A Globo, a Folha e a Veja versus Genoino

Por Paulo Nogueira

Brecht, num de seus melhores momentos, falou que o pior analfabeto é o analfabeto político, que aqui vou tratar por AP, por razões de espaço e de facilidade.

aqui

Comments

There are 24 comments for this article
  1. Jarbas Martins 19 de Novembro de 2013 14:18

    A História o absolverá

  2. Emiliano Vargas 19 de Novembro de 2013 23:09

    A condenação de integrantes do PT, antes de nós trazer conforto, nós traz um tremendo desconforto, pois nos reforça a certeza de que algumas pessoas nesse país estão acima das leis e da sociedade civil. Com uma pergunta podemos sintetizar a nossa certeza: Por que o mensalão dos Tucanos, nunca foi julgado ? E então penso na ingenuidade de LULA ao ter escolhido para ser PGR o homem que era considerado o mais “duro” entre todos os procuradores, penso também na operação satriagaha anulada, e nos ataques que o procurador Francisco de Souza sofreu ao investigar o BANESTADO. A condenação dos integrantes do PT realmente é um péssimo sintoma.

  3. Marcos Silva 21 de Novembro de 2013 3:18

    Eu estava em Brasília (encontro de História na UnB, divulgarei em seguida o texto que apresentei lá) quando esse noticiário se expandiu, eco do dia 15.
    Tenho amigos que convivem pessoalmente com Genoíno, já sabia da casa e do padrão de vida dele.
    O episódio do mensalão me dá algumas impressões gerais:
    1) foi formatado, na divulgação, e desde a marca escolhida para o produto (mensalão), como evento de marketing, da denúncia ao julgamento e à ordem de prisão, o que engloba escolher determinadas datas e maneiras de exposição na mídia.
    2) houve crime – muito banal na política brasileira, o que não muda seu caráter de crime -, alguns criminosos permanecem soltos, como é o caso de Jefferson, outros foram escolhidos a dedo para megaexposição pública.
    3) em nome da governabilidade, gente que não roubava se envolveu com gente com folha corrida assustadora, deu no que deu.
    4) essa mistura com a pior política brasileira, desdobrada em acordos com collors e malufs, indica uma perda de projeto próprio pelo PT, embora os governos de Lula e Dilma sejam melhores que os de seus antecessores – mas isso ainda é muito pouco.
    5) imprensa e outros setores da sociedade brasileira agem como se o grande problema do país fosse esse do mensalão. Considero-o menor. Mas é um problema, sim.
    6) a barra está muito pesada. Os movimentos sociais (que o PT perdeu) são cada vez mais criminalizados. Não basta reclamar dessas prisões. O fim da greve dos estudantes da USP é tratado como dilapidação do patrimônio público, silenciando os motivos da greve – a maneira como o reitor uspiano é ungido, falta de professores e moradia estudantil etc.
    7) o tratamento dispensado a Genoíno (gravemente doente) é inominável. Depois que ele morrer, pedidos de desculpas e faces compungidas nada resolverão.

  4. Lívio Oliveira 21 de Novembro de 2013 8:32

    O comentário de Marcos Silva é um dos melhores que li até agora sobre o tema. Vale um desdobramento num texto mais amplo.

  5. Marilia 21 de Novembro de 2013 9:23

    Professor Marcos gosto muito dos seus comentários sempre numa tentativa de lucidez e postura ética, mas me pergunto com toda sinceridade, e os muitos que morrem nos corredores de hospitais por causa da corrupção quem faz o pedido de desculpas e mostra faces compungidas? Barra pesada porque é do PT? As opiniões discordantes são criminalizadas sem cessar por muitos do PT.

  6. Jarbas Martins 21 de Novembro de 2013 9:44

    Muito bem, Marcos.

  7. Anchieta Rolim 21 de Novembro de 2013 9:52

    Eu não tenho e nunca tive predileções por nossos políticos e muito menos por partidos políticos. Já disse e repito: 99,99% , em minha opinião, são canalhas corruptos que usam e abusam do cargo que exercem em benefício próprio. Quando querem o poder ou se perpetuar no mesmo, se unem e usam até o nome de um Deus para fazerem pacto com o diabo (que por sinal, deve tremer na base quando vê um canalha desses em sua frente-rs.rs.) e depois ficam aí dando uma de bons moços. Nós sabemos: sempre pagamos a conta… Não sei se nesse caso em questão, esses caras são realmente culpados ou não. Mas, ficar dizendo que os ladrões tucanos, ou macacos, ou urubus, ou seja lá que porra forem, são piores ou melhores, no mínimo é falta de bom senso. Quem rouba cem, rouba mil, porque a merda é fedorenta independente da quantidade. http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/video-quanto-custa-um-deputado-federal-no-brasil/ Ps.: Essa foto aí do barraco de Genoíno, é um forte exemplo de como comover um AP. Com o salário que ganha não se deu ao trabalho de fazer pelo menos um reboco no primeiro andar. Tô fora…

  8. Marcos Silva 21 de Novembro de 2013 10:53

    Um abraço em todos que comentam esse assunto.
    Marília, não estou justificando o PT, considero-o sem projeto próprio há muito tempo, ser melhor que o DEM é muito pouco. E entendo, como vc, que corrupção não é brincadeira, é dinheiro público desviado de funções prioritárias. Tenho dúvidas sobre o alarde em relação a essa corrupção, como se não houvesse outras muito piores. Para não ir mais longe, como designar o dinheiro público doado a Eike Batista, sem perspectiva de retorno? Embora Marx caia de pau no pensamento de Proudhon, o capitalismo funciona cotidianamente como expropriação do valor produzido pelo trabalho alheio. Não é roubo clássico, e apropriação ave élégance.
    Quando o PT apenas criminalizar opiniões discordantes, merecerá minha reprovação. Agora, tem gente como Marcos Feliciano que se criminaliza, lamento muito. Apelar para racismo e homofobia é praticar crime mesmo. No caso do racismo, crime regulamentado há décadas entre nós. No outro caso, crime que a sociedade assim designa e muitos juízes já tratam como tal. Como classificar os espancadores e assassinos de gays?

  9. Marcos Silva 21 de Novembro de 2013 13:00

    Jefferson debochou de Dirceu porque este se considera preso político. Talvez não seja. Mas Jefferson, certamente, é um solto político.

  10. Danclads Lins de Andrade 21 de Novembro de 2013 13:18

    Tenho assistido o comentário e as reações dos diversos setores da sociedade no que concerne às prisões daqueles envolvidos no caso conhecido como Mensalão. A mim, parece que há uma inversão de valores. Tem-se criticado massivamente o Presidente do STF, alguns veículos de comunicação, por exemplo, sob a acusação de serem carrascos de quem foi condenado neste famoso caso de corrupção.

    Antes de qualquer coisa, digo que não tenho partido político,não torço para a sigla A ou B. Tenho ouvido muitas pessoas perguntarem, e com razão, sobre os casos de corrupção envolvendo outros partidos políticos, notadamente o PSDB. E só me vem uma explicação para isto: a inexistência de denúncias perante os órgãos competentes, de quem sendo competente para tal não as fez. A impunidade, não se enganem, vive de silêncios. O que estavam fazendo ou o que fizeram os Procuradores-Gerais da República, na época em que FHC era Presidente, que não ingressaram com as ações apropriadas no STF, por exemplo, para a aferição de responsabilidades? O Judiciário só age mediante provocação, é o chamado princípio da inércia, ou seja, aquelas pessoas ou entidades competentes para ingressarem com ações perante o Judiciário tem que exercer este dever, sob pena de casos assim nunca serem analisados pelos tribunais. Se as pessoas competentes não fizeram as representações necessárias,por questões que só estas pessoas podem saber, como se poderá punir alguém?

    O Mensalão, concordo, não é o caso mais escabroso de corrupção do país. Casos outros pontificaram no passado, como: SUDAM, pasta rosa, privataria, etc,etc, e nunca chegaram a ser apurados. Recentemente temos o Mensalão tucano,por exemplo, cuja exposição está sendo menor que do caso em que estamos falando aqui. Mas, corrupção é corrupção e todos os casos têm que ser apurados. O Ministério Público deve, portanto, apurar os casos e enviá-los à apreciação dos tribunais.

    Genoíno está gravemente doente? Bem, deverá ser tratado como tal. Mas, faço uma pergunta: as pessoas que não tem acesso à prestação adequada da saúde por parte dos entes federativos, que são prejudicadas constantemente por casos de corrupção, que desviam verbas da saúde (a teor do desvio de Aécio Neves da ordem de 4,3 bilhões da saúde pública) como ficam? Ficam na mesma, tendo que sair de casa de madrugada para receber uma ficha, esperando ser atendido ainda naquele dia, isso se houver condições mínimas de atendimento. A corrupção faz isso. Então não me compadeço de políticos corruptos que submetem o povo a este tipo de tratamento.

    Não devemos ter peninha de quem teve acesso ao poder e corrompeu; de quem, sendo descoberto, foi processado, teve direito à ampla defesa e contraditório e aos mais renomados juristas e bancas de advocacia e, ainda assim, não provaram a inocência, por que nunca foram inocentes. Não, não estamos em 1964, não estamos em uma ditadura, não estamos em uma “caça às bruxas”, os mensaleiros não são “perseguidos políticos”, nem os mártires injustiçados a queimar nas fogueiras inquisitoriais. Não. São larápios que frequentaram o poder e aproveitaram a oportunidade para surrupiar o erário público. Então, em casos assim, o desfecho não poderia ser outro: CADEIA. No dia 15 de novembro, dia da prisão dos mensaleiros, foi o dia em que o Marechal Deodoro proclamou a República e a origem da palavra república vem do latim: res publica, que significa coisa pública. Coisa pública que os mensaleiros se apropriaram. E é por casos de corrupção, como já disse, que a saúde, a educação, a segurança, e os demais serviços que deveriam ser prestados com eficiência pelo estado estão deficitários, pois as verbas para os mesmos nunca dão para cobrir gastos com o básico. Mas, a maior resposta tem que ser dada pelo povo nas urnas. O STF fez o seu papel, o processo chegou ao fim, a sentença tem que ser cumprida. Mas, o povo, repito, tem que ser o comandante da situação, elegendo e fiscalizando os gestores da coisa pública.

  11. Ednar Andrade 21 de Novembro de 2013 13:19

    Aquele que age com dignidade não corrompe, nem é corrompido.

    (Ednar Andrade).

  12. Ednar Andrade 21 de Novembro de 2013 14:48

    “De acordo com o cirurgião cardíaco Alexey Peroni, do Hospital Samaritano de São Paulo, a dissecção da aorta é “uma doença muito grave que mata de 25% a 35% dos pacientes” (Fabiana Grillo, in:”Doença de Genoino é muito grave e inspira cuidados especiais para o resto da vida”, portal R7 notícias).

    “Dissecção da aorta ou dissecção aórtica é um rasgão na parede da aorta (a maior artéria do corpo). Este rasgo faz com que o sangue circule entre as camadas da parede da aorta, forçando as camadas. A dissecção da aorta é uma emergência médica e pode levar à morte rapidamente, mesmo com um tratamento adequado. Se a dissecção romper a aorta completamente (as três camadas da artéria), uma perda rápida e massiva de sangue irá ocorrer. As dissecções aórticas que resultam na ruptura do vaso têm uma taxa de 90% de mortalidade se uma intervenção médica não é realizada a tempo” (Wikipédia, verbete: dissecção da aorta).

    A enfermidade é comprovadamente grave, sim. Um portador desta enfermidade está entre a vida e a morte, pode acontecer. Mas, não vejo como não questionar, todas as pessoas – não só o Sr. Genoíno, a quem devo respeitar, por ser, antes de tudo, ser humano – que portam esta enfermidade precisam certamente do mesmo tratamento que lhe é peculiar, não seria bom que o SUS permitisse de forma igualitária o tratamento a todos, independente de serem políticos, pois todos são humanos, contribuintes, brasileiros, com deveres e direitos? Onde estão os direitos à saúde, ao tratamento mesmo pelo SUS, à educação, á dignidade…? De outro modo: que morram os pobres e vivam os ricos?

  13. Ednar Andrade 21 de Novembro de 2013 14:57

    Que fique bem claro, queridos amigos e colaboradores do SP, faço aqui minhas reflexões como brasileira e pessoa lúcida, mas que fique bem claro: não tenho partido político, nem voto há muitos anos, enquanto não acontecer uma política séria, justa e digna de todo cidadão, não desperdiçarei meu voto. Também acho de uma pequenez muito grande os debates que vejo na internet, quando pessoas chegam quase a entrar em conflitos, em discórdias, brigas mesmo virtuais. Não são pessoas justas que estão sendo julgadas, portanto cabe a quem for competente, julgá-los de forma justa. Sendo assim, se estiver havendo algum julgamento injusto, o injusto também será julgado.

  14. Tácito Costa
    Tácito Costa 21 de Novembro de 2013 21:57

    Não é demais lembrar como acabaram alguns paladinos eleitos pela grande imprensa brasileira nos últimos tempos. Só para citar os mais recentes, Collor de Melo, José Roberto Arruda, Demóstenes Torres. Todos desmoralizados e cassados. Essa semana se descobriu que o esquema a corrupção no sistema de transporte por trilhos em São Paulo remonta a… Mário Cova, até então eu tinha esse político como honesto. (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/penas_para_todo_lado)
    Não me agrada o papel de Torquemada que essa imprensa delegou ao presidente do STF e que ele abraçou com fanatismo. Morro de medo de fanáticos. A história tem exemplos fartos acerca do que são capazes os salvadores da pátria. E parece-me que Barbosa está imbuído desse espírito. O julgamento do mensalão foi ainda mais político do que o são todos os julgamentos, desde o que julga e manda prender o ladrão de galinha até o que permite Maluf viver em liberdade e se candidatar a deputado. É tolice imaginar que se julga apenas com base na lei, até mesmo um julgamento nessas circunstâncias é político. Primeiro porque as leis são feitas por políticos, que refletem a composição de forças sociais vigentes na sociedade. Sem falar em todas as subjetividades presentes no ato de julgar seja o for, de uma obra de arte à escolha de uma miss.
    A ação penal 470 foi ainda mais política do que outros julgamentos devido à polarização ideológica, ressentimentos, vinditas, inconformismo e sentimentos que remontam à Casa Grande, atiçados pela mídia e que encontram campo fértil numa classe média alienada. Sejamos honestos, uma ampla parcela da sociedade, que tem como principais porta-vozes a revista Veja e os jornais Estado de São Paulo, Folha e Globo, jamais aceitou o PT como governo. Só porque mexeu um pouquinho com a injusta desigualdade social brasileira e alguns privilégios. Aí está a raiz do que veio depois e que culmina agora com o Mensalão.
    Reparem como todas as decisões no sentido de minimizar graves problemas sociais foram combatidas por esta mídia, como o sistema de cotas, o Enem, o Bolsa Família, o Mais Médicos, sempre com apoio da classe média. Não há como não recorrer á conhecida frase do jornalista Pulitzer: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”. É ou não é o caso do Brasil?
    Apesar de tudo jamais deixei de votar. É preciso resistir, lutar e ter esperanças. Embora veja com tristeza o povo eleger ou reeleger a cada nova eleição certos elementos aos parlamentos e governos, quando seus verdadeiros lugares são nas penitenciárias.
    Mesmo agora, após as grandes manifestações populares, saudada como divisor de águas no país, pesquisas feitas no Rio Grande do Norte constatam que políticos envolvidos em processos de corrupção lideram a corrida para as próximas eleições. Certamente com a preferência daqueles que participaram dos protestos com cartazes clamando contra a corrupção, a falta de ética, de serviços básicos e de hospitais padrão Fifa.

  15. Geraldo Alves S. Júnior 21 de Novembro de 2013 22:11

    Bravo !, é bom ouvir uma voz tão sensata quanto objetiva. Tácito é referencia na imprensa do RN, pois diz o óbvio sem recalques nem vinganças.

  16. Marcos Silva 22 de Novembro de 2013 5:34

    O comentário de Tácito é um edital do SP!

  17. Lívio Oliveira 22 de Novembro de 2013 5:56

    Análise equilibrada a de Tácito.

  18. Anchieta Rolim 22 de Novembro de 2013 9:10

    PERFEITO ISSO: “Morro de medo de fanáticos. A história tem exemplos fartos acerca do que são capazes os salvadores da pátria.”

  19. Tácito Costa
    Tácito Costa 22 de Novembro de 2013 10:08

    Três mitos que nem mais as crianças acreditam faz tempo: papai noel, objetividade da imprensa e imparcialidade do judiciário. Esqueci de frisar, para reforçar a subjetividade na aplicação das leis pelos magistrados e ministros, que a tal da “teoria do domínio do fato”, desencavada para condenar os réus da ação penal 470, segundo o Novo Jornal, foi ignorada em recente decisão sobre processo de corrupção no RN (conhecido como Foliaduto) livrando a governadora Wilma de Faria e o seu irmão, ex-chefe do gabinete civil Carlos Faria e condenando funcionários de escalões inferiores (como é de praxe aqui e alhures). Ou seja, parece que depende das conveniências POLÍTICAS o uso da agora famosa “teoria do domínio do fato”.

  20. DAMATA 22 de Novembro de 2013 11:45

    ISTOÉ – COLUNISTAS

    Paulo Moreira Leite

    Joaquim Barbosa e o sensacionalismo – A eventualidade presidencial de
    Joaquim coloca uma questão complicada em suas iniciativas em relação à ação
    penal 470

    Vamos ler o item IX do artigo 41 da Lei de Execuções Penais. Diz assim:

    Art. 41 – Constituem direitos do preso:
    IX – proteção contra qualquer forma de sensacionalismo;

    O Houaiss ensina: sensacionalismo consiste no “uso e efeito de assuntos
    sensacionais, capazes de causar impacto, de chocar a opinião pública, sem
    que haja qualquer preocupação com a veracidade”

    Vamos entender o contexto de 1984, quando a lei foi aprovada, e o contexto
    de hoje. Os presos da ação penal 470 atravessaram o país em jatos da
    Polícia Federal para ir a Brasília sem que ninguém saiba a razão, já que a
    maioria deixou clara a vontade de cumprir pena em região próxima de amigos
    e familiares e todos têm o direito de serem atendidos nesse quesito.

    Alguém vai negar que os presos foram vítimas de uma iniciativa
    sensacionalista, capaz de “causar impacto, de chocar a opinião pública”?

    Uma das comentaristas presentes ao Jô Soares, outro dia, chegou a dizer que
    a verdadeira proclamação da República não ocorreu em 15 de novembro de
    1889, mas na sexta-feira passada. Isso é “impacto” e choque, vamos combinar.

    Em 1984, quando a lei foi aprovada, a dignidade dos cidadãos encarcerados
    era ameaçada pelos meios de comunicação. O jornalismo policial tinha uma
    importância que não possui hoje. Repórteres e fotógrafos disputavam
    histórias escabrosas, que permitiam retratar criminosos como personagens
    animalescos, monstros morais com valores incompatíveis com uma sociedade
    civilizada. Era uma forma conveniente de fechar os olhos para a tortura e
    às execuções cometidas em ambiente de absoluta impunidade. Policiais eram
    glorificados e tratados como ídolos populares, embora agissem de forma
    criminosa – inclusive Sérgio Fleury, do DOPS paulista, onde aliava-se a
    traficantes de drogas e combatia militantes que se opunham ao regime
    militar.

    Em 2013, a situação é outra, evidentemente.

    Vivemos no mundo do marketing e dos factoides, essas iniciativas das
    próprias autoridades que procuram “causar impacto” e se antecipam aos meios
    de comunicação com a finalidade de usá-los em seu proveito.

    O voo dos prisioneiros foi isso, uma sensação. Boa ou ruim, depende do
    paladar de cada um.

    Mas parece claro que ocorreram vários desvios antes, durante e depois da
    viagem.

    Se não havia uma razão clara para que os prisioneiros fossem embarcados,
    apareceram outras questões no momento da chegada. Os prisioneiros não
    estavam devidamente acompanhados pela carta de sentença, documento que
    estipula as condições para o cumprimento de sua pena. Em condições normais,
    prisioneiros nessa situação costumam ser simplesmente devolvidos à polícia,
    que só deve retornar quando tiver a papelada devida. Imagine o vexame.

    Para não estragar a cena da proclamação da República, todos foram aceitos.

    Mas havia outra dificuldade. Havia prisioneiros com direito ao regime
    semiaberto – mas não havia vagas para que fossem instalados nessa condição.
    O correto, nesta circunstancia, é liberar o preso e, na pior das hipóteses,
    amarrar um chip eletrônico em seu tornozelo. Cidadãos notórios – como boa
    parte dos prisioneiros – até seriam dispensados do chip, já que poderiam
    ser facilmente reconhecidos e localizados em qualquer ponto do país.

    O resumo lógico da epopeia é o seguinte: os prisioneiros não deveriam ter
    ido a Brasília. Se chegassem lá, não poderiam ter sido aceitos no presídio
    por falta de documentos apropriados. Se mesmo assim tivessem entrado, os
    mais importantes, os troféus – José Dirceu, Genoino, Delúbio – precisavam
    ser colocados na rua.

    Seria sensacional? Talvez. Mas foi sensacionalista, quando se leva em
    contra um aspecto grave do episódio.

    Não foram tomadas medidas adequadas, em relação aos prisioneiros, que
    poderiam ter estragado a cena. Essas medidas corretivas poderiam, com
    certeza, colocar em questão a “veracidade” do espetáculo, como diz o artigo
    41 da Lei de Execuções.

    Há outra questão oculta que acompanhou o episódio.

    Com uma oposição que até agora não encontrou um rosto capaz de traduzir um
    descontentamento difuso que as pesquisas indicam existir no país, o nome de
    Joaquim Barbosa é uma possibilidade óbvia para 2014. Ele tem negado
    qualquer intenção neste sentido e conheço muitos políticos bem colocados
    que duvidam inteiramente da hipótese

    De qualquer modo, o presidente do STF não precisa ter pressa. A lei lhe dá
    o direito – exclusivo de juízes – de permanecer no cargo até abril antes de
    desincompatibilizar-se. Só neste prazo precisará filiar-se a um partido
    político.

    Para animar a oposição a pensar na possibilidade da candidatura Joaquim, as
    prisões ocorreram na mesma semana em que as pesquisas informam que Dilma
    levaria no primeiro turno se as eleições fossem hoje.

    A eventualidade presidencial de Joaquim coloca uma questão complicada em
    suas iniciativas em relação à ação penal 470. Está na cara que ele só
    deixou a condição de ilustre desconhecido para ser aplaudido nas ruas por
    causa dela. Alguém lembra de outro caso que tenha julgado no Supremo? De
    alguma denúncia que apresentou quando integrava o Ministério Público?

    E aí uma coisa alimenta a outra. Toda iniciativa de Joaquim Barbosa, como
    presidente do STF, pode lhe render frutos eleitorais óbvios, caso resolva
    entrar em campanha para se tornar presidente do país.

    Pergunto se é muita má vontade enxergar aí um caso estranho de conflito de
    interesses.

    Acho aceitável que um governador, um presidente, um senador, utilize de seu
    cargo para conseguir votos. Afinal, estamos falando de cidadãos que têm um
    partido político, falam em nome de um projeto e defendem uma parcela da
    sociedade. Foram eleitos com essa perspectiva.

    Seria absurdo pedir a um governador ou presidente que fosse isento.

    Pelo contrário: mesmo procurando defender o conjunto da nação e
    comprometido com a Constituição, todos têm o direito e até o dever de
    priorizar seus eleitores, que tem interesses que podem ser até opostos aos
    de outras fatias da sociedade. Este é o jogo democrático.

    A atuação de um juiz, ainda mais presidente do STF, tem outra natureza,
    outro caráter. Em certa medida, são opostos àquilo que se espera de um
    candidato. Devem refletir a isenção das togas negras e dos olhos vendados.

    Seu compromisso é com a aplicação da lei e o respeito pelas provas dos
    autos.

    Mas, no caso do Brasil e de uma eventual candidatura de Joaquim Barbosa em
    2014, suas decisões irão servir a busca por votos.

  21. Alex de Souza 22 de Novembro de 2013 14:37

    Concordo com Danclads em tudo, principalmente com seu último parágrafo. E tenho sido chamado de reacionário, midiota, vendido para a direita, serviçal do poder, alienado, não necessariamente nessa ordem, por expressar publicamente essa opinião. Nesses dias, vão descobrir que o criminoso fui eu.

  22. Tácito Costa
    Tácito Costa 22 de Novembro de 2013 17:56

    Oxente, e não foi não! Então foi Carlão – rs. Brincadeira amigo, pelo menos aqui acho difícil você receber esse tratamento. Acho que a discussão pode ocorrer num nível elevado, sem desqualificações pobres e recorrentes. Abç.

  23. Danclads Andrade 22 de Novembro de 2013 18:47

    Alex, eu também costumo dizer o que vejo, o que sinto, o que penso, sem a necessidade de que todos concordem comigo.

    Valeu, camarada, abraço.

    A todos, paz,

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