A Doris Day e eu

Por Luis Fernando Verissimo
O Estado de S.Paulo

Me lembrei do que o Groucho Marx disse sobre a Doris Day, “Eu a conheci quando ela ainda não era virgem”. Para os nascidos ontem: Doris Day foi uma cantora e atriz que simbolizou uma era no cinema americano em que ninguém dormia com ninguém. A não ser que estivessem casados, e assim mesmo em camas separadas. Doris era uma boa cantora, apesar de uma voz tão melosa que podia ser comida com panquecas. Como atriz, foi a prototípica mulher da época, segundo Hollywood. Moderna, emancipada – mas antes do casamento, nem beijo de língua. Groucho a conheceu no começo da carreira, cantando em boates de segunda e disposta a fazer qualquer coisa para entrar no cinema. Sua virgindade ainda estava por vir.

Guardados os devidos contextos, estou me sentindo um pouco Doris Day. Você deve ter lido que os mapas astrais estavam todos errados. Não foram ajustados de acordo com variações no eixo da Terra, ou coisa parecida, o que significa que estamos nos guiando por alinhamentos de astros que já mudaram de casa há muito tempo. O zodíaco como nós o conhecíamos está superado. Nossos signos são outros. Descobri que eu, por exemplo, não sou mais Libra. Agora, como a Doris Day, sou Virgem!

Eu deveria ter desconfiado. Há muito tempo que minha vida supostamente regida pelo símbolo da balança não correspondia às previsões astrológicas para os de Libra. Os encontros que mudariam a minha vida (uma loira? um mestre espiritual? o Eike Batista?) não aconteciam. Minha personalidade também não fechava com as características típicas de um libriano. Eu, um falastrão, amante de esportes radicais e pagode? Devia haver algum engano. Pois o engano foi descoberto. A relação da Terra com o cosmos estava desfasada. Ninguém estava mais no seu signo original, só não sabia. Para pegar o exemplo mais à mão, eu levava uma vida de Virgem mas buscava orientação em Libra. Não podia dar certo. Impossível imaginar quantos buscaram um destino equivocado baseados no que lhes dizia uma astrologia obsoleta. E agora? Processar quem?

Quanto a mim, só resta me acostumar com a virgindade retardada.

Chega pra lá, Doris.

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