“A higiene pessoal tornou o corpo mais explorável”

Por Roberto Kaz
NA FSP

Em “Histórias Íntimas”, Mary del Priore conta como o sexo se ampliou.

Dois meses após lançar “Histórias Íntimas” (Planeta) -livro que explica a evolução do erotismo no Brasil desde período colonial- a historiadora Mary del Priore continua no topo da lista dos mais vendidos de não-ficção.

O feito, algo raro no tocante a livros sobre o passado do país, só costuma ser compartilhado por Laurentino Gomes (autor de “1808”) e Eduardo Bueno (autor de “A Viagem do Descobrimento”), ambos escritores com um pé fora da academia.

“Histórias Íntimas” é o 29º livro de Mary del Priore. Desses, 25 seguiram padrões acadêmicos, da época em que estava vinculada ao quadro de docentes da USP. Doze anos atrás, ela se desligou da universidade.

“Saí estimulada pelos meus filhos, que me viam aborrecida. O sistema de pontuação das universidades públicas te aprisiona num rol de atividades retóricas e burocráticas. É a lógica do “publish or perish” (publique ou pereça). Isso me neutralizava”, diz. Hoje Mary mora em Petrópolis (RJ), de onde falou à Folha, por telefone:

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Folha – Em “Histórias Íntimas” você fala que, no século 19, “não havia lugar do corpo feminino menos erótico do que os seios”. O corpo da mulher se tornou mais desfrutável desde então?

Mary del Priore – Sim, os seios ganharam importância quando a lingerie começou a se difundir, no século 20. Antes, a roupa íntima da mulher era uma sobreposição de saias compridas, repletas de botões e laços. Despir-se era complexo.

A lingerie levou o olhar do homem para uma parte do corpo feminino até então vista como meramente funcional, chamadas de “aparelhos de lactação”. Mas a grande moda dos seios veio mesmo na década de 1950, com o cinema americano, a Playboy e a Marilyn Monroe.

Como os avanços industriais contribuíram para a ampliação da sexualidade?

A abertura dos portos, em 1808, modificou os hábitos noturnos burgueses. Até o século 19, dormia-se em redes ou esteiras. As relações ocorriam nesses locais, o que as tornava breves. A partir de 1808, passaram a chegar camas e colchões da Europa. E o quarto do casal burguês passou a ser o que chamo de santuário da reprodução.

O sexo também ganhou muito, já no século 20, com a comercialização da pasta de dente, do desodorante, do sabão e de outros produtos de higiene. Eles tornaram o corpo mais limpo e, por consequência, explorável.

Você diz que, a partir dos anos 1960, a ideia do “direito do prazer” fabricou um efeito colateral: o sofrimento pela ausência do prazer. Ele é pior do que a contenção?

Ambos são nefastos. Nossa sociedade passou com muita rapidez da ditadura da contenção para a ditadura do gozo. Hoje, além de escolher os parceiros, as pessoas podem escolher o próprio sexo. Podem ser homem em um dia e mulher no outro. Mas esse excesso causa no homem uma insegurança muito grande.

A mulher também está solitária, tanto que as manchetes de revistas femininas continuam ensinando formas de agradar aos homens. E, até os anos 1980, a preocupação das revistas era com o bem-estar da família. A palavra “orgasmo” nem aparecia no vocabulário do casamento.

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