A discussão já é um estudo

Minchoni, treplicar e replicar é próprio de toda discussão; “deformar” conceitos é próprio de todo ser humano – e isso é um grande lance, já que conceitos não são estáticos (ou pelo menos não devem ser), são mutantes  –; e quanto à sua insistência em afirmar a necessidade de estudo para discutir grafite, vale lembrar que a discussão já é um estudo e que, para além disso, ninguém aqui é um idiota que decidiu se meter num assunto com o qual não tem afinidade alguma e eu tenho certeza de que não precisamos conferir o currículo um do outro para respeitarmos isso.

Primeiro, é importante delimitar mais ou menos o conceito de institucionalização que está em questão aqui, porque institucionalizar, no meu dicionário, diz respeito a um processo mais profundo e não é sinônimo direto de corporativismo (na verdade, não sei de onde você tirou isso). A institucionalização opera no âmbito simbólico, ou seja, diz respeito à delimitação de um espaço simbólico com códigos e modos de operar mais ou menos definidos. Quando Duchamp questionou toda a instituição da arte com seus ready-mades, o que estava em jogo ali era uma série de procedimentos e padrões que envolviam, dentre outras coisas, a noção do que é arte e do que é ser artista e não apenas a decisão de pôr ou não peças numa galeria.  A instituição da arte (o mundo da arte) àquela altura operava de forma diferente da de hoje, e o dadaísmo serve mesmo a essa destruição, que é em grande medida fundante das vanguardas do séc. XX, mas é fato também que o séc. XX terminou e que este nosso sistema, “como dizia Luis Carlos Maciel em ‘a morte organizada’, final dos 70 inicio dos 80, ‘ou reprime ou absolve’”. Por exemplo, parte da crítica contracultural erigida nos confins de Maio de 68, a esta altura, conforme li há um tempo na Carta Potiguar, integra o delirante cardápio de consumo do Novo Espírito do Capitalismo – todos estão interessados em  comprar certa autenticidade, certo distanciamento da massa. Quão terrificante pode ser nos depararmos com um capitalismo que se apropria de tudo que vê pela frente, inclusive da contracultura? E nesse sentido basta observar a forte influência da street art no âmbito da decoração de interiores burguesóides, ou mesmo as inúmeras capas de caderno que fazem referência à cultura da arte de rua, ou, indo além, a apropriação do estilo rock and roll pela meninada da Capricho. É claro que, por outro lado, a ação patética da polícia em reprimir o trabalho de grafiteiros por aí afora faz pensar no não reconhecimento da instituição do grafite pela instituição da sociedade. Este é um processo outro em relação à institucionalização do grafite, mas que, lentamente, põe-se em andamento (note-se a recente lei instaurada, que me parece que contém controvérsias, e merece ser discutida aqui também num próximo momento). Assim como outros processos sociais recentes com esse sentido de “institucionalização da liberdade”, marcado por lutas no sentido de legalizar coisas (o aborto, a união homoafetiva, a maconha) e reivindicações por uma democracia absoluta.

Ao dizer que “claramente, o graffiti só é graffiti feito sobre as regras do graffiti”, dessa maneira, definindo bordas aparentemente irrevogáveis, um campo simbólico (com códigos e modos de operar definidos), é você quem subsidia a afirmação do Vicente Vitoriano – com a qual eu, até certo ponto, concordo – de que o grafite foi institucionalizado. Foi institucionalizado não na cabeça leiga (?) de um Vicente Vitoriano, mas na própria forma como você está lidando com o grafite nesta discussão. Ou seja, a sua afirmação de um dever-ser do grafite enquanto prática aplicada à vida (quer dizer: há o modo de ser grafite), implica na instituição de uma pragmática tal que é capaz de exercer coerção sobre o indivíduo a ponto de fazê-los submeter-se a ela (compreenda: só posso ser grafite se aderir ao modo de ser grafite), e isso, em termos sociológicos, pode implicar uma institucionalização. Pessoalmente, não vou aderir a um purismo que possa desmerecer o grafite pelo simples fato de ele constituir, nesse nível de relação até aqui exposto, uma instituição, tampouco vou afirmar aqui que o fato de os Gêmeos ganharem dinheiro inviabiliza sua ação em contracultura (coisa que eu nunca disse), ou negar o caráter insurgente que há nas obras feitas nas paredes da ribeira-de-ninguém nesse domingo, porque acho que a arte, pelo simples fato de inventar pontes de um lugar a outro, instaurando movimento, é já insurgente. Chamo aqui, mais uma vez, a atenção para um elemento que pode ficar mal-entendido: a institucionalização do grafite não implica no reconhecimento da instituição do grafite pela instituição da sociedade, como já disse, esse é um processo diferente, que tem procedimentos diferentes. A instituição da sociedade tem seu próprio dever-ser, em relação ao qual o dever-ser institucional do grafite é marginal, isso é inegável – mesmo havendo quem consiga grana para reverter em kaos para sociedade e quem não consiga nem tirar a grana pra pagar o aluguel.

Dados os dois últimos parágrafos, encaminho a discussão para outro ponto, um pouco adiante desse sobre o grafite ter-se tornado uma instituição, vejamos: quer o grafite tornar-se uma instituição abrangida pela instituição social que vigora?

Tomando mais uma vez a tua definição de grafite, que eu escrevi como a diferença “entre a arte do grafite e a técnica do grafite”, esta caracterizada “pelo uso em galerias e outros espaços institucionais (a saber, circuitos culturais, paredes autorizadas, …)”, o que não corresponde à “arte do grafite, que se caracterizaria pelo drible da institucionalização, pela potência de crime poético e pela apropriação de espaços não destinados” –, fica claro que não, que a instituição do grafite não almeja fundir-se à instituição social. É nesse ponto em que Hakim Bey me parece estar, nessa atuação na fronteira margem-centro, alargando horizontes, rasgando horizontes, depravando (em sentido anti-fascista) paredes, olhares e posturas, através da experiência de pico, o levante suscitado, a zona autônoma (t) instaurada. Escrevo para fins de anarquia também, tenho dito milhares de vezes: “eu não quero entrar no circuito, quero esquizofrenizá-lo.”

Para terminar, suscito uma discussão para os próximos momentos: em que medida, pode-se esquizofrenizar o circuito de dentro dele? Em que medida o circuito pode conseguir normalizar a esquizofrenição? Quais as implicações desses embates?

post-scriptum: conversando com Pedro Ivo ontem lá no setor II, concordamos, eu e ele, de que essa sua resistência à minha participação nesta discussão sobre grafite é restritiva e infundada. Concordamos também, eu e ele, que o grafite toca de diversas maneiras a vida, não se limita apenas à relação obra-recepção, diz respeito também à relação do próprio conceito de grafite com a vida e com a sociedade – quais as pontes que isso cria; como isso pode favorecer a pluralidade… Essa discussão é pública, não deve ser exclusiva do metiê do grafite, essa postura fechada tá por fora!

Insatisfeitos do mundo, uni-vos!

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