A Fortaleza sem dono e o Dragão de ninguém

Fortaleza é um caos, disse Anchieta Rolim, assim que entramos na metrópole cearense. Nem sabíamos o quanto. Desde Aracati, tínhamos a impressão de estarmos chegando num estado coerente com a segurança pública. A quantidade de redutores de velocidade na CE – 040, e de homens da fiscalização estadual rodoviária, se igualava ao que vemos no cinema americano. Mas Anchieta, experimentado na arte de ver o mundo, sabia que onde surge a civilização nasce também a tragédia. Tantas ocorrências policiais e acidentes puseram nossos corpos e de nossas esposas, em suspense.

Tínhamos um compromisso literário importante no sábado, 17 de março, e a tarde nos convinha. Desse evento, partimos pela via costeira, mas desistimos por falta de estacionamento. Seguimos ao Dragão do Mar pelo {FOTO} fato óbvio. Porém, mal chegamos e já encontramos o verdadeiro Ceará, tão comum quanto qualquer outro estado nordestino. Fomos abordados por dois flanelinhas cobrando R$ 5 pela vaga na rua, mas se não bastasse isso, quando voltamos ao carro, por volta das 22h, tinham arrombado o vidro traseiro e levado toda a nossa bagagem.

Dois seguranças de algum estabelecimento próximo nos orientou a procurar a Delegacia do Turismo e a sairmos dali rapidamente para “evitarmos mais problema”. Ao chegarmos à Delegacia, o único agente disse que naquele dia não estavam fazendo Boletins de Ocorrência e, ainda que estivessem, ele não fazia parte daquela unidade. Orientou-nos a ligar para o 190. Tentamos até o celular descarregar.

Por “sorte”, na esquina seguinte havia uma patrulha do Ronda, aquela super polícia equipada com carros de luxo. Um policial registrava outra ocorrência. Um ônibus de turismo inteiro havia sido assaltado. Contamos o caso, mas, novamente, fomos informados que nada poderia ser feito. O policial apenas lamentou o fato.

De outro celular, insistimos no 190 até que atenderam, mas disseram que BO só nas delegacias de plantão que, segundo o atendente, ficava muito longe de onde estávamos. Orientou-nos a esperar até segunda-feira, 19 de março de 2012 (hoje). Inconformados com a desatenção do Estado, resolvemos voltar para Mossoró ainda de noite. Demoramos mais de duas horas para chegarmos até Aracati porque entre Fortaleza e esse município existem pelo menos 20 redutores de velocidade de 60km. No caminho, blitz, acidentes, polícia, arma, gente.

A única solidariedade que tivemos foi de um subtenente da PM em um dos postos da estrada, que, vendo a nossa situação, não nos multou por estarmos com o vidro traseiro quebrado.

P.S. Este subtenente explicou-nos que existe um déficit de 5.500 policiais no Ceará, que não são contratados por falta de recursos. Em contrapartida disse-nos que o governador Cid Gomes vai construir um aquário a beira-mar orçado em R$ 200 milhões.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
  1. Nina Rizzi 20 de março de 2012 11:22

    Odeio ler isto.

    Mas é a pura verdade: “Nenhum rosto é tão surrealista quanto o verdadeiro rosto de uma cidade” – Walter Benjamin.

  2. Eliana Klas 20 de março de 2012 9:04

    Sinto que no Ceará, assim como em São Paulo, a policia exista só pra nos multar!
    Um riso febril brota quando lemos da “gentileza” do policial em não multá-los pelo vidro quebrado. Eu não estranharia se depois deste seu texto fosse averiguar o procedimento deste ser solidário, afinal não cumpriu com seu dever…
    Aqui em São Paulo as multas chovem em nossas cabeças mais do que água do céu e no entanto não temos segurança nas vias, esburacadas e cheias de gargalos congestionados com faróis que não funcionam e causam acidentes fatais.
    Argh, indignação e sentimentos de impotência!
    Beijos meus amigos nordestinos,
    direto do Sudeste.

  3. Regiane de Paiva 19 de março de 2012 18:02

    A indignação ainda me atordoa. Primeiro porque fomos abordados por marginais que exigiram o pagamento adiantado por deixarmos o carro em via pública; depois de ter o carro violado e todas as nossas bagagens furtadas; terceiro, porque o Estado não está a serviço do seu povo. Duro demais para mim que vivi minha adolescência desfrutando daquele espaço cultural tão rico… hoje está entregue aos ratos, às baratas e aos demais vermes. Me revolta ver um espaço onde aprendi a curtir o cinema de arte, o teatro, as galerias fadadas ao mofo. Sim, porque sem a falta de policiamento e do cuidado da secretaria de Segurança Pública, ali será o reduto das drogas e o fim será o mesmo dado à nossa antiga Praia de Iracema. Pior é constatar, cada vez que volto a minha terra, que ela está cada dia mais cinza, nos muros e na cara de medo das pessoas.

  4. Olavo Saldanha 19 de março de 2012 16:43

    Lamentei muito quando soube do ocorrido por Rolim. Temo por Natal. Tive o prazer de vivido num tempo em que turmas de jovens estudantes cruzavam a cidade a pé para ir aos bares, boates e festinhas americanas e voltavam pela madrugada sem serem perturbados, tempo em que se namorava no carro, estacionado na orla. Não haviam flanelinhas…alarmes…nem insegurança…nem se investia tanto em segurança. Infelizmente os tempos são outros. Temo por Natal.

  5. Anchieta Rolim 19 de março de 2012 16:07

    Amigo Damata, concordo que o Dragão do Mar é maravilhoso, assim como Fortaleza e o povo do estado do Ceara. Só não entendo como as autoridades cearense, deixem que aquele espaço cultural tão agradável e bem organizado, fique rodeado de marginais. Foi o que ouvimos dos que lá estavam( inclusive dos próprios policias) e que por infelicidade sentimos na pele. Agradeço por sua solidariedade. Abração!

  6. João da Mata 19 de março de 2012 15:00

    Lamento muito o ocorrido Rebouças e Rolim. Estamos entregues as moscas e borboletas. Estive recentemente em Fortaleza e adoro o Dragão do Mar. Felizmente nada aconteceu de ruim. Almocei ai do lado. Tomei cafe com tapioca no Dragão e vi os museus. Assisti o teatro, etc. O Dragão é um lugar maravilhoso

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