A graça é mais veloz que tudo

Por Cacá Diegues
O GLOBO

O fundamentalismo iluminista, a fé cega em que um dia nossa razão seria capaz de tudo apreender e obter de tudo uma verdade absoluta, fez o homem moderno acreditar que poderia ter controle sobre tudo o que está à sua volta.

Ele seria capaz de compreender o universo, dominar a natureza, prever com precisão a história das nações e ordenar o rumo de sua própria vida. Bastava para isso articular, com ciência, algumas verdades observadas do real diante de seus olhos.

Mas, depois de tantas ilusões e utopias fracassadas, começamos a entender que o que está diante de nossos olhos é apenas a parte menos interessante do real, um ornamento a envolver a sua real complexidade, a sua imponderabilidade.

Dois bons filmes, atualmente em cartaz, tratam desse assunto, mesmo que nem sempre seja esse o argumento originalmente concebido por seus autores. Estou me referindo a “A árvore da vida”, filme americano de Terrence Malick, e “Melancolia”, filme europeu de Lars Von Trier, as duas sensações do Festival de Cannes e da crítica mundial neste ano de 2011.

No primeiro, acompanhamos, no embalo erudito de Brahms, Mahler, Berlioz e outros, as relações familiares entre um casal de classe média e seus três filhos, abaladas pela morte trágica do irmão mais moço. No segundo, uma fútil e luxuosa festa de casamento coincide com o surgimento de um planeta desconhecido que ameaça chocar-se com a Terra, enquanto ouvimos única e exaustivamente “Tristão e Isolda” de Wagner, o Bernard Herrmann original. Além de reproduzirem, de modo mais ou menos semelhante, a angústia cinematográfica de nosso tempo (estrutura não linear, narração fragmentária, steadycam em permanente movimento, jump cuts para todo gosto, diálogos em suspensão e ditos em voz baixa, fotografia monocromática etc.) e de se referirem a misteriosa transcendência astrofísica, os dois são, no fundo e no que têm de melhor, filmes muito simples sobre o comportamento de seres humanos em seu núcleo familiar, um tema sobre o qual já vimos tantas grandes obras no cinema.

A diferença agora é que, nessa narrativa de emoções diante do impasse da morte, os dois filmes não tentam mais se explicar pela psicanálise, pela sociologia ou por qualquer tipo de étic a re l i g i o s a ( m e s m o quando a religião está em cena), mas a partir de alguma coisa que está além de nosso conhecimento e de nosso controle, longe de nosso poder.

“A árvore da vida” se inicia com a mãe opondo a graça à natureza, anunciando a necessidade de escolhermos entre as duas. Em “Melancolia”, embora não se pronuncie a palavra, é também da graça que se trata. Nessas obras de antecipação, estamos bem distante da tecnologia democrática de “2001” de Kubrick ou do misticismo social de “Solaris” de Tarkovski. Mas, como nesses filmes, é também do milagre da vida que queremos saber, entendêlo a partir da presença da morte. E, para isso, nossos equipamentos de percepção (nossa cultura) não estão e nunca estiveram preparados.

Se não me engano, é no “Nascimento da tragédia” que Nietzsche diz que “a sabedoria é um crime contra a natureza” e que não podemos forçá-la (a natureza) a nos entregar seus segredos, sob pena de agirmos inaturalmente. O que chamamos de graça talvez seja outra maneira de a natureza se manifestar. Ou talvez seja a natureza a própria graça que ainda não somos capazes de reconhecer.

Em “A árvore da vida” e “Melancolia”, a graça se manifesta através de uma tragédia inicial que traumatiza o afeto e possibilita a compreensão entre os nela envolvidos. Duas famílias tão diferentes entre si, como todas as famílias do mundo, em que seus membros tentam se ajudar a entender o que se passa — não é esse o cerne da convivência humana?

A arte contemporânea voltou a se interessar pelo acaso, como na Grécia de Édipo, quando ele era indispensável. Na “Trilogia de Nova York”, Paul Auster apresenta seu personagem a vagar por uma rua da cidade: “Nada era real, a não ser o acaso”, diz ele. No melhor filme recente de Woody Allen, o mais original e comovente, “Match Point”, o acaso é decisivo para o destino do casal protagonista. O acaso é sempre o portador da graça, sua versão laica.

Por coincidência, em meu novo projeto de filme, “O grande circo místico”, inspirado em poema de Jorge de Lima, eu e o roteirista George Moura decidimos usar como tag line uma sentença do poeta alagoano, quase um verso em oitava rima, que se encontra no final de seu romance “O anjo”: “A graça é mais veloz que tudo”, diz o herói, ao mesmo tempo trágico e estoico, como um profeta.

Como nem tudo que é ascético é necessariamente ético, o belíssimo final de “Melancolia”, o mais consistente dos dois filmes, o de mais fôlego (talvez por ser o menos discursivo), não é para mim a imagem de um apocalipse punitivo, mas o lúdico sacrifício que une as irmãs e o menino, uma celebração, na “caverna mágica”, da amizade e da solidariedade possíveis para aquele episódio de suas vidas. É preciso levar tudo a sério, mas sem perder a alegria.

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