A elite brasileira e a epigênese do atual caos político

Elite, em geral, especialmente em países historicamente vítimas da colonização, já expressa um sentido pejorativo; como pejorativo é o conceito de ideologia dentre os conservadores e elitistas. Ser elite etimologicamente sempre esteve ligado a um grupo seleto de indivíduos escolhidos entre pouquíssimos chamados. A elite intelectual de um povo; a elite cultural; elite pensante; etc. Todavia, ser escolhido bem pode ser entendido como eleito, léxico apropriado, por exemplo, ao campo da política e da democracia.

Neste sentido, a elite seria os eleitos pela maioria, constituindo-se numa elite política a governar as nações. Não é o que se dá: a elite que aqui está, falando-se de Brasil, longe está de ser a voz que representa a maioria. E por que não? É de se pensar. Em tempos de generalizações convém certos cuidados ao se discutir alguns conceitos. No caso do Brasil, convém que nos situemos historicamente para entender o conflito. Quem é a elite brasileira? De onde vieram? A que aspiram? Terão frustrações?

Gostaria de começar pela última questão. Parece-me que a elite brasileira é indiscutivelmente fruto de uma frustração. A frustração de não ser brasileira ou, outra face da mesma moeda, a frustração de não ser o Brasil o país dos seus anseios. Ou seja: aspiram a pertencer a um país que lhes pertença. Oriundos de um outro mundo ao qual não pertencem, são desterrados ab origene. Eleitos de lugar nenhum. Não sendo daqui nem de lá, sequer lhes cabe a “canção do exílio”. Creem-se oriundos de Europa; veem-se pertencentes ao império norte-americano; mas estão alocados numa terra que lhes repugna o odor, os suores, os ritmos, as cores. Arianos mestiçados, enfim, desde o primeiro estupro da Iracema nativa e da princesa Bantu, jamais conseguiram branquejar a raça que lhes renega, mas viram-na multiplicar-se, alastrar-se e se afirmar nos mais diversos campos de expressão cultural. Cercados, ameaçados, resta-lhes sempre a dominação pela força.

Mas, à revelia de sua força, jamais puderam projetar um legado significativo à memória desta nação. Seu legado sempre esteve atrelado ao da exploração, da perversidade e da perversão. Restou-lhe o legado da escravidão – mácula histórica de que não se podem desvencilhar, inclusive por persistir em seu próprio discurso a semântica da segregação e da discriminação, perpetuando o livre território da exploração degradante do outro.

Herdaram também o legado atávico da corrupção. Hospedeiros de terra nenhuma, sempre lhes coube a exploração inescrupulosa, o amealhar recursos nativos em detrimento da sequela causada à nação. Corruptos por natureza, restou-lhe à transmissão ilegítima desse valor negativo ao país por eles explorado, fazendo-nos crer, equivocadamente, pertencermos a um país geneticamente corrupto. Pérfido engano. A corrupção do Brasil é filha ilegítima da elite que não lhe pertence.

Estas são as razões psicossociais do conflito político ora vivido em nossa triste nação. Ameaçada em sua hegemonia, a elite ilegitimamente brasileira não medirá esforços em desqualificar a nação que explora, em perseguir e defenestrar qualquer protagonista político oriundo das camadas populares tão distantes de sua condição apátrida. A falácia do combate à corrupção mal se sustenta, posto que seriam incapazes de combater a si mesmos. Resta-lhes impingir aos outros o veneno que lhes corre nas artérias para reapoderar-se daquilo que não lhes pertence por direito, embora lhe caiba por sua natureza parasitária.

Professor, poeta e contador de histórias [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo