A guerra de todos no trânsito

Por Renato Janine Ribeiro
NO VALOR

Reduzimos a vida pública ao trânsito

Creio que a grande maioria dos leitores deste jornal aproveita bem pouco dos serviços municipais, como educação e saúde. A classe média desistiu faz tempo das escolas e hospitais públicos. Por “classe média”, entendo aqui em torno de metade da população brasileira, um pouco mais ou menos. Quando trabalhei em Brasília, notei que uma das primeiras providências de quem subia na vida era fugir da saúde estatal e procurar um plano de saúde. Um dos atrativos da Capes, órgão do Ministério da Educação no qual dirigi a avaliação dos mestrados e doutorados do Brasil, era ter um bom plano para a saúde dos funcionários.

Às vésperas da eleição municipal, pergunto: de que serve a prefeitura para quem é de classe média? E que expectativas temos em relação a ela? Quase toda a propaganda eleitoral se escora na promessa de melhorias para os mais pobres. Dadas a desigualdade e a injustiça sociais que há no Brasil, nada mais justo. Aceito de bom grado que a prioridade seja dos pobres. Sei, aliás, que também sou beneficiado com a redução da miséria. Ela melhora o país como um todo. Dá perspectivas de vida a pessoas que, não fosse isso, teriam a vida breve, curta, sórdida e miserável. Esses adjetivos são de Thomas Hobbes, o filósofo que mais estudei, e definem o que ele chama de estado de guerra. A combinação de miséria e violência que há no Brasil corresponde razoavelmente a esse estado de guerra, até porque ele vige quando não temos proteção do Estado contra a insegurança – e é assim que estão muitos bairros que percorremos, em muitas cidades de nosso país.

Mas, reconhecida esta prioridade, o que esperamos ou queremos de um governo municipal? É legítimo os vários interesses se exporem numa campanha. É legítimo cada setor da sociedade pedir o que quer. O que não é legítimo é escondê-los. E o que é totalmente ilegítimo é manipulá-los. Quem viu, lembre, quem não viu, alugue a série “Hilda Furacão”, da TV Globo, adaptação de belo romance de Roberto Drummond: um rico desonesto manipula a opinião pública, em Belo Horizonte, para fechar a zona de prostituição, com o intuito de loteá-la e ganhar rios de dinheiro. A história, asseguram-me os amigos mineiros, tem base real. Sucede, em campanhas, de se manipular a opinião, geralmente com causas moralistas, para obter fins pouco confessáveis. O que deseja a classe média?

O problema é que para esta classe a prefeitura praticamente só assegura um bem, o trânsito. Nosso interesse pela vida pública municipal acabou se resumindo num trânsito que flua – o que não obtemos. Não é por acaso que asfalto bom, viadutos e pontes costumem ser populares junto à classe média. Na verdade, ao contrário dos europeus, nos acostumamos a usar o carro e não o transporte coletivo. O automóvel particular não é um luxo, mas uma necessidade. Junto com o plano de saúde, é uma das prioridades de quem ascende na escala social. Dá-se mais importância à saúde privada e ao carro próprio do que à educação. Já sugeri que a educação fica em segundo plano porque as pessoas simplesmente não têm ideia do que ela seria, se boa. Mas elas sabem o que é a doença e o que é passar horas no ônibus. É por isso que, tão logo há uma folga no orçamento, o seguro-saúde e o carro são as primeiras demandas.

Eu me permito aqui uma interpretação rápida. Um dos indicadores mais importantes da vida em sociedade é como cada um de nós interage com os outros em lugares públicos. Mas acontece que, tão logo você tenha um carro, passa a interagir muito menos nos espaços comuns. Não usa mais o ônibus, mesmo o metrô. Para muitas pessoas, os tempos mais longos em que elas têm contato com o outro – com o desconhecido, com o conterrâneo – se dão com cada uma dentro de seu carro. Na verdade, os encontros passam a se dar entre dois ou mais carros. Ora, que é da cooperação, neste caso? Duas pessoas se encontrando na rua, face a face, tête à tête, podem sorrir uma para a outra, ou uma recolher do chão alguma coisa que a outra deixou cair, em suma, podem ser simpáticas entre si. Podem cooperar. Podem criar um laço social. Esta pode até mesmo ser uma sociabilidade efêmera, como a que construímos com o passageiro ao lado no ônibus, no avião, onde quer que seja – uma dessas relações que não terá continuidade, em que não daremos o telefone ou, se dermos, sabemos que não vamos ligar; mas que são muito agradáveis, direi eu, adaptando Vinicius: ternas enquanto durem.

Mas pode isso acontecer entre dois automobilistas? Não, ou melhor, só no filme de animação “Carros”, em que os personagens são, justamente, automóveis. Porque, quando dois carros se cruzam na rua, na maior parte dos países subdesenvolvidos é para seus motoristas se hostilizarem. Negamos a passagem ao outro. Disputamos com ele a preferencial. O contraste é espantoso com os países desenvolvidos. Lá, os motoristas são tranquilos. Cedem a vez. Não se estressam tanto, nem estressam o outro.

O que resumir disso? Pouco temos, nós da classe média, a esperar dos governos municipais – pelo menos, em nosso interesse direto. E nosso principal interesse na vida nas cidades é esta pequena guerra de todos contra todos, em que fechamos o carro do outro com o risco de um acidente, que na melhor das hipóteses custa dinheiro e tempo, na pior, a vida ou a saúde, isso só para ganhar uma fração de segundo. E nisso, sentimos também nossa falha nas relações humanas. Porque não adianta repetirmos que somos mais calorosos, mais afetuosos que os europeus ou americanos, quando o que fazemos, no trânsito, é uma simulação de guerra. Mudar isso é preciso. Depende de quem?

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