A greve acabou, e aí?

Foi quando retornei às aulas que um sujeito, a quem dedico poucas palavras, me fez a pergunta: A greve acabou e aí?

Existem pessoas que não se enxergam, mas há dias em que você está procurando assunto e aceita qualquer provocação. A pergunta se referia ao encerramento da greve da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, que durou mais de 100 dias. No entanto, ele perguntou como se provocando uma revolta do meu tempo de militante esquerdista do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. E aí, nada! Respondi com a mesma língua. Mas tem figura que não desiste ainda que cuspidos. Tanto esforço para isso? Insistiu. Foi então que me dei conta de que perdi a chance de ficar mudo.

O fato é que sou remanescente dos últimos herdeiros dos movimentos estudantis e tive minha educação de pedra pelos grupos sociais da esquerda. O espírito de luta é tão vermelho quanto a minha carteirinha de filiação do PC do B e a imagem pichada no sangue da tinta de Ernesto ou ainda o que cerca as mesmas insígnias dos campesinos. Isso força-me a uma realidade subjetiva de entender a greve de uma maneira que não se entende mais hoje em dia.

Ainda vejo os movimentos paredistas como referências revolucionárias. Idealizo professores fazendo de seus objetivos um meio de melhorar o país e alunos que conhecem o Artigo 9° da Constituição. Mas quando me deparo com questionamentos que põem em xeque o romantismo revolucionário do meu coração de guerra, examino a democracia hegeliana e penso em Marx: até onde o estado é mesmo necessário e, qual a função do estado na greve da UERN e, mais ainda, quem é o estado afinal de contas?

Certamente, fazer muitas perguntas é repetir um comportamento socrático, mas se todo o esforço de mais de 100 dias só resultou num reajuste de 27% dividido em três anos, a partir do ano que vem e sem correção da inflação, dou razão ao enxerido perguntador e revolto-me como ele quer. Talvez, ele tenha razão em dar razão ao governo e devamos esquecer-nos dessa história de lutar pelo que queremos ou mesmo pelo que nos pertence. Mas no último segundo, reabro o olho, equilibro-me e não me entrego. Afinal de contas, só acha caro um professor quem não sabe quanto custa manter um político.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Márcia Pinto 25 de maio de 2012 10:12

    Texto nota 10! rsrsrsrs

  2. PROF. MARCOS ROBERTO FERNANDES GURGEL 22 de outubro de 2011 9:01

    Caro amigo, Jotta Paiva…

    Amanhecer lendo tuas crônicas é tão bom quanto saber que recebeu mais um dia de vida do Pai Eterno e da Mâe Natureza.
    Há uma frase do Che que escrevo no verso de todos os crachás dos eventos em que participo Brasil a fora: “O sonho pelo qual brigo exige que eu invente em mim a capacitadade de lutar ao lado da capacidade de amar!”
    Infelizmente o “perguntador” é vítima da perversidade ideológica egocêncrica que construiu alguns milhões de brasileiros…
    Como disse Jesus: “Pai, eles não sabem o que fazem!”
    Abraços e continue brilhando.
    Prof. Marcos Roberto – Marquinhos
    Professor e Cientista Social
    Caraúbas – RN

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