A grande arte é a que transgride e subverte

alija

Todo grande artista é um transgressor e um ente transformador do seu meio. Essa a sua natureza incontornável. A criação em arte se situa na marca autêntica e indelével que o seu autor produz. A verdadeira criação artística é caracterizada por esse traço de autenticidade e pelo desafio em se estabelecer novas diretrizes, superando-se barreiras, mesmo que em meio a regras já previamente estabelecidas e apreendidas e, até certo ponto, obedecidas. Como toda regra existente, aquela que está na arte comporta leituras, interpretações, refazimentos, caminhos novos. A leitura estética não pode jamais ser unívoca ou guardada em cofres e entre grades e grilhões. A arte, a grande arte, é por si só libertadora, subversiva, revolucionária. E aí é que surge o novo. E o novo autêntico, o que se estabelece e permanece como tal no espaço e no tempo.

Em meio a essas convicções me propus há alguns dias a seguir um trajeto em ziguezague e em subida íngreme, passeando por entre os Passos da Paixão de Cristo até o adro no cume do morro em que se situa o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas (antiga Congonhas do Campo), Minas Gerais, onde ficam os profetas do eterno artista mineiro Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. A emoção e a perplexidade diante de tanta beleza e criatividade não foram diferentes das que experimentei há alguns anos quando vi o Davi e a Capela Sistina, escultura e pinturas de Michelangelo Buonarroti, que ficam respectivamente em Florença e Roma; ou mesmo daquela que senti ao me deparar certa noite com a estranheza magnífica da Igreja da Sagrada Família, de Gaudí, em Barcelona. Michelangelo, Gaudí e Aleijadinho assombraram (“terribilità” é mesmo a definição cabível) o mundo com sua arte porque tiveram a ousadia de empreender suas marcas e estilos além do que se previa, além do que se exigia e mesmo se aceitava.

E em que consistem as transgressões adoráveis do mestre Aleijadinho, figura quase mítica das Minas Gerais? Há de se começar pela própria limítrofe condição de quem poderia ter sido um escravo, pois filho de uma com um fidalgo e arquiteto português de boa reputação que se firmara em Vila Rica (hoje, Ouro Preto). Aleijadinho escapou da fome. E isso já é (bem) transgredir na vida, o que possibilitou a arte. E uma arte superior, reconhecida mundialmente. A sua representação dos profetas é uma das mais completas de que se tem notícia. E é uma das mais ousadas, juntamente com o próprio conjunto dos chamados Passos da Paixão. Aleijadinho, com essa e outras obras, conseguiu forjar o próprio conceito e elementos de um Barroco puramente brasileiro, congregando traços da arte europeia, africana e das próprias Minas Gerais e seu entorno.

E Aleijadinho superou as próprias dores da doença terrível – que lhe fez sofrer sérias amputações – para elaborar os trabalhos elevados que fizeram seu nome viajar por terras e terras, mesmo que a sua quase imobilidade física o impedisse de circular além de seu torrão natal e proximidades. Aleijadinho foi um obstinado em busca da beleza. A beleza que ironicamente seu corpo jamais teve, deformado quase à condição de pequeno monstro pela história dura e pela doença e dores lancinantes. Em sua arte elevou a pedra-sabão e o cedro mineiros; ironizou autoridades governamentais e eclesiásticas, revezando crítica social e crença religiosa; inseriu elementos da africanidade em confronto sutil com o purismo e “branqueamento” europeus; fortaleceu os aspectos decorativos e ornamentais; inseriu certo expressionismo às cenas. Diz a mitologia em torno do artista que os profetas de Aleijadinho correspondiam a membros da Inconfidência Mineira, o que – por evidente – teria configurado mais um lance de extrema ousadia histórica do artista barroco, que se fez imortal porque ousou além dos limites.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. François Silvestre 11 de Março de 2014 20:46

    Belíssimo texto, Lívio. Você sabe das coisas e não se acanhe disso! Quando Sócrates disse: “eu só sei que nada sei” , não inventou a humildade. Não. Inaugurou a hipocrisia!

  2. Lívio Oliveira 12 de Março de 2014 9:44

    François, palavra sua e honra minha. Fico grato e cresce minha responsabilidade e atenção.

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