A Encomenda – miniconto

Sabia o menino que o que trazia não era lá boa coisa. Mesmo assim, prosseguiu no intento de encontrar a casa a que o fazendeiro lhe remetera. Não tinha certeza se era ali naquela rua. A cidade era pequena, todos se conheciam; mas, por alguma razão, aquele endereço não havia sido identificado. Talvez fosse noutra rua, noutro bairro. Mas, como? O endereço havia sido copiado meticulosamente pelo estranho agricultor. O menino, ao fim de uma longa jornada, entrou por uma ruela escura, por entre médias cerejeiras. Possivelmente, havia encontrado o tal destinatário. Tratava-se de uma velha casa de madeira, com uma fachada carcomida e em desequilíbrio, uma espécie de fortaleza em decadência. Foi até a porta marrom e bateu duas vezes. Ao término de infindáveis minutos achegou-se à entrada uma velha desdentada. O menino estendeu o pacote com as duas mãos: – Eis, senhora, a encomenda que meu patrão me mandou entregar-lhe. – Não recebo visitas. Não recebo encomendas. Vá embora, moleque, e não retorne. O pobre mancebo, receoso de ser castigado pelo homem da fazenda, preferiu largar o pacote aos pés da velha e correr de maneira desenfreada. Questionado pelo seu chefe, horas depois, respondeu que havia deixado a encomenda no local tratado. Ao final de uma semana, o infante – estarrecido – ouviu no armazém a notícia que alguém lia alto ao folhear o jornal da província: “Morre idosa envenenada por jovem empregado de fazenda”. Sabia o menino que o que levara não era lá boa coisa…

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Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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