A “Experiência de Angicos”

{Enviado por Jailton Fonseca}

Discurso de agradecimento proferido pela professora Valquíria Félix da Silva, como representante dos Monitores da “Experiência de Angicos”, em 03 de abril de 2013, por ocasião do recebimento do Título de Cidadania Angicana, concedido pela Câmara de Vereadores, em sessão solene realizada no Auditório Central do Campus da UFERSA- Angicos.

*************

Por Valquíria Félix da Silva

Excelentíssimo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Angicos e demais autoridades…

Senhoras e Senhores

Eis-nos aqui, novamente, nesta calorosa terra de Angicos, abrasados ainda mais pela emoção que o encontro nos provoca, para recebermos o honroso título de cidadania, como parte das comemorações dos 50 anos da chamada “Experiência de Angicos”. Esse título, agora concedido a mim e aos  meus amigos e companheiros da jornada aqui empreendida, nos idos dos conturbados anos 60, repercutiu em nós como o “grande prêmio” e nos encheu de indescritível felicidade

Neste clima de profundas e saudosas lembranças inicio estas palavras, mobilizada pelos mesmos sentimentos e emoções que nos suscitaram os versos lidos e relidos à época dessa experiência, a fim de motivar aqueles que se intitulavam  “analfabetos”, num apelo para acreditarem e se integrarem ao projeto divulgado. Esses versos eu não preciso lê-los, pois até hoje os trago na memória e no coração:

“Patrãozin, se assente aqui, nesta raiz de aroeira

Para ouvir a triste história, de Zé Vicente Ferreira

Esta história seu moço, é muito triste, patrão

Tem a tristeza do touro que berra cheirando o chão

No lugar que derramaram o sangue do seu irmão

E a razão dessa tristeza eu posso inté lhe dizer

É porque meus oio tem luz, mas a luz num dá pra ver

O segredo das escritas com tanta letra bonita

Do povo que sabe ler”.

E com essa história versada em mais  de vinte estrofes, que compõem o poema “O Analfabeto” do poeta popular Zé Praxedes, percorremos ruas, praças, sítios, caminhos desta cidade, que nos levavam aos lugares mais distantes do entorno da sede do município de Angicos, ao tempo com aproximadamente onze mil e quinhentos. Eram ações baseadas numa atitude missionária, revolucionária, porque libertadora, para levar uma mensagem nova, de despertar consciências, mais que isso, no dizer do Mestre Paulo Freire, de desvelamento, de reconhecimento do valor de cada um, como ser humano, como ser social e político, e de suas possibilidades e necessidades de participação ativa na vida. Sim, porque para o nosso querido e saudoso Mestre da Esperança, como foi cognominado, a pedagogia que iríamos implantar fazia a diferença entre alfabetizar e letrar, entre desenvolver consciências e ensinar riscos e rabiscos, pensamento e ação, ideias novas que notabilizaram, nacional e internacionalmente, o seu criador.

Mas, quem eram esses jovens? Alguns aqui presentes, cujos nomes repito com satisfação: Pedro Neves, Rosaly, Valdinece, Dilma, Ribamar de Aguiar, Lenira. Outros também presentes, mas, somente visíveis com os olhos do coração,  representados por parentes nesta solenidade, os quais passo a nominar, registro permeado por lágrimas de saudades: Maria do Carmo Correia Lima, Carminha, figura inquieta, comprometida com a vida, dotada de uma energia que realçava o que dizia e o que fazia, pela força da presença e vivacidade do espírito; Carlos Lyra, comunicador e documentador nato, registrava todas as nossas palavras, descrevendo tudo, filmando, fotografando, o que constituiu um grande acervo, parte destruído e parte resguardado, sobrevivendo ao tempo e às perseguições; e Talvani Guedes, nosso mascote de 17 anos, pleno dos  sentimentos da amizade, precoce, esbanjando uma extraordinária consciência política para a sua idade, questionador, argumentador, cheio de agitações interiores e exteriores. Também não posso deixar de trazer para este momento outros nomes de pessoas, que, por absoluta impossibilidade, não puderam aqui comparecer: refiro-me a Gizelda Gomes de Salles,  a quem represento, lembrando a sua responsável participação, o seu jeito amistoso de ser aliado ao perfeccionismo com que fazia as suas ricas intervenções, estudiosa e conhecedora que era, e é, das técnicas educacionais; Marlene Noronha, notadamente nascida para o exercício do magistério, destemida  parceira na busca de soluções participativas, enfrentadora de desafios com persistência e, por isso, empenhada em melhorar tudo o que fazia; Margarida Magalhães, Margot, atuante de ações silenciosas, calma, atenta aos nossos movimentos e colaboradora prestimosa na implementação das conclusões inovadoras do processo em execução.

Mas, repito, quem eram esses jovens entusiasmados e engajados com a alma nessa tarefa? Éramos jovens universitários, de diversas formações (filosofia, direito, pedagogia, farmácia, serviço social, medicina, jornalismo, odontologia, letras, etc.) e dois secundaristas de escola pública, movidos por um forte idealismo que se revestia não só de boa vontade ou de teoria, mas, sobretudo, de capacidade para gerar ações conscientes, instigadoras e consequentes, apressados que éramos pelo muito que se tinha para ser, pensar e fazer.

De onde vinham? Qual o seu estilo de viver e o que pensavam do mundo, do Brasil, do seu tempo?

É certo que vivíamos um tempo diferente, como diferente são todos os tempos que se sucedem ininterruptamente. Mas, aquele, era particularmente distinto,  uma época de ebulição,  pois buscávamos um desenvolvimento que não se  traduzisse somente nos moldes do crescimento econômico, para constarem de gráficos estatísticos, mas, sim,  que se refletisse, prioritariamente, no desenvolvimento humano, compreendido nas suas várias dimensões, material, emocional, psíquica, espiritual, ética, social e política.

Estudávamos a realidade brasileira, participávamos de encontros, seminários, fóruns, sindicatos, etc. Não havia TV, quase nenhum telefone, nada de baladas, a não ser simples festinhas nas próprias faculdades, onde nos  encontrávamos para conversas,  namoros, tudo tão inocente que, ainda hoje, quando recordo, chego a rir.

Havia uma ânsia por mudanças, não ditadas e decididas de cima para baixo. Acreditávamos ter atingido maioridade e por isso lutávamos para que traduzissem nossas reais necessidades e possibilidades, capazes de concretizar profundas transformações. Planejávamos, elegíamos objetivos e iniciávamos a viagem para atingir metas traçadas.

Vivíamos os tempos da guerra fria e o contexto exigia a adoção de uma postura e de um  engajamento político-ideológico. Os movimentos se multiplicavam e, neles, a igreja católica se fazia presente, seguindo os caminhos traçados pelo Concílio Vaticano II, de João XXIII, que inspirou a consciência social de que “A paz é fruto da justiça”. Suas ações se disseminavam pelo campo, com a JAC- Juventude Agrária; junto aos operários, através da Juventude Operária; junto aos estudantes secundaristas, com a Juventude Estudantil e a Juventude Universitária, conhecidas pelas siglas JEC e JUC. Outras iniciativas eram levadas a efeito, clandestinamente, pelos militantes e simpatizantes do Partido Comunista e suas ramificações; outras, ainda, lideradas pela UNE-União Nacional de Estudantes e suas respectivas Uniões estaduais-UEEs, Diretórios Acadêmicos das diversas Faculdades, movimentos sindicais e de educação e cultura popular. O certo é que havia uma preocupação com o destino do homem, do nosso destino, dos rumos do Brasil, da nação como um todo. Chamávamos a atenção para os aspectos de justiça social, da necessidade de criarmos oportunidades para todos, da importância da profissionalização e do trabalho, a questão das reformas de base, reforma agrária, reforma da educação, temas voltados para o coletivo, o social, o político, para o Homem na sua integralidade. Tínhamos, à época, uma visão holística e sistêmica da realidade, hoje propagada como novidade.

Foi dentro dessa conjuntura que nos chegou a informação, através do atuante líder universitário Marcos Guerra, estudante do curso de Direito, que noticiava a realização de uma seleção  destinada a formar um grupo a ser treinado  para atuar, como alfabetizador, na aplicação do método revolucionário do educador Paulo Freire.  Esse engajamento exigia, além de uma formação prévia, através de seminário conduzido pelo próprio autor do método e sua equipe, o deslocamento  para a cidade de Angicos, aproveitando o período de férias, a fim de permanecer e implantar, naquela cidade – nesta cidade ­- em caráter experimental, uma nova pedagogia destinada a alfabetizar jovens e adultos,  em 40 horas.

O treinamento ia além de informações sobre o método de  alfabetização propriamente dito, pois incluía a transmissão e debate de temas relativos à atualidade brasileira e às questões fundamentais próprias de uma sociedade em transição e que necessariamente surgiriam para debate nos C. Muitos acorreram à convocação, mas somente poucos foram selecionados. Relendo velhos jornais, vi num artigo publicado no DN Educação, edição de 19 de novembro de 1992, assinado pelo jornalista Luiz Lobo – um dos que faziam cobertura jornalística,  muito frequente, do projeto em execução – que “os candidatos deveriam ter um mínimo de embasamento cultural e ideológico, pois a experiência seria árdua e pioneira”.

Aqui chegamos: as moças hospedadas no Colégio das Freiras e os rapazes, no Colégio dos Padres. No nosso alojamento, dispúnhamos de uma auxiliar que cozinhava para nós e nos ajudava na limpeza. Éramos todos conhecidos, uns mais próximos por integrarem a mesma faculdade, mas todos, a partir da chegada, irmanados pelos mesmos ideais e propósitos, nos tornamos amigos. Mais que isso, nos tornamos irmãos. Marcos, assumidamente líder, no papel de coordenador, era a ponte entre o grupo e o Mestre Paulo Freire, como também com a  Secretaria de Estado da Educação, na pessoa do seu titular, o jornalista e escritor, Calazans Fernandes, a quem se deve a teia de articulações para institucionalizar e implantar o projeto revolucionário que, como ele mesmo preconizava, ”se tudo desse certo, receberia o nome de seu autor,  Paulo Freire”. Marcos enfatizava que, embora estivesse com esse encargo, tudo e todas as coisas seriam decididas em grupo, democraticamente. Foi assim que conduziu todo o processo. Dividiu os louros do êxito do projeto e assumiu isoladamente a responsabilidade pelo dito e pelo feito, o que lhe custou, pelas obscuras tramas do destino, privação de liberdade e exílio.

Passávamos os dias em atividades. Para agilizar o processo, nos dividimos logo em pequenos grupos e saíamos, rua acima, rua abaixo, ora a pé, ora utilizando uma rural willys, equipada com um som e um m

icrofone, que, por si só, já chamava atenção das pessoas da cidade. E o que dizíamos? Falávamos do porquê de estarmos ali, do projeto de alfabetização de adultos, ao mesmo tempo em que os convidávamos os interessados para uma rica experiência educacional, calcada no exercício da cidadania.

Entrávamos de casa em casa, dávamo-nos a conhecer, abraçávamos as pessoas com  sinceridade,  ríamos, ouvíamos e contávamos histórias, e haja conversa… Assim, fomos ganhando confiança. Sim, porque no início a desconfiança era quase que geral, porque eles mesmos diziam “de esmola grande o cego desconfia”, e vencer a resistência do caboclo desconfiado é difícil, porquanto estavam calejados de promessas, de enganações e de uma verdade que se repetia há muito tempo, que “pobre só é lembrado em época de eleição”. Mas, tão verdadeiro era o propósito, que o convencimento não tardava, e terminavam oferecendo as suas casas para que pudéssemos instalar os círculos de cultura.

E foi graças à mensagem que levávamos, através de conversas intermináveis, afagos, demonstração de apreço e seriedade,  que conseguimos fazer uma pesquisa sociológica (novembro/dezembro de 1962),  da qual resultou palavras e assuntos  mais repetidos, a eles mais familiares. Registramos dessa forma o que chamávamos  de “universo vocabular”, necessário para a seleção das palavras-chave, denominadas  geradoras, que se constituiriam no material didático: slides, desenhos, fichas com famílias de sílabas,  base do processo global de aprendizado.

Identificamos cerca de 410 palavras, mais ou menos, em torno das quais se desenharam situações projetadas  num cineminha motivador, que os animava a falar e a se abrir para o círculo e para a vida. E foi através de imagens agrupadas em sequência, denominada “aula de cultura”, fichas ainda sem palavras escritas , que se sentiram mobilizados e descontraídos, criando-se um clima favorável a se descobrirem como seres pensantes, como sendo senhores de suas  histórias, seus sentimentos, crenças e pensamentos, enfim, descobrirem-se no seu contexto e assim poderem adquirir a capacidade de analisar, avaliar e buscar caminhos.

Nesse percurso, reconheceram que não só tinham fome de comida, mas, também, de um outro tipo de fome que eles denominaram de “fome da cabeça”, fome de justiça. E disseram: queremos aprender para “seguir nas leis que puder ser”. Só nós sabíamos o que aquela expressão queria dizer, pois havíamos aprendido a interpretar suas palavras e seus sentimentos. Recordo uma outra expressão utilizada  pela aluna Dona Maria Hermínia, a mais idosa, quando via um certo barulho e desconcentração dos adultos jovens. Dizia ela: Professora, “esse povo novo tem o sentido salteado; nós, mais velhos, não”. Foi tão forte a afirmação que, quando no exercício do magistério, bem mais tarde, e ainda hoje, utilizo essa expressão quando quero indicar alguém menos atento.

Foi uma experiência revolucionária, “uma experiência cristã”, como bem disse o jornalista Luiz Lobo. Não éramos mestres no estilo tradicional. Sem bem saber,  adotávamos a pedagogia de Epicuro, no século IV a.C., que nos seus jardins, na Grécia, formava grupos de amigos para aprenderem juntos,  dentro de uma ética que se manifesta no esforço para libertar a alma humana de equívocos, influências  ou de infundadas crenças amedrontadoras.

E os dias foram se passando, lentos. Às vezes cansados, distantes de casa, da família, prosseguíamos obstinados, porque havíamos criado laços – laços da afetividade – que foram o lastro de nossas  ações. Diariamente, passávamos as manhãs em seminários, discutindo, trocando experiências, enriquecendo a proposta, fiéis à orientação do nosso Mestre Paulo Freire, de avaliarmos tudo, pois nada era definitivo e acabado. Íamos agregando formas, ilustradas por sugestões e ocorrências que registrávamos. Nas ocasiões em que Paulo Freire  nos visitava, vibrava com as nossas descobertas, vendo-nos como parceiros de sua criação. Sua alegria aumentava o nosso entusiasmo, porque ele próprio era o entusiasmo personificado e um multiplicador de amizades. Tão marcante eram essas características, que nos orgulha registrar, integrando nosso grupo, a participação de sua filha Madalena, com apenas 15 anos de idade.

Recebíamos visitas as mais diversas: educadores, jornalistas, estudantes e pessoas interessadas. Todos queriam ver de perto se aquilo que estava sendo divulgado era verdadeiro. Saiam conosco ou chegavam de surpresa aos círculos e faziam as suas investigações. Os alfabetizandos, esses sim, eram só encantamento, pois se sentiam vistos, prestigiados, progredindo, e esses movimentos de chegada e saída de gente para vê-los só aumentava a sua autovalorização, a sua  autoestima, a ponto de dizerem, como ouvi de alguns do círculo que coordenei, situado na zona rural, sem energia elétrica, com projetor e lâmpada a gás, mais precisamente, na casa cedida por Seu Genésio Tibúrcio, essa afirmação: “estamos nos sentindo vivos”.

Agora, ao recordar tal passagem, me vem à mente o que disse Joseph Campbell, renomado mitólogo, autoridade no campo da mitologia comparada:

“o de que realmente precisamos, mais do que ter um sentido para a vida é o de vivermos experiências que nos façam nos sentir vivos”, pensamento este semelhante ao manifestado também por Victor Frank, quando preso num campo de concentração, mais tarde registrado em livro.

Hoje, já bem adiante na minha trajetória, sei que vida é consciência em ação e consciência é vida em ação. Acredito, pois, firmemente, que foram essas atitudes libertárias revestidas da energia amorosa, germinadoras de frutos que, como vemos, se perpetuaram ao longo dos anos,  fazendo-nos presentes aqui, nesta solenidade, mesmo depois de decorridos cinco décadas.

Merece destacar, também, que a tocha aqui, acesa, nesta cidade, espargiu sua luz alcançando a princípio, a capital, Natal, mais precisamente, o bairro das Quintas, onde foram instalados mais de trinta Círculos, trabalho esse que se estendeu, posteriormente, aos municípios de Mossoró, Caicó e Macau. Treinamos novos coordenadores, agora já atuando sob a nossa supervisão. Desses, o que me restou foram documentos relativos aos respectivos levantamentos dos universos vocabular e alguns testes que aplicávamos para avaliação.

Nesse decurso de tempo, eu e meus companheiros fomos procurados por diversos profissionais, estudantes, mestrandos, doutorandos, professores, todos querendo mais do que absorver informações, apreender o que realmente se passou, com o fim de bem ilustrarem suas pesquisas. Conversamos com vários deles, do Brasil, de Portugal, da Itália, da Espanha e cada um que chegava, já vindo dessas bandas de cá, trazia suas histórias, algumas coincidentes. No entanto, num aspecto sempre havia unanimidade: o fato de que nossos alunos, além  de aprenderem a ler, reconheceram-se cidadãos, libertados de amarras que os prendiam a uma vida de servidão, a servidão da ignorância. E quem não ama a liberdade, esta bênção que nos afasta do jugo de opiniões e decisões alheias, externas, aquele estado de graça nascido na alma e que nos habilita a compreender “as penas” do mundo dual, materialista, consumista e nos plenifica de autodomínio? Esse entendimento e esse sentimento nos levaram a ambos, alfabetizadores e alfabetizandos, a um compromisso sem documento formal, de realizarmos o nosso propósito e de consolidá-lo e perpetuá-lo como um recíproco aprendizado vivido.

Maturando essas afirmações, ao lado de tantas outras experiências que a vida nos proporcionou, temos convicção absoluta de que toda construção, de qualquer ordem ela seja, se não for lastreada pelos liames do amor, que liberta o ser e ao mesmo tempo gera compromisso, dedicação, respeito e responsabilidade, de nada valerá. Aliás, essa foi a grande mensagem deixada pelo nosso Mestre Jesus, há mais de dois mil anos e  repetida pelo apóstolo Paulo na Epístola aos coríntios:

“Ainda que eu falasse  línguas, as dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse amor, seria como um bronze que soa ou como um címbalo que tine…”.

Sou testemunha de alguns bilhetes trocados entre os que pesquisavam e os ex-alunos. O foco era sempre o mesmo, ao lado de outro ponto que sempre os intrigou e assustou, ou seja, a interrupção abrupta do processo, pois se pensava e anunciava uma segunda etapa. Qual o motivo de nossa ausência, o porquê da ameaça de prisão, a necessidade de se “dar fim” a todo material? Nunca internalizaram bem

isso. O certo é que boatos e notícias deturpadas que lhes chegavam, pretendiam incutir-lhes a ideia de que tudo aquilo era coisa de comunista, “escola de papa-figo”, coisas para se esquecer, justificativas encontradas para estancar o processo libertador.

Pelo que tenho dito até agora, não deixa dúvida de que o grande aprendizado não foi só o dos intitulados alunos. Somente nós sabemos que, na verdade, nós fomos  agraciados, grandes ganhadores, pois aprendemos a ver a vida de modo bem diferente, mais real, mais valorosa, mais condizente com os valores indicados pelos nossos antepassados. Recebemos um reforço vivo, substancioso, mostrado em cores, do que verdadeiramente somos, do que podemos realizar através do compromisso, da solidariedade e do respeito. Vimos que  somos felizes quando nos encontramos no centro de nós mesmos, naquele lugar onde reside a paz e a tranquilidade que alimentam a nossa missão, os nossos propósitos de bem servir, pois acreditamos que o ritmo equilibrado de todas as relações, inclusive do próprio universo, tem sua raiz na reciprocidade.

Cada um de nós teve a felicidade de coordenar círculos com figuras interessantes. De alguns deles tenho imagens e vozes bem vivas na memória. Só para exemplificar, desperta emoções lembrar de Seu Severino e de Dona Francisca, cuja filha,  Eneide, criança de 6 anos de idade, disse e repetiu, inclusive numa reportagem que guardo com carinho, que tinha admiração por mim, professora de seus pais, a ponto de, desde pequena, alimentar o sonho de se tornar professora como eu, sonho que alimentou e que, graças a Deus, sua obstinação tornou realidade.

Mas, e nós do grupo? O que nos aconteceu? Fomos obrigatoriamente separados, mais que isso, orientados para nos distanciar, não nos ver, não nos falar. Seria isso possível? Até quando? Alguns companheiros  foram presos, outros exilados, o próprio Paulo Freire teve que deixar o país. Foi uma súbita e temerosa mudança, verdadeiro terremoto em nossos mundos. Recolhemo-nos e procuramos reorientar nossas vidas. Estudamos,  concluímos os cursos escolhidos, tomamos direção, rumo, continuamos e aqui estamos, sãos e salvos.

Oportuno aqui lembrarmos a figura dos nossos queridos e saudosos pais e familiares, que nos compreenderam na decisão de participar de projeto tão aguerrido e nos acolheram, confortando-nos, quando, assustados, sentimos a necessidade de mudar a direção da nau, de desenvolver a aceitação como forma de superar a frustração e a oportunidade para crescermos espiritual e emocionalmente.

Enfrentamos a vida profissional, trabalhamos, casamos, tivemos filhos, hoje temos netos. São cinquenta anos de caminho. Agora, mobilizados por pessoas que pensaram e concretizaram este evento, a quem dedico especial agradecimento, nos reencontramos, para cumprirmos outro capítulo da nossa história, obedecendo ao princípio de que “tudo tem seu tempo e seu propósito”. E que alegria, que felicidade ao nos rever, unidos pelo mesmo motivo, sabermos como estão todos, o que fizeram com a vida e o que a vida fez com cada um. O encontro revela que o destino é por nós construído de acordo com as nossas crenças, mas a certeza pode ser determinada ainda cedo, quando se tem consciência do papel a cumprir.

Resta-nos agradecer, mais uma vez, aos que idealizaram e trabalharam para este encontro acontecer e, em particular, à Câmara de Vereadores de Angicos que nos concedeu tão honrosa distinção, reafirmando, contudo, que, sendo hoje o dia do recebimento formal desse diploma, essa cidadania nós já havíamos conquistado no coração.

Certa vez Paulo Freire disse ao repórter, em 1993: “Angicos não mudou o mundo, mas marcou. No futuro próximo, Angicos será compreendido como o ponto de transformação da educação brasileira. Aqui vivi meu aprendizado da relação teoria e prática que mudaria a minha trajetória profissional”.

Por ocasião de uma das visitas a  Angicos, quando perguntado sobre como gostaria de ser lembrado, respondeu: “como alguém que amou muito às pessoas, os animais, às plantas, às pedras, à vida”. Fazemos nossas as suas palavras e acrescentamos que queremos também ser lembrados como alguém que aprendeu com este povo angicano, na  oportunidade dessa frutífera convivência.

E concluo com um pensamento de Tagore, que sempre me encheu de entusiasmo jupiteriano pela vida: Eu dormi, e sonhei que a vida era alegria. Acordei, e vi que a vida é obrigação. Cumpri a minha obrigação (e eu acrescento: com devoção) e vejo agora que a vida se transformou em alegria.

Muito obrigada.

Comentários

There is 1 comment for this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

onze − sete =

ao topo