À espera do fim do mundo

Por Sérgio Augusto
O Estado de S.Paulo

No Japão as catástrofes naturais e as que o homem fabrica (desastres nucleares, atentados terroristas) se alternam com tal frequência que não seria exagero dizer que, ao menos lá, a história não costuma se repetir como farsa, mas como tragédia mesmo. E assim tem sido desde a aurora dos tempos.

“Nós já nascemos esperando o fim do mundo”, desabafou-se comigo um jornalista japonês que conheci em Tóquio no final do século passado. Parecia conformado, que jeito?, com o carma histórico do país, de resto, fartamente retratado no cinema, na prosa, na poesia, nos quadrinhos e nas artes plásticas.

O estoicismo nasceu na Grécia, mas se naturalizou japonês sobre os escombros dos primeiros terremotos na ilha. Impressionado com o devastador sismo de 1185, um sujeito chamado Kamo no Chomei entregou-se, na época, a uma reflexão sobre a maneira mais adequada de enfrentar calamidades daquela magnitude (com força de espírito e serenidade) e a partir delas aprender a desprezar a vaidade e as demais mesquinharias deste mundo. Um clássico da autoajuda sísmica, com a mesma dose de moralismo daquela parábola da casa em chamas do Sutra de Lótus.

Avancemos no tempo. O terremoto que arrasou Tóquio em 1923, por exemplo, foi uma “referência espiritual” permanente nas carnificinas encenadas por Akira Kurosawa em seus filmes de samurai. Kurosawa tinha 13 anos quando testemunhou os estragos daquele daishinsai, que, além do saldo de 100 mil mortos, contabilizou 6 mil baixas entre os coreanos residentes na cidade, todos trucidados como bodes expiatórios pelos mais insanos e crueis sobreviventes do terremoto.

Depois dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, e dos mais de 20 testes com bombas de hidrogênio no Atol de Bikini, entre 1946 e 1958, o imaginário japonês ganhou um espectro imbatível, sem o aval da teodiceia: o cataclismo nuclear. Só Masuji Ibuse escreveu dois romances inspirados na destruição de Hiroshima. Não li o primeiro (Kakitsubata, 1951), mas o segundo, Chuva Negra, articulado em torno dos diários dos sobreviventes, merece o prestígio que desfruta há 45 anos. Foi reeditado num dos piques da paranoia apocalíptica japonesa, em 1995, quando do terremoto de Kobe e daqueles atentados a gás venenoso no metrô de Tóquio. A reputada tradução de John Bester sai por US$ 9,50 na versão Kindle.

O Atol de Bikini fica a 3.700km do Japão, mas a poeira radioativa liberada por um teste nuclear, em 1954, similar àquela que envolve Grant Williams na sequência de abertura de O Incrível Homem Que Encolheu, contaminou a tripulação de um pesqueiro de atum japonês. Foi um escândalo internacional, imediatamente aproveitado pelo cineasta japonês Ishiro Honda, expert em pesadelos de ficção científica. Do acidente com o pesqueiro nasceu o mais famoso kaiju (monstro ficcional) gerado pelo pânico nuclear: Godzilla, ao qual logo faria companhia aquela mariposa gigantesca chamada Mothra. Ambos descendem de Namazu, o mitológico bagre que ao abanar o rabo provocava, como o celacanto, os mais terríveis maremotos, então entendidos pelo vulgo como um desequilíbrio entre as forças do yin (água) e do yang (fogo) no interior da terra.

Na revista The New Yorker desta semana, o Nobel de Literatura Kenzaburo Oe conta que, na véspera do flagelo do dia 14, publicara um artigo no diário Asahi Shimbun sobre a luta pertinaz de um pescador que sobreviveu à contaminação de 1954 contra as usinas atômicas instaladas no Japão. Oe, que só consegue ver a história do país pelo prisma dos que morreram em Hiroshima-Nagasaki ou sobreviveram àquelas e outras desgraças mais recentes, considera a opção japonesa de crescer economicamente com ajuda da energia nuclear “uma traição à memória de suas vítimas”.

A primeira Constituição do Japão do pós-guerra proibia ao país possuir forças armadas e artefatos nucleares. Os Estados Unidos revogaram essas imposições na década de 1960 porque necessitavam de uma potência militar na Ásia, para conter a Rússia, a China e a Coreia do Norte. Oe começou a escrever um romance sobre essa insana decisão, cuja frase de abertura são as últimas palavras do Inferno de Dante: “E então saímos para ver de novo as estrelas”. Promete.

Na mesma New Yorker, reaparece o conto de Haruki Murakami, Ufo in Kushiro, publicado originalmente na revista anos atrás e uma das seis narrativas de after the quake (em minúsculas por exigência do escritor), todas motivadas pelo abalo sísmico em Kobe (1995), mas com ele lidando de forma indireta ou alegórica. Seus personagens vivem longe da devastação causada pelo terremoto, acompanham tudo pela TV e pelos jornais, mas não conseguem evitar que ela afete suas cabeças e suas vidas de forma traumática. Em Ufo in Kushiro, a mulher de um vendedor de aparelhos eletrônicos abandona o marido inopinadamente, deixando-lhe uma carta desconcertante. Pobre Komura, o marido abandonado, vítima indireta de um desastre natural.

Pior destino tiveram os protagonistas e figurantes de Nihon Chinbotsu, romance desastre de Sakyo Komatsu, traduzido mundo afora como O Japão Afunda. Lançado em 1973, voltou às livrarias depois da catástrofe de Kobe, e pelo visto jamais será encalhe. Oferece o que seu título promete: o afundamento da ilha por um conluio de terremotos, explosões e tsunamis, apocalipticamente mais intensos que os do dia 14. E sem direito a um Noé, ainda uma exclusividade, naquelas bandas, de The Ark Sakura, de Kobo Abe, um cultor beckettiano da angústia nuclear, o narrador mais cool do holocausto japonês.

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