A eleição em Natal – 2 (Cangueiros e Cangueirices)

Por Tião Carneiro

Talvez outro motorista ficasse apoquentado. Mas só fiz rir. Juro. Foi assim. Ontem, sábado, 15 do nove, trafegava pela Presidente Bandeira, principal avenida do Alecrim, bairro desta Natal, antigamente cheirosa, quando o carrão da frente freou de forma brusca. Por causa das crateras, enfileirávamos em marcha lenta. Numa boa, brecamos, eu e meus seguidores. Eu tinha percebido a montanha de lixo obstruindo um pedaço da rua, mas o puxador da fila, não.

Distração acontece, entendo. Agora o que não deu para entender foi a luta do luxuoso a fim de livra-se do lixo. Entre mim e o importadão havia um espaço da bexiga. No mínimo dois metros. A luz da ré acendia, mas o bonitão mal rabiscava o chão. Minha carona, uma amiga, exasperou-se: “Que porra é! Que mengado é um, Tião! O lindão aí vai terminar…”

Bom, depois de as buzinas atrás da gente começarem a xingar, de minhas mãos se fadigarem de falar “venha mais”, da amiga ameaçar descer do carro, o danadão conseguiu sair. Saiu, mas ainda desmanchou uma sacola de imundice.

“Vão com Deus, cangueiras”, foi a saudação da amiga, para em seguida pôr a mão direita na boca, surpresa que ficara, porquanto acabara de reconhecer a pilota e a copilota (feio, não?) do danadão.

Amanheci o domingo me lembrando da imunda cangueirice. Então passei a vislumbrar barbeiragens em toda sociedade, embora sejam mais perfeitas nos administradores públicos. Ontem mesmo, após deixar a amiga em casa, parei num posto de combustível, mandei botar 50 reais de gasolina, dei 100 reais ao bombeiro e pedi trocado o troco. “Assim o senhor me quebra, meu patrão”, disse o rapaz, risinho safado, dando-me uma nota de 50 reais. Foi ou não foi barbeiragem do cara?

Tenho certeza de que os tempos modernos trouxeram de rebarba a preguiça, de contrapeso a insensibilidade e, desta, as barbeiragens. Juízo de brejeiro, concordo, mas acompanhe-me num raciocínio vira-lata. Internet, redes sociais e outras malhas são sinais de modernismo, certo? O que nasceu daí? O olho no olho das conversas acabaram escasseando, o sujeito começou a procurar respostas no tal do Dr. Gugo e afins, e a preguiça passou a cruzar as pernas e a fumar cachimbo na mente desse pessoal. Resultado: insensibilidade, visto o pensar ter ido pro beleléu. Já se sentiu sensível distante do pensar, compadecido na ausência do refletir, sentimental sem se vestir da pele do sofredor? Então! Então a modernidade é nociva? Não! Precisa tão somente da compensação contemplativa.

Babaquice? Filosofia de boteco? Pois diga! Não posso dar minhas derrapadas, não, é?

As barbeiragens são mais perfeitas nos administradores públicos, dizia eu, conquanto fuja da generalização. Em Pernambuco, por exemplo, acabo de ler nas folhas, tem um cara que dirige bem pra caramba. Ai que inveja, falei-me e corri paras as folhas da Tribuna do Norte. Corri, mas a cidadania escorregou e levou no quengo estes tabefes:

“Ladrões de carros bateram novo recorde: roubaram 2096 carros entre janeiro e julho de 2012 na insegura capital do RN.” Li, tremi, levantei os braços e passei para a notícia seguinte.

“Cadáveres se acumulam no pátio do Itep/RN, visto a geladeira estar quebrada.” Li, arrepiei-me, fiz o sinal da cruz e fui adiante.

“Partos estão suspensos nas maternidades municipais. Motivo: médicos e anestesiologistas estão há três meses sem receber salários.” Li, entristeci-me, soltei um palavrão, mudei de folha.

Mudo de folha e quase caio pra frente. Estava empenado pra frente, absorto na leitura, entendeu agora? De mais a mais, cair pra trás é muito perigoso, acho. Veja a manchete e avalie se não tinha motivo para me surpreender.

“Avenida do lixo. 29 pontos de sujeira.” Sabe qual é a avenida? Nossa conhecida Presidente Bandeira, a mesmíssima da barbeiragem. Noutros tempos, ponto era o local em que eu vendia jogo do bicho ou onde o táxi do amigo Bombril aguardava os passageiros. Hoje até lixo tem ponto. Eu, hein!

Certamente o repórter errou a contagem. Comeu mosca duns cinco buracos, pelo menos. Buraco e lixo, pessoal, fizeram um acordo para sobreviverem incondignamente. O lixo se esconde no buraco. Simples, não? Com isso, os dois ficam escondidinhos e passam despercebidos. Coisa de peritos, de quem sabe dirigir, golpe de mestre. Amanhã darei uma volta na avenida e verei quantas moscas o repórter comeu. Depois direi a você. Prometo.

Agora lhe pergunto. Se as nossas governantas tivessem a perícia daqueles dois, se tantas barbeiragens não cometessem, estaríamos a lamentar a habilitação a elas concedidas? Ora pois! Vou propor uma emenda constitucional nos seguintes termos. Antes, devo dizer aos nobres moradores de cidades cheirosas e desburacadas que este Grande Rio tem o Norte, digo, Morte, administrativo de uma médica. Já a fedorenta e escavada capital desse Rio tem a Morte, digo, Norte mandatário de uma jornalista. Ambas distintíssimas e…

Sim, a emenda. O governante precisa ser perito em dirigir, gente. Caso queiram, podem retirar a vírgula entre dirigir e gente, tá certo, gente? Bom. Vamos ao projeto. A fim de praticar o equilíbrio e de evitar cangueirices, o pretendente à habilitação ficará quarenta dias dirigindo um jumento, trinta conduzindo uma bicicleta, vinte guiando uma vespa. Tudo numa rua estreitinha e cheia de catabilhos. Caso seja aprovado, aí, sim, poderá montar numa giroflex. Que acham? Evitaríamos muitas barbeiragens, suponho.

Cangueiro é fogo, pessoal. Vira mundo e fundos a fim de que o habilitemos. Vive com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a hora do exame chegar. Dissimulado, no mais das vezes, fica puto da vida quando o tachamos de cangueiro. Enganador, vezes dirige razoavelmente numa rua pixititinha. Mas as pixotadas aparecem quando pega trânsito congestionado.

Dia desses, estava no estacionamento da Assembleia Legislativa daqui, presenciei a desenvoltura dum magrinho no volante de belo quatro portas. Magistral baliza o cara fez. Taí, esse magricela sabe dirigir, pensei. Vou habilitá-lo, disse-me.

Disse a mim e agora digo a vocês: vou habilitar o Mineiro.

É isso. Desculpe, você de outras praças, a exposição de algumas mazelas desta belíssima cidade. Belíssima, sim, ainda que assim, assim, assim e assim atualmente. Sabe de uma coisa, gente daí? Quem anda mordida com a gente daqui é a dignidade. Diz ela, a dignidade, que somos motoristas pra lá de barbeiros.

Ah, você sabe quem era a cangueira do danadão, não sabe? Sabe, uma ova. Sabe que a médica e a jornalista estavam no bonitão, mas não de quem era a cangueirice.

Vote com perícia, fuja de gente cangueira.

Até mais ver, desculpe as derrapagens e um fraterno abraço,

Tião

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