A geração junho de 2013 abre seu coração sobre a ditadura

Texto de Henrique Santiago

É hoje! Hoje completam 50 anos do dia que deu início ao período da “revolução” no Brasil. Golpe militar? Ditadura? Nada disso existiu. É intriga da oposição. O Brasil não poderia se tornar uma Cuba. E nada mais aceitável do que receber uma força dos Estados Unidos para tirar João Goulart do poder. Reforma agrária? Que nada. O trabalhador do campo não tem direito de lutar por melhorias, tampouco por terra. Não há sentido ouvir os desfavorecidos se há apoio total de fazendeiros, empresários e toda a elite conservadora. Que venham as Forças Armadas e General Castelo Branco assuma a presidência e o povo perca seus direitos.

Depois de 31 de março de 1964, o Brasil trilhou os caminhos do sucesso. Políticos com mandatos cassados, imprensa calada devido ao AI-5, e a nata da sociedade brasileira vivia os melhores anos de sua vida. Não havia nada a temer. Aliás, havia, sim. A ameaça comunista rondava a pátria amada mesmo em anos de ascensão político-econômica. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada poucos dias antes da “revolução” militar, não intimidou os vermelhos apoiadores da foice e do martelo. Era preciso combater os subversivos. Se você não concorda com o regime, não discorde, tema-o. Ou melhor, siga o lema Brasil: ame-o ou deixe-o. Caetano Veloso, Chico Buarque, Geraldo Vandré discorriam inverdades em letra e som. O Cinema Novo, encabeçado por Glauber Rocha, considerava arte expor as condições paupérrimas do terceiro mundo. Isso não é arte e merece punição. Para eles, o exílio. Uns anos na Europa são necessários para conhecer e apreciar a beleza do primeiro mundo. Mas ainda assim não foi o bastante.

A ameaça vermelha persistia na terra verde e amarela. Os discordantes do militares tiveram o privilégio de ter uma conversa amistosa com gente de alto calibre. Os convites eram sempre amigáveis. A campanha era tocada ou a porta batida. Se em segundos não houvesse uma resposta de dentro, o correto era adentrar o recinto vermelho à força. Não é cortês e de bom tom rejeitar uma visita a qualquer hora do dia. “Do que está fugindo? Por acaso você é comunista? Você participa da luta armada? Essa barba é uma alusão à Fidel Castro? Aquilo ali na parede é um quadro de Jesus… Ou Che Guevara? Acho que vamos conversar em um lugar mais apropriado, no DOI-Codi ou no Dops”. E muitos não regressaram para casa. Rubens Paiva, Vladimir Herzog, Manuel Fiel Filho e outras centenas de opositores desapareceram do mapa e viraram manchete de jornais da resistência. Para não incomodar o conforto do lar, fazia-se necessário encontrar passivamente um esquerdista e interroga-lo com chumbo, justamente como ocorreu com Carlos Marighella.

Mas e o milagre econômico não era noticiado? A inflação foi invenção alienígena aliada aos adoradores de Karl Marx para ameaçar a supremacia militar no Brasil. E o tricampeonato mundial, que não só consagrou a Seleção Canarinho, como também o êxito militar no país?! Antes, éramos 90 milhões em ação, pra frente, Brasil, salve à Seleção! E mesmo assim havia descontentes com o então presente momento da nação brasileira que tiveram fim similar a Paiva, Herzog, Fiel Filho, Marighella e até mesmo permanecem desaparecidos ou no anonimato.

Os livros de História da escola mostram que, cronologicamente, de Castelo Branco a João Figueiredo, foram tudo flores. Não fui questionado se houve repressão, tortura e mortes. Não pude dizer que este período marcou uma fase negra e vergonhosa do Brasil. Aliás, foram tudo flores, para o descontentamento de Geraldo Vandré. E ainda assim o militarismo enfraqueceu já no fim dos anos 1970 e teve seu derradeiro fim em 1985, com o dedo do sindicalista Lula, líder ao lado de Leonel Brizola, Tancredo Neves, Osmar Santos, Ulysses Guimarães e outros das Diretas Já e levaram multidões às ruas. A população queria eleger um presidente! Quer mais democracia do que o povo não participar do futuro do país? Os militares precisavam retornar o quanto antes. Tancredo venceu, brasileiros não participaram, Tancredo morreu, Sarney assumiu. E o direito ao voto retornou ao seu lugar Fernando Collor foi o primeiro presidente eleito democraticamente em quase três décadas, inclusive derrotou Lula, o metalúrgico barbudo, que herdaria a faixa da presidência no início do século XXI. Que saudade da perseguição, das bombas e dos tiros.

E hoje, em pleno 31 de março de 2014, quem dirige o Brasil é uma guerrilheira subversiva que lutava nos tempos da revolução de 1964. E mesmo depois de meio século, há os brasileiros saudosistas que clamam pela volta dos militares. Assumam o poder! E para reviver o gosto do passado glorioso foi até convocada uma nova marcha da família, que não contou com muitos anticomunistas. O Brasil vai mal das pernas. Não somos referência em nada para o mundo a não ser em corrupção. Nada comparável com a “grandeza” dos 21 anos de “revolução”. Há de seguir as palavras da bandeira nacional. Que seja feita a ordem para haver progresso, mesmo que ressuscitem Castelo Branco, Geisel, Médici e toda a trupe militar.


Postado por Mudar São Paulo no Fórum Mudar São Paulo em 4/01/2014 11:58:00 AM

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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