A farra dos sentidos

Por Martha Medeiros

NO CONTEÚDO LIVRE

Porto Alegre está sediando dois vibrantes eventos culturais, a Bienal do Mercosul e o Em Cena, e não demora começa a Feira do Livro. É um convite irrecusável para mergulhar num universo que tem sido tão pouco prestigiado: o dos sentidos.

Em tempos de deslumbre com a tecnologia, de consumismo descontrolado e da cultura do descartável, vale lembrar que o que nos dá conteúdo, de fato, é a valorização dos sentidos. Estar bem informado e bem sintonizado com as tendências do nosso tempo é importante, mas há diferença entre o que é importante e o que é vital. Vital é o sentir, mais do que o pensar.

É o que, em meio ao trânsito, às discussões, às filas, à pressa e às intermináveis reuniões de trabalho, nos faz transcender e nos instala num patamar mais sublime, inalcançável para quem se dedica apenas à vidinha besta diária.

Comer, dormir e transar são prazeres necessários, que se tornam ainda mais prazerosos quando estamos viajando e podemos nos dedicar a eles com mais calma e desfrute. Viajar oferece novidade aos olhos, sabores inéditos ao nosso paladar, uma percepção mais elástica do tempo.

Recondiciona nosso papel: passamos a ser estrangeiros para nós mesmos. É um instante rico em descobertas. Mas não se pode viajar toda hora, então o jeito é trazer a beleza do mundo para dentro da nossa rotina. É preciso despertar, diariamente, aqueles outros sentidos aparentemente desnecessários.

Há quem não reverencie as cores, as flores, estampas, misturas, audácias. O nude é elegante na moda, mas a vida nua e crua precisa de uns respingos de laranja, vermelho e verde para provocar estímulo, senão caímos em sono profundo, e sono profundo é a morte. Estou falando do tom com que colorimos a nossa história. Lamento por quem vive em sépia, deixando-se desbotar.

Beleza, aromas, sensações, ritmos, sabores, arte. Alimentos pra alma. Quem faz dieta de teatro, música, cinema, literatura, dança e artes plásticas morre magro, definha. E dinheiro pra isso? O Em Cena traz ingressos populares, na Bienal a entrada é franca, na Feira do Livro há os descontos e os sebos: ainda assim, nem todos podem. Então, quem pode, deve. Pelo privilégio que tem. É desfeita recusar-se à grandeza de abstrato, do onírico, da poesia e do encantamento. Desfeita e burrice.

Qual o sentido da vida? Que graça tem armazenar um milhão de “amigos” numa rede virtual, se envaidecer da própria conta bancária, buscar beleza em centros cirúrgicos, investir apenas no que é útil e rentável – ou então no supérfluo que dá status?

Qual o sentido de acordar de manhã sem paz de espírito, caminhar por uma casa que não sorri de volta, passar o dia em frente ao computador sem olhar uma única vez pro céu? Qual o sentido de correr tantos riscos (violência, desamor, frustração, doenças) se não se tem uma vida interior protegida da miséria existencial?

O sentido está nos sentidos. Nada mais óbvio, nem mais bonito.

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