À espera de uma alegria duradoura

Por Milton Hatoum
ESTADÃO

Em várias fotografias da ocupação de um setor do Complexo do Alemão não aparecem armas nem cenas de repressão ao narcotráfico. São imagens de crianças e jovens que nadam numa piscina ou brincam ao redor dela. Uma dessas piscinas é a de uma “mansão” que pertencia a um chefe do tráfico, cujo apelido irônico é Polegar.

Joel Silva (Folhapress) fotografou uma piscina no Morro dos Macacos, onde já existe uma Unidade Policial de Pacificação (UPP). Essa piscina, antes de uso exclusivo de traficantes, agora é uma pequena área de lazer de crianças e jovens que, nas fotos, expressam alegria e liberdade.

São imagens que sugerem muitas perguntas ao poder público, não apenas do Rio, mas de todo o País. Desde a década de 1970, quando as migrações internas cresceram exponencialmente, a população pobre e miserável das periferias foi abandonada à sua própria sorte. Houve pouquíssimo investimento em infraestrutura, habitação, escolas, postos de saúde, lazer. A periferia é o inferno mais temido, e, de um modo geral, só interessa aos políticos em época de eleições. Lá, tudo é precário, como se esses brasileiros fossem seres desprezíveis, ou seres de um outro mundo, constrangidos e dominados pelos chefes do submundo do crime. Com graus variados de violência e mando territorial, esse submundo age por toda parte: Salvador, Recife, Rio, Belo Horizonte, Manaus, Belém, São Paulo… E também em capitais e municípios menores. Quando o Estado é indiferente e/ou ineficaz, o narcotráfico toma conta desses lugares, coopta uma parte da polícia e um punhado de moradores, e instaura uma força paralela, cruel e criminosa, de que a população é refém.

A recente atuação das Forças Armadas, da polícia federal e das polícias militar e civil do Rio foi eficiente e necessária. Ela é fruto da aplicação do Plano de Segurança Pública, elaborado pela equipe do ex-ministro da Justiça. Numa entrevista ao jornal argentino Página 12, Tarso Genro afirmou: “o sistema anterior era entrar, matar e sair. O novo sistema consiste em que o Estado entre, permaneça e se vincule profundamente com a comunidade mediante programas sociais, investimentos em infraestrutura, educação, urbanização. Ou seja: ocupação de território, ações policiais de alto nível, permanência da polícia e aprofundamento dos programas sociais para jovens. No Rio, foi muito importante a atuação do secretário de Segurança, Antonio Beltrame, nomeado pelo governador Sérgio Cabral”. (www.cartamaior.com.br, 2-12-2010, trad. Katarina Peixoto)

É fundamental que as Polícias Comunitárias (UPPs) e os programas sociais sejam implantadas em outras favelas dominadas pelo tráfico. Será um processo lento e extremamente trabalhoso, pois é difícil instaurar os direitos civis depois de décadas de desprezo pelo povo. O livro Cabeça de Porco (de Luiz Eduardo Soares, MV Bill e Celso Athayde) relata com veracidade as causas que vitimam dezenas de milhares de jovens brasileiros a cada ano. É um retrato estarrecedor da vida de jovens e crianças de várias cidades e regiões do País, uma espécie de radiografia social, cujo diagnóstico revela vidas sem futuro, a maioria delas interrompida com violência.

A conquista dos direitos civis exige planejamento, determinação política, e um compromisso ético dos poderes públicos. E, por que não dizer, uma mobilização dos setores mais esclarecidos da sociedade.

O que alguns líderes do PMDB, PTB e outros partidos – que brigam como hienas vorazes por ministérios e cargos públicos – têm a dizer sobre a ausência quase total de direitos civis dos favelados? E um setor do poder judiciário, quando não pune bandidos de colarinho-branco? E os velhos clãs e oligarquias políticos? E o relator do Orçamento da União?

Até que ponto as “tenebrosas transações” não sequestram a humanidade dos desvalidos? Quando, afinal, os filhos da nossa pátria mãe tão subtraída terão direito a uma alegria mais duradoura, e não fugaz, como diz a canção genial de Chico Buarque?

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