A Festa do Bom Jesus dos Navegantes em Touros-RN

” Quando o índio viu um barco navegando em mar profundo era um bravo conduzindo o seu marco ao novo mundo … “ (Hino a Touros – Ivanildo Cortez de Souza )

Todo fim de ano a cidade de Touros -RN comemora a festa do Bom Jesus dos Navegantes. Grande número de romeiros da cidade de Touros e da sua cercania comemora o final do ano numa grande festa em louvor do orago da freguesia da bela cidade litorânea onde muitos acreditam foi visitada pelos primeiros navegantes que pisaram em solo brasileiro. O mais antigo e o mais importante equipamento histórico que lembra essa descoberta é o “Marco de Touros”, chantado em solo potiguar no dia 07 de agosto de 1501.

Todo fim de ano eu ia com meu pai para trabalhar durante esses festejos. Meu pai vendia confecções, redes e calções de praia. No dia primeiro do novo ano a festa acontece na praia e todos se refrescam do calor inclemente tomando banho nesse mar de refrigério e descanso dos excessos da festa comemorada no ano que findou. O povo todo corria para lavar os pecados e comemorar o ano novo.

Na barraca de papai também vendíamos a folhinha com o coração de Jesus e fitas de todas as cores. Olha a fita quem quer comprar. Tem de todas as cores pra o Bom Jesus dos Navegantes saudar e graças alcançar. Eu também vendia na porta da Igreja. São muitos os romeiros de toda a região litorânea que comparece à festa numa comunhão de cores e crendices que culmina com a procissão. Alguns carregam pedra na cabeça e vestem-se com trajes franciscanos e roupões bizarros. Tudo aquilo eu via em estado de profunda admiração . Oculi sunt in amore duces.

A festa profana e a quermesse também era muita concorrida. Numa “miscere jocis seria”. Ao redor da igreja são montadas as barracas e o leilão em beneficio da igreja acontece. Durmo quando consigo numa casa em frente à igreja. Muitas vezes dormi em baixo da barraca de papai. A festa acontece durante todo o transcurso do dia 31 para o dia primeiro. Na casa da Dona Rita onde alojava muita gente igual a coração de mãe todos cumprimentavam-se e a dona da casa sempre respondia com o mesmo bordão aconchegante: “Seja presente”.

O parque de diversão animava a festa com canoas, roda gigante e onda (um brinquedo que era a sensação do momento) oscilando de cima em baixo e o povo gritando de alegria. Para refrescar um refresco feito de uma essência colorida e gelo raspado. Na barraca de papai também fazíamos pescaria com caixão de areia e barquinhos com ganchos. A pessoa ganhava o premio que pescasse com sua varetinha. Estava escrito. Está também muito presente na minha memória essa grande festa que reúne o religioso com o profano. Nós íamos trabalhar e se divertir. Cera vez papai confeccionou ( como experiencia ) calções com um tecido muito brilhoso e vistoso. Os calções foram vendidos e a confusão armada. O tecido em contato com a água do mar desmanchava-se. Tivemos que fazer muitas trocas por outros mais resistentes.

Era bonita a festa do Bom Jesus. As fitinhas enrolavam o bom Jesus e abençoava os peregrinos. E eu menino, para além de me divertir e participar de uma grande festa, ganhava o dinheirinho do lanche e do material escolar. Jucunda memoria est praeteritorum malorum. Saudades.

Ad majorem Dei Glorian.

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