A febre de cinema na nova “FilmeCultura”

Por André Setaro
NO TERRA MAGAZINE

A revista FilmeCultura, no exemplar recém lançado, de número 53, se dedica a explorar a cinefilia, a febre de cinema que atingiu críticos e cineastas. Há muito que se ler, e prazerosamente, nos inúmeros artigos, ensaios e entrevistas que compõem a revista, ressuscitada ano passado pelo Ministério da Cultura após sua desativação e desaparecimento há muitos anos.

A iniciativa, mais que louvável, torna-se uma contribuição importante para a tão escassa bibliografia cinematográfica em termos de Brasil. E mais: com a ressurreição, além do prosseguimento de suas edições normais e periódicas, foi lançada toda a coleção desde o número 1, que data de meados dos anos 1960. Apenas um inconveniente: apesar dos esforços para que sejam distribuídas em pontos estratégicos, não é muito fácil encontrá-las. Mas se pode solicitar pelo site http://www.filmecultura.org.br e, neste, a possibilidade, também, de ler todos os exemplares presentes e passados.

Quem dirige a nova FilmeCultura é o cineasta, crítico e gestor cultural Gustavo Dahl, que pertenceu às hostes cinemanovistas e é um de seus nomes mais significativos (O bravo guerreiro, Uirá, um índio em busca de Deus, Tensão no Rio). Joana Nin é a editora executiva, sendo Marcelo Cajueiro o seu jornalista responsável. O corpo redacional é composto por Carlos Alberto Mattos, Daniel Caetano, Joana Nin, João Carlos Rodrigues, Marcelo Cajueiro, além de inúmeros colaboradores.

É a febre de cinema que domina os escritos do número 53 da FilmeCultura. Uma febre que chegou a estourar todos os termômetros em críticos como Rubem Biáfora, que exerceu durante muitas décadas a crítica em O Estado de S. Paulo. Biáfora nunca foi unanimidade por causa de seu temperamento irascível e sua adoração pelo cinema intimista made in Hollywood, ainda que fascinado pelo expressionismo alemão. Mas o artigo de Gustavo Dahl, que muito o conheceu, repõe o seu perfil no devido lugar. Nunca ninguém praticou uma exegese do biaforismo com tanta precisão e sentido analítico das idiossincrasias costumeiras do crítico, um bicho-papão na sua época. Se, por um lado, há inimigos ferrenhos de Biáfora, por outro, há admiradores e seguidores que o idolatram.

Carlos Alberto Mattos brinda seus leitores com O vírus bom do DOC/TV, uma apreciação de como a possibilidade de baixar filmes vem a modificar a psicologia da recepção cinematográfica; em Peneira digital patrocina uma enquete com mais de cem críticos (este colunista, inclusive) sobre os filmes mais queridos do cinema brasileiro. A solicitação foi no sentido de que a relação constasse de filmes do coração e não, propriamente, aqueles de importância histórica, social etc. E o mais querido eleito, O bandido da luz vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, obteve 34 menções seguido do clássico Limite (1931), de Mário Peixoto, com 30 menções. Seguem-lhes: Terra em transe, de Glauber Rocha, Deus e o diabo na terra do sol, também de Glauber, Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, São Paulo S/A, de Luís Sérgio Person, Todas as mulheres do mundo, de Domingos de Oliveira, Bang Bang, de Andrea Tonnacci, Rio Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos, Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho. Entre os dez melhores. O SuperOutro, do baiano Edgar Navarro é citado, com outros, em décimo segundo lugar.

João Carlos Rodrigues escreve sobre Riccardo Freda, o lendário diretor italiano, considerado e cultuado pela crítica francesa, mas um antípoda da nouvelle vague e neorrealismo, que, um belo dia, aportou ao Rio acompanhado de Gianna Maria Canale, mulher sensual e bela, e após algumas tratativas, acabou por dirigir, em 1948, para a Atlântida, O caçula do barulho, com Oscarito e Grande, Anselmo Duarte, Gianna Maria Canale, filme que resultou híbrido e desequilibrado. Com o retorno de Freda à Europa, este se tornou um cineasta prolixo cuja filmografia é muito extensa, revelando-se hábil como diretor de filmes de aventuras e pseudo-históricos. O mesmo Rodrigues comenta o livro que reúne as críticas de Jairo Ferreira no jornal São Paulo Shimbun, quando se revelou um crítico de choque, radical, sem papas na língua, admirado por seus amigos e colegas. A sua obra mais acabada é Cinema de Invenção, um documento importante sobre o cinema marginal brasileiro.

Há muita coisa para ler na FilmeCultura 53 e o espaço não dá para tudo comentar. Mas pode ser destacada, ainda, uma entrevista com Adhemar de Oliveira, que comanda os Espaços Unibancos de Cinema pelo Brasil inteiro (inclusive aqui em Salvador, Espaço Unibanco Glauber Rocha, em parceria com Cláudio Marques). Adhemar conta a sua trajetória desde os tempos quando, garoto, foi criado num parque de diversões, que era de propriedade de seu pai. O cinema, como constata a FilmeCultura foi uma febre que se abrandou consideravelmente nas últimas décadas. Se, antes, havia muita gente atormentada pela febre de cinema, atualmente, porém, o que se observa é mais uma febrícula, mas uma febrícula consumista e não mais a febre que se observava de cinema como um instrumento de conhecimento e um veículo de expressão artística. A cinefilia, como a exercida por gente como Rubem Biáfora e tantos outros, morreu de morte matada pela indústria cultural. Se, por um lado, há novas possibilidades, como a peneira digital dita por Carlos Alberto Mattos, a magia da chamada sétima arte se encontra posta em xeque-mate.

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