A Feira do Alecrim – Final

A Neto in memorian, meu primo

Um museu vivo a céu aberto

No dia em que o Alecrim completa um século de existência lembro com saudades da sua famosa feira. A maior e mais charmosa do Rio Grande do Norte, ocupando vários quarteirões e ruas. Já foi maior quando tinha uma rua dedicada só a confecções. Nesse setor meus pais, comerciantes ambulantes, vendiam redes, calções, cuecas, calças, camisas, etc. A feira é uma festa com muitas cores, cheiros e sabores. Um comércio livre e democrático. Impossível vender hoje o que vendíamos antes nas feiras livres.

No sábado é a do Alecrim. No domingo a das Quintas, e na segunda-feira a das Rocas. Fazíamos todas. Muitas vezes só tomávamos café depois de descolar. Chegávamos bem cedo e numa barraca de madeira alugada coberta com um toldo de lona estendíamos a mercadoria que era transportada num caixão de madeira de feira a feira. Esse caixão também servia de assento. A feira muda em cheiro e aromas conforme a hora do dia. Tem muito pirangueiro e pedinte. A mercadoria precisa ser preservada da inclemência das chuvas e sol. Muitas vezes as dobras das calças ficavam queimadas do sol e perdiam o seu valor de venda. Quando a chuva caia tudo era coberto e na lona teto da barraca eram acumuladas barrigas d´agua que depois era esvaziada para a rua.

Os dias passavam lentos quando não era tempo das festas. No Natal era uma alegria e tudo era vendido. Num tempo quando não havia os shoppings e supermercados as feiras era o mercado de tudo. Para embrulhar a mercadoria eram utilizadas folhas de jornais ou de revistas Cruzeiro e Manchete. De tudo acontece na feira-livre. É um retrato da sociedade e suas relações. Ponto de encontro de famílias e dos compadres. Cantadores de cordéis cantam os grandes feitos do valete Zé Garcia em busca do Barbatão. A banquinha em tripé, os cordéis e a boca de som fazem o teatro medieval. A ceguinha conta estórias de princesas e lendas de outros tempos. Os doidos sempre aparecem e completam a festa.

Para qualquer indisposição, fraqueza, lombriga ou doença tem o remédio natural em cascas e plantas medicinais. O Anis estrelado é milagroso. O ceguinho canta uma moda de viola e pede uma esmola. A feira é mesmo uma grande escola de cultura popular. O jogador de tampinha arma rapidamente a sua banca antes que apareça o fiscal. Ladrão, olhe o ladrão, sempre aparece.

De manhâ bem cedo um picado com cuscuz. Do cuscuz também pode ser tirado o tampo e feito um cachorro quente. O almoço com muita farinha e guisado tá garantido. Para lanchar pode ser um arroz doce com canela. No café também pode comer uma ótima tapioca com coco ou beijú.
A feira do Alecrim é o maior acontecimento do seu bairro hoje centenário. Nesse museu a céu aberto todas as relações sociais e éticas são manifestas. Um arquivo vivo da memória coletiva. A mercadoria pode ser exposta em lonas e plásticos espalhados no chão. Todas as frutas bem fresquinhas são encontradas. A banana leite ou verde pode ser comprada em palma. A mangaba em sextos de bananeira.

Na feira de artesanato popular podemos comprar pequenos utensílios domésticos em barro. Pião de madeira e baladeiras para as brincadeiras infantis. Carros feitos de lata. Do flandres tem a bacia, caneca e lamparinas. O tamborete de madeira para descansar o corpo. A inventividade do sertanejo não tem limite. Do compensado são feitos móveis. Do barro também é feita a quartinha para agua fresquinha ou jarra que é coberta com um pano rendado. Para limpar a casa você encontra a vassoura ou espanador de palha. De cabo longo ou curto.

Como vendedor ambulante, leio uma folha do cruzeiro, a charge do amigo da onça e percebo as várias gradações e cores do dia que acaba enfadado. Dou um cochilo. Não aparece nenhum comprador. A feira hoje tá fraca. Aparece alguém para fazer uma troca. A feira foi para a nossa família um meio de vida. Foi com a feira que papai nos criou e educou. Ajudando os meus pais sempre livrava um dinheirinho para comprar as coleções da editora Abril Cultural.

As filhas da mulher da barraca do lado é um refrigério para os olhos. Quando tinha alguém comigo podia dormir um pouco de baixo da barraca. Com meu primo Neto, filho de meu tio João Caicó – também feirante, eu explorava todos os recantos da feira. Jogava sabugo sem saber onde ia cair. Remedava todo mundo. No dia que vi uma mulher seminua num monóculo tive um deslumbramento.

A feira é mesmo o sustento de muita gente. Para mim foi antes de tudo uma grande escola de cultura e convivência humana. Se ela perdeu em extensão e importância comercial, ainda guarda o seu encanto e magia num rico museu vivo onde tudo acontece. Uma grande experiência para os sentidos vivenciados numa grande escola da vida., onde fui aprendiz e ainda hoje me fascina.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. João da Mata 24 de outubro de 2011 20:26

    Samara, Querida

    Agradeço pelo comentário e pelo Jasmin da música. Espero que tenhas gostado da cronica.

    Veja o que outras pessoas disseram na ciranda da UFRN:

    Damata,
    Não lhe conheço pessoalmente, nem mesmo de fotografia, mais sempre recebo seus escritos, por sinal, muito bons.
    Esse de hoje, sobre a feria do Alecrim, está espetacular, eu, também já
    participei das feiras, especialmente do Alecrim e das Quintas, onde morava.
    Meu pai era comprador de couro: carneiro e bode, o sábado, era para mim o
    dia de mais trabalho, em face da grandiosidade da feira do Alecrim, muitos
    marchantes aumentavam a quantidade de bodes e carneiros abatidos e, nós
    comprávamos os couros, espichávamos esses couros, quando era dia de sol, uma
    beleza, mais nos dias de chuvas, muito mais trabalho e até prejuízos,
    enquanto vocês tinham as dobras das calças queimadas, nos dias de chuva, nós
    poderíamos perder muitos couros que apodreciam por não ter o sol para
    secá-los.
    Para finalizar, além de parabenizá-lo pela crônica, também quero parabenizar
    os nossos pais, que souberam nos educar, dignificando o trabalho que
    realizavam mais também encaminhando seus filhos para o estudo escolar,
    universitário e, consequentemente, em busca de outros trabalhos, de outras
    profissões, menos árdua do que a deles, nossos pais. Parabéns aos nossos pais.( Chagas Cassiano Advogado )

    Damata,
    Excelente o relato!
    Parabéns!
    Que tal uma crônica que mostre a “A Feira do Alecrim ontem e hoje”.
    (joroneto- professor da UFRN )

  2. Samara Cruz. 24 de outubro de 2011 20:07

    Sábado é dia de feira lá no Alecrim, quem dera comprar um perfume Jasmim, e botar no pescoço pro meu bem cheirar”
    Esses versos de Tertuliano na voz de Cida Lobo é um deleite.

  3. João da Mata 23 de outubro de 2011 19:18

    Caro Tácito,

    O final do título refere-se á ultima versão do texto. Abç fraternos e Bom resto de domingo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo