A FJA e a cultura do nada

Por Abimael Silva

A Fundação José Augusto, a mais importante instituição cultural do Rio Grande do Norte, entre as décadas de 1960 e 2000, parou no tempo e perdeu o sentido de existência. Se deixasse de existir hoje não faria a mínima falta à história cultural do Estado. Há poucos anos a FJA fazia o seu dever de casa, promovendo a cultura do RN com um calendário verdadeiro, de fevereiro a dezembro. Hoje não faz absolutamente nada! Pelo contrário, anda desfazendo as coisas boas que existiam.

Acabou o Encontro de Cultura Popular, que acontecia no mês de agosto, com uma semana de intercâmbio entre o Estado e a cultura brasileira.

Acabou o Prêmio Literário Luís Carlos Guimarães, o único prêmio estadual de poesia e uma homenagem mais que justa a um dos maiores poetas do Rio Grande do Norte. Quem acaba com um prêmio literário merece o desprezo da cultura!

Acabou a Revista Preá, a mais importante e significativa publicação cultural do RN nos últimos cinquenta anos, que dava vez e voz ao artista do interior.

Depois de três anos sem sair da loca, a Preá voltou a circular com uma publicação de qualidade mais que duvidosa, feita por quem não é do ramo. No editorial, com direito à fotografia colorida, Crispiniano Neto detalha todos os fracassos da Fundação nos últimos três anos: a compra de uma impressora chinesa, por uma nota preta, que funcionou poucos dias e não tem assistência técnica. Não precisa ter mais de cinco neurônios para saber que chinês não entende de impressora de qualidade. Isso é coisa para alemão, inglês e americano.

Acabou a Cidade da Criança, o mais importante e conhecido espaço para o público infantojuvenil de Natal.

Acabou o plano editorial da Fundação José Augusto, um catálogo de 310 títulos e 47 anos, com muitos autores e publicações de importância nacional, como Luís da Câmara Cascudo, Zila Mamede, Jorge Fernandes, Auta de Souza e Oswaldo Lamartine de Faria. Para ser mais exato, como Presidente da FJA, Crispiniano publicou um livro de sua autoria, intitulado Lula na Literatura de Cordel, com edição de capa dura.

Acabaram as Casas de Cultura. A de Santa Cruz do Inharé virou loja de produtos da Avon; na de Macau caiu o teto; a de Assu está em ruínas; a de Martins não abre há mais de um ano; e a de Apodi virou pensão de segunda. Esta é a radiografia de algumas Casas de Cultura do Rio Grande do Norte hoje.

Depois do insignificante desempenho de Crispiniano Neto à frente da Fundação José Augusto, um vergonhoso cabide de empregos, com 1.155 profissionais, a grande maioria de competência duvidosa. A única saída é a sua extinção, como foi feito com o Bandern, em 1991.

Pelo desserviço prestado à cultura do Rio Grande do Norte, de 2007 a 2010, Crispiniano Neto deveria voltar para Mossoró a pé e descalço, para sentir na pele o mal que fez à cultura potiguar.

Mas isso ainda diz pouco!

Comentários

Há 14 comentários para esta postagem
  1. François Silvestre 29 de setembro de 2010 9:10

    Boa notícia do Marcos Cavalcanti sobre a casa de Cultura de Santa Cruz. Concordo plenamente com sua fala. Ou seu escrito. É um belo espaço, que recebe meu olhar como de um pai. A casa de Cultura de Martins não está fechada. Funciona precariamente porque vive de esmolas. Não recebe qualquer ajuda da FJA nem da Prefeitura Municipal. Os rosalbistas da cidade estão esperando a vitória de sua candidata para fechá-la. É o que dizem abertamente. Pois aquela obra os incomoda, desde sua edificação. Na dobrada do ano, com lâmpadas queimadas e a escuridão tomando conta, ela foi iluminada com a reposição de luminárias de boa qualidade às custas do meu bolso. Não estou cobrando ou lançando em rosto, mas o registro é pra fazer justiça. A FJA carregou da Casa de Cultura três quadros de sua pinacoteca que foram doados para ela. Doação específica. E nunca devolveu. Isso é desonestidade administrativa. Ou não é?

  2. Marcos Cavalcanti 28 de setembro de 2010 23:02

    Eu também sou um crítico da FJA, fui quando na condição de agente cultural e continuei sendo depois que virei ex. Quando da realização da Conferência Estadual de Cultura, em 10 de dezembro de 2009, usei do microfone e sem nenhum receio de estar diante dos que a representavam, questionei o seu papel, as muitas promessas e a pouca realização e sugeri em alto e bom som, para o frisson de muitos, que deveríamos nos unir para que o estado, adotasse o modelo de gestão da maioria dos estados brasileiros, que se organizam em torno de secretarias estaduais de cultura (é evidente que isso por si só não é uma panacéia) e começasse assim uma nova história na política cultural de nosso estado. Na dita Conferência estavam mais preocupados em escolher os delegados para representar o estado, do que debater os problemas culturais do nosso estado. Advoguei, dado o vazio da discussão sobre a cultura, que fizéssemos uma nova conferência, tão logo terminasse a Conferência Nacional de Brasília. Prometeram, mas não cumpriram. Observei que da dita conferência, quase não participaram artistas do cenário natalense, ou mesmo críticos da cultura, jornalistas e promotores culturais, sendo a grande maioria representantes do interior. Em Natal fui a tantas reuniões para debater cultura, leis culturais, que até perdi a conta e descobri que é uma cidade em que fala-se muito, age-se pouco.
    Quanto às casas de cultura, a situação de fato não deve ser fácil e parte da dificuldade se deve a FJA, mas credite-se também aos prefeitos municipais que nem sabem o que é política cultural e muitas vezes pensam que as casas de cultura são museus. A sua visão, Abimael, em relação a Casa de Cultura de Santa Cruz, felizmente está equivocada, pois ainda é a da época em que a TN fez matéria com viés político contra as casas de cultura. Convido-o a visitá-la, e garanto que mais que antiperfumada, sua crítica apontará em outra direção, pois só para dar uma amostra: 12 grupos culturais se utilizam dos espaços da casa, há aulas de dança, música, concursos de desenho e redação, grupos de capoeira e de judô que realizam um trabalho social. Verdade que tem problemas estruturais, tanto de recursos humanos quanto de material, mas vai tocando o barco, mesmo em face de estar excluída do planejamento da Secretaria Municipal de Cultura.

  3. Jarbas Martins 28 de setembro de 2010 17:58

    Ô Cipriano, já tô perdendo a paciência.Mostra pra que veio.Gerenciador da cultura você não é.Mostra pra nós pelo menos os teus versos.Ninguém te conhece.Já tô querendo até lhe desafiar pra uma cantoria eletrônica.Escolha: décima, martelo agalopado, sextilha, glosa,soneto,poema visual, poema infográfico,loa,trova,vilancete,sextina,cordel,poema em prosa,versos livres, versos palindrômicos,verso de pé quebrado.Vem de lá !

  4. Alex de Souza 28 de setembro de 2010 17:33

    Ah, e queria também parabenizar Rosa Moura por vir aqui dialogar conosco. A entidade não pode se furtar ao debate. O silêncio da Fundação, mais que soberba, pode denotar apatia.

  5. Alex de Souza 28 de setembro de 2010 17:29

    Meu comentário já se encontra uns 80% no que Tácito disse. Leia só se for meu amigo.

    Ninguém é cego para as dificuldades que a FJA passa, mas a gestão de Crispiniano erra até quando acerta. Teve a ótima ideia de instituir editais públicos, e esperamos que a iniciativa perdure, mas vejam o desastre que vem sendo a execução deles. Do mesmo jeito se dá com todas as ações que sua gestão implementa: mesmo a mais louvável das iniciativas nasce cercada de senões, com o perdão de Cartola. Faltou pernas para continuar com o que vinha dando certo, como mencionou Abimael. Faltou cacife para peitar os dois péssimos governadores que o indicaram.

    Acho que Nabuco, seja quem for (espero a oportunidade de conhecê-lo), é injusto com Fátima e Mineiro: fizeram o que puderam. A deputada garantiu, por exemplo, o Festival Agosto de Teatro do ano passado (o deste ano não sei); Mineiro conseguiu os recursos que as inteligências investiram na compra da impressora que nunca rodou um livro (podiam ter lançado uma centena ou mais com a verba).

    Se há alguém para responsabilizar, acho que a história, mais que qualquer urna, apontará a péssima, repito, governadora que foi Wilma de Faria, em especial para a cultura. Minha teoria conspiratória é que, ao pegarem o irmão dela com a boca na botija durante o carnaval das almas, fazendo o esperto deixar a Casa Civil, ela resolveu se vingar deixando o setor à míngua.

  6. Tácito Costa 28 de setembro de 2010 16:15

    Finalmente, apareceu alguém para defender a FJA. Que já viveu momentos tão difíceis quanto o atual. As gestões de Valério Mesquita, Iaperi Araújo e Evilásio Leão, se não me engano, no Governo Agripino (Iaperi, com certeza) foram desastrosas. Parece sina, a FJA alterna boas e más gestões. Quando parece que vai fechar, ressurge das cinzas. A decepção com a atual gestão foi maior porque jamais passou pela cabeça de qualquer um de nós que o PT fosse malograr numa área em que dois dos seus principais quadros políticos, os deputados Mineiro e Fátima, possuem afinidade, diálogo e gosto pelo segmento. Mas, isso não foi suficiente para evitar o que aí está à vista de todos. Sou otimista e acho que melhores dias virão para a FJA. Wilma terá ócio de sobra para refletir porque não fez o sucessor e não se elegeu senadora.

  7. Nabuco Pessoa 28 de setembro de 2010 15:56

    Simplismo diz Da Mata, o outro Caridé acha uma injustiça e sugere que eu faça valer meu voto, o que claro que irei fazer. Agora querer dissociar os detentores de mandato do PT das indicações do PT para o Governo Wilma e Iberê é querer ofender minha – simplória – inteligência. Se os citados deputados são tão preocupados com a cultura do RN, no mínimo deveriam ter indicado pessoas mais capacitadas e todo o RN além das Rocas, Quintas e Igapó sabem que Crispiniano e Fábio foram indicação de Fátima Bezerra, com o aval de Fernando Mineiro.
    Que ‘INDICADORES’ são esses que não avalizam seus indicados?

  8. Rosa Moura 28 de setembro de 2010 15:04

    Esclareço aos leitores do Substantivo Plural que O Encontro de Cultura Popular será realizado em novembro, pois foi firmado um convênio de 300 mil reais entre Governo do Estado e Ministério da Cultura e por conta do período eleitoral não pode ser realizado em agosto.

    O Prêmio Luís Carlos foi incorporado ao Programa de Editais e que realmente não foi realizado ano passado devido a um corte orçamentário, reflexo da crise econômica que o mundo enfrentou em 2009.

    A Revista Preá teve uma edição publicada este ano e outra está em fase de finalização.

    Quanto a Cidade da Criança é público e notório que o parque está em reforma, em um projeto orçado em mais de 7 milhões.

    Convido os leitores do blog a conhecerem as Casas de Cultura de Macaíba, Goianinha, Jardim do Seridó, Parelhas, Caicó, Lages e tantas outras que funcionam plenamente com aulas de dança, música, artesanato, teatro, e outras tantas atividades artísticas.

    Poderia escrever outras tantas palavras com a ações da atual gestão da FJA, mas melhor que palavras são ações como o Festival Agosto de Teatro, as Oficinas do Núcleo de Produção Digital, a edição de filmes do Nós na Tela, as atividades dos Pontos de Cultura, a gravação dos Discos do Núbia Lafayette e tantos outras ações realizadas apenas esta semana.

    Rosa Moura – Assessora de Comunicação da Fundação José Augusto

  9. João da Mata 28 de setembro de 2010 14:10

    Caro Nabuco e colegas,

    Não tenho procuração para defender os colegas citados por você, mas acho um tremendo reducionismo o que você sugere e propões.
    Abimael e todos sabem o que os colegas Mineiros e Fátima têm feito pela cultura do estado do RN. Quanta vezes nao vi promoçoes do Mandato Mineiro em prol da Cultura. Quantas vezes nao o vi ajudando artistas

    A CULTURA DO RN NÃO DEPENDE SÓ DA FJA.
    Querer associar o fracasso da cultura com o PT é simplismo.
    A cultura vem sendo maltratada há muito temo.
    A pasta da cultura é sempre vazia. Quem entrar é para se desgastar.
    Talvez por vaidade o Crispiniano não pediu para sair. Era o que eu teria feito.
    Difícil gerir um mastodonte como aquele.
    Muitos outros fizeram nada na bendita FJA.

  10. Marcos Silva 28 de setembro de 2010 13:35

    Amigos e amigas:

    Não acompanho de perto o tema, não quero opinar sobre personagens que conheço muito superficialmente. Sugiro que a questão seja discutida de maneira menos personalizada – maus administradores e seus padrinhos. Considero perigoso falar alegremente que essa instituição deve ser fechada. Que tal refletirmos sobre estruturas de governo, entidades associativas da área cultural que se façam presentes, debate público permanente?
    Quanto à inatividade da FJA desde 2000, recebi apoio para a publicação do “Dicionário crítico Câmara Cascudo” em 2003 (a verba foi liberada na gestão de François Silvestre). O livro foi bem acolhido nacionalmente (muitas resenhas favoráveis, desdobramentos noutras atividades e publicações) e se faz presente inclusive em bibliotecas no exterior.
    E quero lembrar que, antes da revista Preá, o inteligente jornal O Galo foi desencarnado.
    Abraços:

  11. Jarbas Martins 28 de setembro de 2010 13:13

    Dá-lhe, Abi!!!

  12. Paulo Caridé 28 de setembro de 2010 12:59

    Sr. Nabuco, acho uma injustiça o senhor responsabilizar pessoas de bem como sendo culpadas pelos erros ou fracassos da FJA. Pena que o senhor não conhece de perto a instituição e até mesmo a cultura do RN que sempre, historicamente viveu à mingua. Não era, nem será esses dois políticos citados, que vão resolver o nosso problema, mas que eles são os únicos políticos que prestam a devida atenção a nossa cultura, isso eu posso garantir. Como estamos em vésperas de eleição, faça valer seu voto.

  13. françois silvestre 28 de setembro de 2010 12:36

    É como você disse certa vez na última página de umas das últimas Preá. “Foi tudo muito triste”. O pior é que tudo continua muito triste. E o que é triste produz pena. E o que produz piedade nem merece crítica. Porque a tristeza foge da crítica como cachorro de rua, de rabo entre as pernas. Abimael faz um desabafo com a autoridade de quem produz alegria no meio da nossa tristeza cultural.

  14. Nabuco Pessoa 28 de setembro de 2010 11:53

    “Mas isso ainda diz pouco!”

    Termina Abimael e eu concordo, apenas acrescento que Crispiniano foi colocado lá por pessoas investidas em mandatos eletivos e que agora pedem novamente novo voto, como a Deputada Fátima Bezerra e o Deputado Fernando Mineiro, então as críticas sobre o pífio e vergonhoso desempenho do PT na FJA devem ser dirigidas principalmente a esses dois citados, negando o voto no próxim dia 3.

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