A educação dos sentidos em “Habitar teu nome”

O quanto um título significa num volume de poesia, além de simplesmente nomeá-lo? É de supor que muitos poetas o utilizem tão somente como um recurso de identificação, uma mera formalidade que pouco interfira na estrutura e no espírito do livro. No caso específico da poesia de Marize Castro, isso parece acontecer, se se pensa, por exemplo, em seu mais recente trabalho, “Habitar teu nome”, lançado no apagar das luzes de 2011.

Em que medida o título determina o curso que a poesia desse livro deve seguir? Provavelmente nenhuma ou, quando muito, estabelece com ele uma relação frouxa, de pouco compromisso, na medida em que os poemas se diluem nas páginas de forma homogênea, livres de qualquer elemento distintivo, salvo o próprio poema. Note-se que aquilo que aparece no sumário como título, não passa de um meio prático para remeter o leitor ao primeiro verso do poema. De outra forma, a alternativa seria dispensar o sumário.

Em se tratando de Marize Castro, poeta já incorporada ao cânone contemporâneo, esse recurso não se apresenta mais sob a forma de um experimento. É, antes, o prosseguimento de uma prática posta em curso desde seu primeiro livro, “marrons crepons marfins”, de 1984, e que, embora contrariada em “Lábios-espelhos” (2009) e parcialmente em “Rito” (1993), retorna em “Habitar teu nome”.

Seguramente, Marize se sente mais à vontade liberando seus poemas da couraça dos títulos, apêndices às vezes incômodos pelo que apresentam de artificial ou supérfluo. Porém, é possível que haja por trás desse desconforto poético uma segunda razão: a linhagem que vai de “marrons crepons marfins” a “Habitar teu nome” indica que não há solução de continuidade entre seus poemas. Em outras palavras, há um traçado contínuo e regular ligando, como uma marca d’água ou uma linha de sombra, cada livro ao seguinte, cada poema com cada outro poema, de forma a constituir um discurso poético autorreferenciado e que segue em uníssono.

Essa impressão de “familiaridade” que emana da leitura especular de “Habitar teu nome”, relativamente aos seus títulos precedentes, não se confunde, porém, com repetição; é, antes, a continuidade de um projeto poético de natureza centrífuga, que cresce e se expande em várias direções, mas sem renunciar à sua subjetividade própria, paralelamente ao amadurecimento intelectual e à educação sentimental da autora e que encontra, na expressão poética, sua exata tradução.

Por isso, por trás das reticências que suspendem, por assim dizer, o voo de pássaro do poema, congelando-o sob uma determinada forma no ar rarefeito do branco da página, resta uma constatação, uma sugestão que ficou, quem sabe, para um próximo poema; ou mesmo uma confissão, mas nunca explícita.

Em última instância, a poesia de Marize Castro é a sua melhor verdade, como ela o diz explicitamente no poema “Esta palavra”, abrindo “Habitar teu nome”. E anuncia seu custo: “perdi metade do meu coração” a essa “inaudita senhora” (a poesia). A um tão precioso custo, não surpreende que sua poesia se reserve uma dicção introspectiva, voz intimista que parece anunciar cada poema como quem sussurra, não como quem brada; como quem reflete, não como quem improvisa. Ou como alguém cujo sono é feito de “ausências, sobressaltos, espantos”.

Por isso, enfim, lançando mão da imagem de um náufrago, a autora depõe por instantes todas as defesas e anuncia: “disfarço-me / de calmaria / e poucos sabem / quem sou // quem dera que as ondas / fossem mais sinuosas / e os dilúvios / mais constantes // quem dera que entre / essas algas / surgisse a pérola / de antes // somente ela valeria / esse naufrágio” (“disfarço-me”). Esse é também o máximo de explicitude que uma poesia introspectiva como a de Marize Castro pode se permitir, sem abrir mão daquilo que lhe é essencial.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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