A falta

A FALTA (QUE AMA) E AS FALTAS

Contra a falta, há armas turbulentas: facões, granadas, tirsos e minas. Revólveres, estacas, bombas de gás lacrimogêneo. Contra a falta, há defesas: muros, escudos, cercas, armaduras. Trancas, presilhas, fugas.
Mas a falta não ataca. Como se defender daquilo que não ataca? Como se proteger do que não combate? A falta é imóvel, impassível. É falta, e não há desespero que a renda. A falta continua, permanece, é perene. É silêncio, claro, pois que falta poderia ensurdecer? É profundo silêncio, a falta.

Talvez a falta ame, digo isso pelo jeito como se propaga, sempre por dentro, passiva. Pelo jeito como persiste e é calma. Pelo jeito como é verdade e é inerte. Por isso a falta semelha ao amor. Arde, como o amor. Expande-se, como o amor. Dói, como o amor.

Mas não age, não fustiga, como o amor o faz. Nós porejamos como Sísifo, o herói grego que foi condenado a, eternamente, rolar para o alto de uma ladeira uma pedra que despencava novamente para baixo, tão logo chegava acima. Somos assim, diante da falta. Enchemo-nos de satisfação momentânea, mas a falta retorna, sempre. Sísifos que somos, a falta é a nossa existência mesma, a nossa verdade maior.

Quando a falta está por dentro, é corrosiva. Quando está por fora, é pegajosa. Encontrei uma falta agonizante no meio da rua e ousei cuidar dela. Só existe um modo de cuidar de uma falta: aceitando-a. Embora há muito tempo eu convivesse com as faltas por dentro, eu nunca tinha visto uma. Essa falta estava fora, à vista de quem tivesse olhos para ver, o que também não é tão frequente, mas eu tive olhos para vê-la e mãos para cuidar daquela coisa viscosa. A falta é mole e se adapta a qualquer corpo, qualquer alma. Ela se colou no meu braço querendo ficar no meu corpo “feito tatuagem”, indo comigo a toda parte. Mas faltas são coisas que dão muito cansaço e dessa falta eu acabei me livrando, pois já tinha faltas demais para dar conta.

Outra vez uma falta veio dar em mim quando bebi um copo de água. Quem poderia pensar naquela tormenta dentro de um inocente copo de água… Bebi foi água carnívora, a falta me engolia as vísceras, foi a falta mais perigosa que já senti, uma falta que elevava a extremos as temperaturas de dentro e de fora, uma falta que bulia no mundo. Envenenei meu sangue, para poder matá-la, embora eu estivesse morta de medo e de sombra. Mas não sou passiva, nunca fui, mesmo habitada por tanta falta. Sou de fazer o que é preciso, fiz. E a falta saiu de mim por poros, prantos e angústias.

As faltas costumam apegar-se aos devaneios, que têm natureza parada. Os devaneios são os principais transmissores das faltas, é preciso perceber quando estão contaminados. É preciso pressentir as faltas, adivinhá-las. Mas nem é para combatê-las, não. É só para saber lidar com elas. Porque se uma falta se extingue, outra não tarda a ocupar o seu lugar.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Tião Carneiro 10 de outubro de 2010 11:41

    Simplesmente genial, Carmen. Faltas são insaciáveis. Alimentam-se de nossos excessos. Acabei de deliciar-me com o seu excedente de erudição e, à medida que ia enchendo a pança de sapiência, presenti que certa falta ia morrendo de inanição. A surpresa fisgou-me quando li a expressão “ocupar o seu lugar”. Aí, toda faceira, rindo de orelha a orelha, uma falta novinha em folha sugiu na tela do computador e começou a zombar de mim. Por favor, Carmen, dedilhe logo outros antídotos.

  2. Jarbas Martins 9 de outubro de 2010 10:47

    Antológica Carmen !

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