpa, pois condena um milhão e meio de habitantes a uma morte lenta. As principais vítimas não são os terroristas, mas os seres mais desvalidos: idosos, mulheres, doentes e crianças. O bloqueio não lhes permite importar ou exportar, nem pescar, já que só podem fazê-lo dentro das três milhas marítimas da praia, “onde não há quase peixes”. Quem vive sob essas condições dificilmente não abrigaria o ódio e o ressentimento que tornaram possível a vitória eleitoral dos fanáticos do Hamas.

A organização terrorista voltaria a vencer as eleições? Quase todas as pessoas com quem falei em Gaza me garantiram que a decepção é muito grande com as autoridades atuais e que o Fatah recuperou a popularidade que tinha nos tempos de Arafat. Isso se deve ao apogeu econômico que se observou na Cisjordânia, graças à política do primeiro-ministro Salam Fayad.

Um dos grandes paradoxos do que ocorre agora em Israel é que, pela primeira vezes nestes 35 anos que venho visitando o país, todos os israelenses com quem conversei – e foram muitos – aceitam como princípio, alguns com alegria, outros com resignação, a fórmula de dois Estados independentes como solução do problema regional.

Qual é a razão, então, para não haver negociações? Os colonos. São apenas 400 mil, mas são ativos, fanáticos. Entretanto, num jantar com o jornalista Gideon Levy, do qual participavam dois escritores que admiro, A.B. Yehoshua e Amos Oz, este último assegurou-me que apenas uma fração de alguns poucos milhares de colonos resistiria pelas armas a um acordo israelense-palestino. O que falta não são ideias, nem boa vontade, mas um líder lúcido e corajoso que atue. Ah! Se os justos de Israel estivessem no poder!

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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