A experiência do intervalo

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Em minha coluna no Prosa & Verso deste sábado 14 de julho, escrevo sobre “Substâncias perigosas” (Casa da Palavra), livro do jovem ensaísta português Pedro Eiras. Trata das difíceis relações entre a literatura e a morte. Para ler é preciso morrer um pouco. Sair de si, esvaziar-se, cedendo espaço interior para o texto alheio, permitindo assim que ele pense por nós. Para escrever também: há um outro – secreto e inominável – que, em realidade, escreve no lugar do autor. É preciso aceitá-lo e deixá-lo entrar. É preciso permitir que ele fale.

Dessas difíceis relações entre literatura e morte trato em minha coluna do Prosa. Escapou-me, só depois me dei conta, assinalar o subtítulo que Eiras dá a seu livro: “Um pequeno divertimento sobre literatura em 100 lições”. Fiquei pensando, depois, porque cometi esse lapso. Creio que a chave está na palavra “divertimento”. O livro de Pedro Eiras não é fácil: não o aconselho como passatempo, ou distração. Nele, a palavra “divertimento” tem outro sentido, diferente do comum, que procede da linguagem musical.

Pensei em recorrer a dicionários especializados, mas preferi, por fim, ficar com o bom “Aurélio”. Lá encontro, entre várias definições, a que (sem saber, pois não sou dono de mim) eu procurava: “Composição coreográfica que se intercalava nos atos das peças teatrais, óperas, óperas-balés, etc, ou se executava no final dos espetáculos”. Dela arranco _ como de uma prateleira de utilidades _ o que me interessa: a noção de intervalo.

Todos vivemos nossos scripts, que repetimos automaticamente, compenetardos e sem pensar. Observados à distância, somos todos parecidos. Tive essa experiência, outro dia, ao entrar em uma lan house. Não havia terminal vago. Tive de esperar alguns minutos, postado diante do balcão do caixa. Passei a observar, então, aquela dúzia de pessoas (era uma pequena lan) que se debruçava sobre seus computadores. Um rapaz de cabelo pontudo, uma senhora de peruca, um homem muito gordo, uma menina pálida. Algumas diferenças físicas, que não bastavam para me livrar da ideia (algo maldosa, admito) de que todos eles se equivaliam. Mais difícil de pensar: que também eu era só “mais um”.

Minutos depois _ caía uma tempestade _ a luz apagou. Então, em pleno escuro, quando nada deveria ver, vi quase tudo. Antes disso, provavelmente, um deles acessava um site noticioso, outro frequentava o Face Book, um terceiro respondia a emails, um quarto (mais ao canto) visitava um site pornográfico. Mas isso também não os distinguia, era tudo banal e previsível. Foi no escuro _ no intervalo _ que, sem saber como lidar com a ausência das imagens, como se fossem atores em um ensaio e lhes tivessem arrancado um script teatral da mão, suas almas (vá lá, uso a palavra, por falta de outra melhor) se revelaram.

Um rapazote, exaltado, começou a xingar. A velhota a seu lado, a resmungar que não pagava para ouvir palavrões. Uma moça, talvez com medo do escuro, correu para a porta de entrada. Já era noite, mas na calçada a esperava a noite previsível de todos os dias. Não aquela noite imprevista, e fora do lugar, que desceu, de súbito, sobre as telas e desnorteou os que nelas se miravam. Ali entendi, um pouco mais, a força do intervalo. Do imprevisto, do estranho. Todos se agitavam, alma penadas, caídas do grande céu acolhedor da internet. De repente _ desprovidos de suas imagens, que encarnavam como se fossem um espírito _, eles se esvaziaram. Ocos, pude observá-los, no meu posto do balcão, com certo divertimento. Insisto, algo envergonhado: e com certa maldade.

Aquilo, contudo, não me divertia, me surpreendia. Sempre esquecemos o quanto estamos presos a nossas rotinas e o quanto desnorteados ficamos quando elas falham. Eis talvez o “divertimento” de que fala Pedro Eiras em seu livro. Com uma linguagem cortada e forte, que se assemelha aos aforismos, ele oferece um livro que, em vez de nos distrair ou embalar, nos espeta e acorda. Um intervalo é buraco que, subitamente, se abre em nosso caminho. Erguemos o pé, mas é preciso, em um movimento brusco, logo desviar, ou ele nos traga. A possibilidade do tombo leva a pensar no próprio tombo. A calçada era nova, o dia estava claro, o caminho rotineiro e, no entanto, algo nos atropelou.

O próprio Eiras descreve isso quando, em dado momento do livro, defende _ em plena era da precisão e da competência, em plena era das marcas e das vitórias! _ uma “ciência do erro”. A ideia me fascina. Escreve Pedro Eiras: “Sempre preferi ler textos obviamente errados mas cheios de possibilidades de pensamento _ a textos certos que só repetem o que já sei”. No conhecido, Pedro Eiras prefere o intervalo. O buraco e, por que não, o tombo. Ali onde as expectativa se quebram, a ordem se rompe, e algo inesperado, como um espectro, irrompe.

Isso não diverte _ a literatura não é, como creem muitos, um parque de diversões compactado em folhas de papel. Isso nos adverte: de que o mundo é bem mais falho e poroso do que, em geral, consideramos. Isso nos detém (intervalo, divertimento) e nos faz pensar. O que, na vida acelerada que vivemos, não é pouco. Não é mesmo.

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