A escrivaninha do avô de meu pai

Por Marcelo Antinori

Neste inverno finalmente fui visitar a casa do avô de meu pai. Nunca o conheci. Viveu em Portugal e morreu quando eu ainda era criança. Conheci apenas minha bisavó, que ano sim, ano não, tomava o avião para nos visitar.

Uma pequena casa em uma aldeia Trás os Montes onde ela vivia com uma de suas filhas. Tudo muito simples, móveis antigos, cristaleiras, bibelôs, mas uma casa iluminada que surpreendia pela alegria.

Janelas abertas por onde as flores do jardim tentavam entrar pela sala. Toalhas bordadas de um branco brilhante e poltronas cobertas com estampas tão vibrantes quanto os lenços que minha bisavó sempre levava na cabeça.

Do avô de meu pai, já quase não havia nada. Apenas uma pequena escrivaninha no canto da sala. Tão pequena que apenas tinha uma gaveta onde Bivó guardava as poucas coisas que ele sempre tinha mantido ali.

Trabalhou como engenheiro em uma empresa de seguros, inspecionando portos onde barcos portugueses ancoravam para garantir que alhures eram tratado com o mesmo carinho que os tratavam em casa.

Com seu trabalho viajou o mundo, conheceu lugares distantes, gente que rezava para outros deuses e tudo isso ele contava em longas cartas que enviava e que ainda são guardadas por ela com grande carinho.

Improvisei uma cadeira, tomada da mesa de jantar, pois a dele já não estava mais, e com movimentos lentos, talvez por receio de quebrar o encanto, abri a gaveta para ver os poucos objetos que estavam ali.

Uma estranha régua da marca Nester, que fazia cálculos e, segundo Bivó, foi comprada em Paris de um engenheiro que trabalhou para o exército alemão. Uma régua aparentemente inofensiva, mas que tinha um passado nazista.

Um compasso da marca suíça Kern. E quando perguntei, com ar grave, se também era nazista, ela respondeu que era de alguém que desenhou um monumento à paz, demonstrando que apesar dos anos continuava esperta.

Uma caneta Parker Duofold de cor vermelha feita no ano em que nasceu meu avô. “Ganhou em Macau. Em uma mesa de dados” disse Bivó “e desde então nunca mais escreveu com outra pena.”

Um frasco de tinta que não era preta, azul ou vermelha. Uma tinta cor de terra, segredo de indígenas, comprada de um cigano ali onde as águas da cordilheira andina descem para formar o Amazonas.

No fundo, um pequeno embrulho atado com um laço de um estranho material. “São papéis feitos na China, comprados em um porto do Mar Cáspio e que até ali chegaram pelo caminho dos mercadores de seda”.

Desatei o laço com cuidado e vi que eram folhas em branco de um papel bem antigo. Não resisti à tentação e perguntei a Bivó se poderia ter uma delas para mim. “Uma apenas?”, perguntou. “Uma só”, respondi.

Abri minha folha sobre a escrivaninha e coloquei sobre ela a Bíblia para aplainá-la. Queria aquela folha branca e lisa em frente a mim, para nela escrever algo bonito com letras cor de terra.

Uma fórmula matemática, foi a primeira coisa em que pensei, talvez influenciado pela régua de cálculo. Algo como o e=mc2 de Einstein ou a2+b2= c2 de Pitágoras. Uma verdade, simples, clara e absoluta.

Sem dúvida que ficaria bem no papel, mas como tinha lido em um dos livros que meu pai guardava: toda verdade é relativa e apenas a soma destas verdades relativas pode representar o fluxo infinito da verdade absoluta.

Uma frase que não entendi completamente, mas que sempre me seduziu. Talvez até pudesse ser essa a frase que escreveria em minha folha branca. Suficientemente dignas, a frase e a folha, para se acomodarem mutuamente.

No entanto, aquilo me pareceu pretensioso diante da pequena escrivaninha, naquela casa da pequena aldeia onde o avô de meu pai escrevia suas cartas para recordar aos amigos que ainda estava vivo.

Quem sabe seria melhor um poema? Nada merece mais uma folha de papel antigo escrito em tinta cor da terra do que um poema. Seria difícil escolhê-lo, mas certamente um poema ficaria bem ali.

Ou talvez não. “Poemas”, disse um dia minha mãe, “apenas refletem momentos”. Como que pinceladas em um imenso quadro. A vida é mais complexa e apenas a prosa, a prosa poética como toda prosa deveria ser, pode representá-la.

Um comentário relevante, considerando que o papel tinha viajado pela história desde a China e a tinta trazia nela segredos e mistérios que apenas os povos originários da América conheciam.

Mas como reproduzir naquela folha um texto de prosa poética? Se escolhê-lo seria difícil, impossível seria resumi-lo com elegância em uma única folha de papel, por mais bela e cuidadosa que fosse a escrita.

Retirei a pesada Bíblia e senti o papel estirado sobre a mesa. Tinha uma textura que atraía ao toque e uma cor pura e entregue, a espera de que letras bem desenhadas fossem colocadas ali.

Que vontade tive naquele momento de ser um escritor japonês que soubesse caligrafar com elegância um haikai poético de significado profundo que faria daquele papel algo merecedor de uma moldura! Mas sou apenas o que sou.

Pensei mais um pouco e preferi guardar a régua e o compasso dentro da gaveta. Segurei a caneta na mão uma vez mais, mas nada escrevi com ela. Quis apenas sentir suas formas como o avô de meu pai as tinha sentido.

O que me atraía ali era a página branca provocando meu desejo, minha imaginação e meu pensamento e por isso decidi levá-la comigo para um dia, depois de tudo viver, poder entregá-la ainda em branco a meus netos.

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP