A dívida

Era noite. Jonas atravessou a Estação Paraíso a passos rápidos. Sua ânsia de chegar ao bar “X” era contrastada apenas pelo silêncio e calmaria que a Avenida do Contorno apresentava. Já passava das 23 horas quando finalmente ele chegou ao local avidamente buscado.

O local apesar de pequeno, dava a impressão pela distribuição interna, de ser maior do que realmente era. Dentro, ao todo havia apenas um balcão e oito mesas muito bem distribuídas. Três delas estavam vazias. O local, era arejado e limpo. Além do proprietário que ficava por trás do balcão, havia apenas um garçom que ficava circulando e levando os pedidos além de ficar limpando e retirando o que já havia sido consumido nas mesas. No canto esquerdo do salão, numa quase penumbra, ficavam instalados dois banheiros, com um desenho que indicava os nomes em letras garrafais por cima: HOMEM e MULHER.

À parte central do local, onde ficava o grosso das mesas e o balcão, havia luz, mas nada que mostrasse uma irradiação própria desses bares que de longe já se percebe uma intensa claridade. Havia discrição no lugar, o que sem dúvida comungava com a personalidade do novo proprietário.

A porta principal que dava acesso ao interior do ambiente, era no estilo “salom” dessas em que se vê em filmes americanos de faroeste antigo. Era uma porta velha deixada assim propositalmente pelo dono, para lembrar o clima dos velhos filmes. Essa fora a única característica não removida, quando o local passou de mãos, saindo do antigo proprietário para o atual há pouco mais de um ano. No entanto, a porta contrastava com o tom e pintura nova e recente das paredes internas e externas do local. Como a parte de dentro era pequena, se alguém parasse à frente da porta “salom”, podia claramente ver quem estava instalado dentro do Bar.

Jonas que acabara de chegar, parou na entrada, ajeitou o pequeno embrulho que trazia na mão direita, ajustou os óculos finos, e parou. Retirou a capa preta ainda molhada pela fina chuva que caia naquela noite e ajustou-a no braço.  Em segundos, como em um flash back, lhe veio à mente a primeira e única vez em que estivera naquele mesmo local, também numa noite fria e chuvosa, quando contava com apenas sete anos de idade acompanhado do seu pai. Já fazia bastante tempo.

Jonas era alto e magro, mas não esquelético. A magreza sob um paletó cinza claro, escondia, na verdade, um corpo bem torneado e adequado ao peso, com peitos e músculos bem ajustados ao formato geral. Os óculos redondos e de armação fina, lhe dava uma dureza no rosto, cuja impressão final era a de um homem sério, pouco falante. Mas nada grosseiro. Jonas, na verdade, era um pai de família dedicado, casado há mais de vinte e cinco anos, cujo amor que parecia “escondido” para quem não o conhecia de perto, sob um olhar sério e até certo ponto distante, era devotado à esposa e aos três filhos, cujo zelo e autoridade eram mantidos dentro dos limites de um padrão antigo e dignamente cultivados. A classificação de um trabalhador dedicado e um marido e pai devotado, seria uma boa descrição.

Jonas passou o pequeno embrulho para a mão esquerda e com a mão direita foi abrindo aos poucos a porta do Salão, o que permitiu ir adentrando calmamente e com cuidado para o centro do Bar. Mais uma vez ajustou rapidamente os óculos. Olhou para o centro do bar e para o lado esquerdo do ambiente e viu as oito mesas que estavam espalhadas adequadamente.

Antes de encostar-se ao balcão, percebeu a única mesa que ficava afastada das demais, colocada exatamente na lateral esquerda de quem olha de frente para o balcão, de tal forma, que parecia mais escondida que amostra. Pela pouca luz que recaia sobre ela, quase não enxergou que era uma das cinco mesas que estavam ocupadas. Ele olhou novamente de soslaio, rapidamente, e percebeu quem nela estava.

“Era ele”, não teve dúvida. Apesar da penumbra e do olhar rápido estava certo. Aproximou-se do balcão. O proprietário com uma calvície acentuada, olhou para aquele cliente que pela primeira vez visitava o local, e rapidamente se apressou em colocar dois tipos diferentes de copos sobre o balcão, como quem indagando com o gesto, que tipo de bebida aquele freqüentador novato iria pedir. Jonas sem repousar no balcão o embrulho que se encontrava em uma das mãos, nem a capa de chuva no braço, pediu uma dose de Whisky, acrescentando “sem gelo”. Olhou mais uma vez de soslaio. Não tinha dúvida, “era ele”. Tomou o whisky de um só gole e pediu outra dose apenas acenando com o dedo para o copo. Foi nesse momento, que o proprietário sentiu certo “ar” de preocupação no novo cliente. Mas nada falou e apenas executou o pedido.

Depois de terminado o trago e antes de pedir a terceira dose, Jonas olhou de frente para o freqüentador na mesa que se encontrava na lateral do balcão. Havia pouca luz, sim. Mais uma vez ele não teve dúvidas. Calmamente agora, tomou a terceira dose, colocando também calmamente o copo sobre a mesa.

O proprietário do bar era um homem de estatura baixa, atarracado, com poucos cabelos na cabeça, penteados para trás, o que deixava a calvície à mostra. Comprara aquele bar, depois que vira nos jornais o anúncio de venda que o antigo proprietário expôs em um dos jornais da cidade.

Jonas pediu outra dose. Foi então que o novo proprietário perguntou: “Vem de longe?”. À pergunta feita levou Jonas a olhar fixamente para Manoel, o dono do bar.

Após alguns segundos, respondeu: “Sim, de muito longe”, mas o longe, na verdade, não era no sentido geográfico e sim no tempo.  “Alguma cidade próxima?”, arriscou novamente buscando levar à frente a conversa. Agora, no entanto, a resposta obtida foi o silêncio. Jonas começou novamente a tomar lentamente a outra dose de Whisky. Nesse momento como que tomado por um impulso começou a se dirigir à mesa lateral, onde apenas um único ocupante se encontrava sentado. Com o copo na mão, além do embrulho e da capa, aproximou-se e antes de sentar, perguntou com voz calma e serena: “posso?”, apontando para uma das cadeiras vazias na mesa.

Ao ouvir a pergunta o homem que mais parecia dormir, começou lentamente a levantar a cabeça, até fixar os olhos nos de Jonas. Olhou-o fixamente por alguns segundos, e sem nada dizer, apenas acenou com a mão estendida indicando a cadeira.  Era o gesto que Jonas esperava.

Sentou-se. Puxando uma das cadeiras vazias da mesa, colocou o embrulho e a capa de chuva sobre ela. O homem que estava sentado apenas acompanhou seus gestos. Na verdade, não esboçou nenhum movimento que indicasse alguma vontade de iniciar uma conversa.  Sua atitude fora puramente cortês, quase mecânica.

Jonas olhou-o demoradamente e perguntou: “Seu nome é Otacílio?”. Com um olhar frio porém distante, o homem não apresentou qualquer reação de surpresa. Ao contrário. Continuou impávido e apenas baixou e levantou suavemente a cabeça confirmando.

Vendo a imobilidade do homem, Jonas continuou: “o senhor não me conhece…mas eu sou filho de Francisco Duarte de Medeiros, e hoje eu vim aqui saldar uma dívida antiga”. Sem emitir mais nenhuma uma palavra retirou de dentro do embrulho sobre a cadeira, uma arma calibre 38 e despejou seis tiros a queima roupa no homem a sua frente.

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