A estrela oculta

“O nada era sem dúvida mais cômodo. Como é difícil dissolver-se no ser.”
E.M. Cioran

– A grande verdade lhe será revelada. Para isso, basta obedecer. O caminho seguro será seu. Para isso, basta concordar. Mas, o que é a verdade? Mas, o que é o caminho? O que é a vida?

Coisa que endoidece: buraco negro. Endoidece porque encobre. O que encobre? Verdades? A verdade não existe, nem as verdades. Tudo é Maya, ilusão.

Tudo é Maya. A força desmedida do nada absorvendo tudo. O nada não tem comedimentos. Para ele escrevi versos que agora se dissolverão em prosa, como se tivessem sido tragados: vem vindo o vento do nada/bebendo as almas no céu/não vi o dentro do nada/nem vi o nada de mim/mas sei que o guardo, grave, sedento/bebendo os claros que penso/vem vindo o vento faminto/por sobre a horta de estrelas/talvez outros nadas comporte/como as bonecas russas/têm a seqüência de si/só sei que irrompe vontades/ronda cerca impõe avança/o nada é o avesso do medo… Trará em si enfim a inatingível calma,/a explicação do sombrio assombro/que nos desola e abandona e no entanto/para sempre pediremos tanto?
Se o nada respondesse à pergunta que fermenta os nossos nadas, bailaríamos então,felizes fumaças?

Quem, alguma vez na vida (nem que tenha sido uma só), não desejou estar face a face com um buraco negro? Ver é pouco. Quem não teve vontade de entrar em um deles, ser engolido, testar se o negócio desintegra mesmo tudo o que dele se aproxima? Testar o nada absoluto e insondável? Talvez, como da morte, não pudéssemos voltar, para contar os segredos que desvendaríamos. Mas, quem se interessaria por nossos segredos, além de nós?

E se as cidades continuassem, dentro dos negros buracos, com seus botecos, cinemas, chatices, hipocrisias, embates, soberbas? Tudo como costuma ser, só que no centro da gravidade invisível? E se a gente encontrasse aqueles mortos antigos, aqueles por quem os nossos sinos nunca deixaram de dobrar? Estariam todos eles reunidos, em torno de uma mesa, em um ágape pelo qual vivemos só para esperar? E se nós continuássemos?

E se pudéssemos tudo, já que o tudo estaria no nada, e nós com ele? Se tudo pudéssemos, desejaríamos não poder? Diante de toda potência, enjoaríamos?

Para nós, para nós que nada somos, além de presas fáceis dos nossos próprios dilúvios, toda resposta possível está no escuro. No buraco-negro, na estrela oculta. A estrela cujo brilho é para dentro. Toda resposta está em Maya, a deusa do véu, aquela que tudo encobre, aquela que o nada revela.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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