A Gaita e a Bicicleta

Por Conrado Carlos

Nos últimos quarenta e cinco dias, tive experiências profissionais que marcarão para sempre minha vida pessoal. Ao começar a escrever para a editoria Cidades, n’O Jornal de Hoje, presenciei a miséria que assola parte da população natelense. Até então, conhecia bairros distantes, perigosos e desestruturados. Mas nunca tinha entrado em barracos e casebres das favelas, mangues e loteamentos que se espalham pela periferia, lotados de gente feia, suja e analfabeta – me senti o verdadeiro ‘playboyzinho de M…’. A ruína humana desses lugares assusta qualquer pessoa nascida na classe média. E está logo ali, há dez minutos de distância.

Particularmente, duas cenas se recusam a fugir de minha mente. Há cinco sábados, fui à Favela do Curtume, zona Oeste de Natal. Sob a ponte que demarca a fronteira entre os bairros Quintas e Felipe Camarão, uma mulher chamada Rosicleide sobrevive com quatro filhos. O mais velho tem treze anos. Um amontoado de tijolos e compensados foi ajustado à laje do elevado, de forma que um córrego imundo passa dentro de sua casa. Em períodos de chuva, pertences, alimentos e dejetos humanos dividem o mesmo espaço.

Durante a entrevista, o pequeno e irrequieto Antonio, de três anos, deu um show de alegria e exibicionismo. Na tentativa de chamar atenção do forasteiro, gritinhos, dancinhas e insistentes pedidos para andar de bicicleta no piso enlameado – o cheiro do recinto era nauseante. Irritado com a recusa da mãe, Antonio subiu no carcomido quadro e guidão. Fotografá-lo foi inevitável. Naquele cenário dantesco, registrei a imagem do menino que ficará para sempre em minha memória daquele subterrâneo.

O segundo ato, veio na quinta-feira passada, 15, no mangue às margens do rio Potengi, ao lado do posto de fiscalização da Polícia Rodoviária Estadual, antes da Ponte de Igapó. A ideia era mostrar como vive a população ribeirinha no período de chuva. Entretanto, a desgraceira que vi extrapolou a reportagem e inspirou esta resenha. Se onze famílias invadiram o terreno e administram a oscilação da maré com certo apoio da terra firme, Hilton e Cosma digladiam com a natureza na fragilidade de um barranco isolado no meio da podridão – eles moram naquela casinha quase no meio do rio, que vemos ao passar pela Ponte. Uma passarela duvidosa é o único acesso ao quarto e sala, dividido com dois filhos.

Arrisquei-me a cair na gosma de fezes movediça para conhecer a moradia do casal. Enquanto analisava se ia ou não, desaconselhado que era por outros moradores cismados com as constantes quedas da passarela improvisada, ouvi uma triste melodia. Era Jackson, garoto de nove anos, que abocanhava uma gaita. Na hora, esqueci o medo e percorri o trajeto. Hoje, lembro daquela sonoridade tacanha quase em tom fúnebre. Certos detalhes, outrora inquietantes, se transformam em maravilhas nos refúgios de nossa mente com o transcorrer do tempo. Contar a vida dessa gente em um jornal, a maioria proveniente do interior do Estado, requer indiscrição e contagio próprio de uma biografia. A intimidade é o último patrimônio dos miseráveis. Adentrar esse universo provoca momentos de ruptura em ambas as partes.

O livro da semana é sobre biografias. Sobre revelar segredos pessoais, dramas, tragédias, sucessos e derrotas de personagens. Escrito pelo francês Pierre Assouline, “Rosebud – Fragmentos de Biografias” se utiliza de detalhes, sobretudo materiais, para jogar luz nas angustias e questionamentos que sufocaram seres como o escritor Rudyard Kipling, o fotógrafo Henri Cartier-Bresson, o poeta Paul Celan, o líder da Resistência francesa Jean Moulin, o pintor Pierre Bonnard e o político David Owen. Frustrado no acúmulo de informações, o biógrafo se ressente por não aprofundar nenhum, ainda que se empolgue e se apaixone pela história que descobre. Da mesma forma me senti em meio ao exército de invisíveis dos guetos. Se as lágrimas ignoram as classes sociais, um narrador se endurece no egoísmo.

Rosebud – Fragmentos de Biografias
Autor: Pierre Assouline
Editora: Rocco
Preço: R$ 26,90

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