A Estrada, livro e filme

Livro é memorial precioso do heroísmo inerente ao homem

Romance de Cormac McCarthy trata da conexão perdida e simultaneamente indestrutível que une um pai ao seu filho

Joca Reiners Terron
ESPECIAL PARA A FOLHA

Logo no início de “A Estrada”, o romance de Cormac McCarthy, pai e filho entram num posto de gasolina abandonado à beira da estrada. Depois de vasculhar o local atrás de comida, o pai se dirige ao telefone e disca para o número da casa de seu próprio pai de há muito tempo atrás, de quando ele ainda vivia.

Não há instante mais desolador e indicativo do que se seguirá nessa história lancinante. Quem nunca pensou em ligar para aquele telefone quase esquecido da casa de sua infância? Pois é dessa conexão perdida e simultaneamente indestrutível que trata “A Estrada”: do fio umbilical invisível que une um pai ao seu filho. Vagando pelo mundo destruído por uma hecatombe num futuro não muito distante, os dois se escondem em buracos recobertos de neve imunda.

Empurram um carrinho de supermercado vazio ao longo da estrada em busca de alimentação, fugindo de outros sobreviventes. “Então partiram sobre o asfalto, sob a luz cinza-chumbo, caminhando vagarosamente por entre as cinzas, cada um o mundo inteiro do outro.”

A fala seca contraposta às imagens abundantes do estilo de McCarthy faz dessa elegia ao amor paterno uma obra-prima tão rara quanto comovente. É impossível para qualquer macho ler “A Estrada” sem enxugar os olhos a cada diálogo.

Não há sentimentalismo no livro, entretanto, e sua rareza é de outra monta. São incomuns obras literárias que tratem da personificação do amor paterno, as mães sendo as tradicionais monopolizadoras desse sentimento. Só muito recentemente o comportamento masculino se tornou merecedor de visões mais nuançadas.

McCarthy, assim como Proust, sabe que o amor é prova do quão pouco nos importa a realidade. “A Estrada” é um memorial precioso do heroísmo inerente ao homem. Não se trata de haver ainda alguma esperança, mas de nunca desistir.

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Filme é menos rico do que o livro e mais fraco que fita de zumbi

Alexandre Agabiti Fernandez
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Como o recente “O Livro de Eli”, de Albert e Allen Hugues, “A Estrada” repete a visão hollywoodiana do mundo pós-apocalipse: não há mais comida, energia ou humanidade: os sobreviventes erram como zumbis, praticando o canibalismo em um mundo gelado, coberto de poeira e cinzas.

Adaptado do premiado romance do texano Cormac McCarthy, o filme mostra a odisseia de um homem (Viggo Mortensen) e de seu filho de 11 anos (Kodi Smit-McPhee) pelos devastados EUA, assolados por toda sorte de perigos.

Como contraponto a tanta ruína, irrompem sonhos e lembranças do homem do tempo em que era feliz: a mulher (Charlize Theron) tocando piano, sua casa onde havia Coca-Cola na geladeira.

O filme é fiel ao romance em relação ao relato: pai e filho rumam para o Sul arrastando sua miserável bagagem em um carrinho de supermercado.

Mas os aspectos íntimos e psicológicos da questão da paternidade em um mundo sem futuro que o livro levanta são tratados de modo rasteiro pelo filme. Ele não vai além da moral afirmada pelos tabus criados pelo pai -não comer gente, não praticar a violência gratuita-, que mostram uma fé na vida e na humanidade.

Outra característica do romance se perdeu: o registro seco de McCarthy, que chama a atenção pela aridez e pelo minimalismo, em que o terror é mais sugerido, metafórico. O filme é claramente literal.

O diretor australiano John Hillcoat preferiu usar a receita de uma cena de ação a cada dez minutos, um susto a cada esquina -com algumas incursões gore, como a sequência das infelizes vítimas do porão dos canibais. O resultado é menos rico do que o livro, mais fraco do que um filme de zumbis.

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