A felicidade é periférica

Por Ednar Andrade

… Se algo ou alguém nos faz ter um enganoso sentimento de infelicidade, ao nosso redor a felicidade pode está cantando gemendo e nos invadindo, quase adentrando, e nós: apenas olhando para dentro… Esquecidos de ser perifericamente felizes… “Verdade”, esta amiga que nos sacode e nos acode ao mesmo tempo, pois tantas vezes sofremos e esquecemo-nos de agradecer, “de ser felizes”, de sermos serenos, na simplicidade de existir e “termos tanto”… E vermos tão pouco… E com esta cegueira, do infinito existir, perde-se tanto bem querer, tantos afagos vindos do colo da vida, tanta ternura, jogamos fora em nome da Dor. E o sal??? O sal da vida está em nossas mãos. Temos apenas que saber dosar, sorver, degustar com apurado desejo de ser e fazer feliz quem verdadeiramente sem pedir, sem impor-nos, sorri como que num geste materno apenas dar… É assim, o acordar, o dormir e o despertar, constatando que podemos ter na mão o “sal “e também dele fazer doação de felicidade e de amor.

Tudo depende realmente de como respiramos, se para baixo ou para todos os lados, com movimentos giratórios na emoção e com ela a descoberta da abundância de motivos para as razões do ser feliz, por ser, por existir, e por querer sê-lo. Sem questionar a dor que passa como um vento mais forte, buscar na fragilidade o encantamento da descoberta, o doce sabor do amargo, e degustar com cara de aprendiz que o sal da vida é o tempero natural que surge na maturidade. E que só assim é possível ser sapiente diante desta falsa impressão, mesmo quando dizem que ela é a que fica como boa lembrança, eu “discordo da total infelicidade que pregam os pessimistas”, acredito que felizes são os que vivem um dia de cada vez, se tiver que sofrer que sofra, não tire da dor o direito de chegar com mãos ásperas e te empurrarem para um lugar novo e desconhecido que te fará com certeza viver uma sagacidade invejável para os tolos. “Preciso é que se morra para renascer”, não importa quanto custa cada experiência, não há gozo sem cansaço, não há fome na fartura, não há cura sem remédio, saudades sem amores, silêncios sem preces… A vida assim, como o oceano esconde mistérios… Mas é preciso que alguém mergulhe e vá até “quase “o fundo… Eu disse, quase, pois, não há final para tantos segredos… Então, que de forma feliz e periférica, bebamos com prazer até a dor. Bom é sorver com gozo tudo o que se vive, como presente, mesmo que sejam as tormentas, pois delas, com plena certeza, surgirá ou surgirão as benesses do saber. Os louros e aplausos do tempo, o aloé da colheita da vida nos dá suportes.

No meio desta reflexão, estive pensando em um tempo ainda não tão distante em que eu tomava um ônibus e no caminho de para aonde ia, olhava na cara das pessoas. Os passageiros pareciam personagens de novela, sorriso, maquiagem, expressão boa, aquilo mais parecia uma perfumaria com rodas e motor, mas onde todos traziam um texto a ser traduzido e eu, infinitamente tola, sentia-me só no mundo dos meus aflitos pensamentos, chegava a pensar ser a única com queixa naquela caixa de metal barulhenta… Misturada aos vários perfumes havia um forte odor de alguma “infeliz axila”, o que tornava urgente o fim da viagem. Já ali eu dosava o “SAL” e minimizava a dor. De forma periférica, sempre descobri que a felicidade existe no que somos dentro e fora.

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