A hipótese de Lygia

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Folheio, com ansiedade, “Uma voz vinda de outro lugar”, livro de Maurice Blanchot que acaba de sair pela Rocco, em tradução de Adriana Lisboa. Leio aos saltos, pois Blanchot sempre me deixa inquieto. Volta e meia, retorno ao título, que se refere a uma voz de origem desconhecida, vinda desde muito longe, que subitamente invade o presente. Os escritores, não só Blanchot, a conhecem muito bem. É nela que, com o livro já fechado, eu me ponho a pensar.

De onde vem essa voz que nos põe a escrever? Não sou místico _ não vem do Além. Não sou espírita _ não se trata, portanto, de psicografia. Todos sabem que sou um admirador entusiasmado da psicanálise, então eu poderia me arriscar a dizer que essa voz vem do inconsciente. Certamente vem _ mas ainda é muito pouco, ainda não me satisfaz. Lygia Fagundes Telles me dizia, há poucos dias, que é preciso acreditar na inspiração. Velha palavra em desuso, tratada com desprezo e chutes, mas que, como essa voz atordoante, sempre retorna. Embora também não acredite em Musas, considero a hipótese de Lygia, pelo menos como um ponto de partida _ nunca de chegada.

Quando escreve, o escritor se conecta (está bem, eu aceito: ele inspira) uma voz que vem de muito longe, uma voz vinda de outro lugar. Isso eu posso aceitar. Mas, ao aceitar, surge o verdadeiro problema: de que lugar vem essa voz? Talvez não seja mesmo possível responder a essa pergunta. Mas perguntas não são alvos em que cravamos a flecha das certezas. Perguntas _ ao contrário do que estamos sempre a esperar _ não correspondem a respostas. Perguntas não suportam “solução”. Estão aí para que as rondemos. Está bem, eu aceito: para que as respiremos.

Sei que é uma voz que atordoa, e não foi por outro motivo que Virginia Woolf se suicidou, que Hilta Hilst bebeu mais do que devia, que Marcel Proust sufocava em sua asma, que Orides Fontela “enlouqueceu”, que Pessoa foi tragado pelas próprias palavras. Não é fácil, é enervante. Escritores têm os ouvidos perfurados por essa voz que os invade, os coloca em transe, que não sossega.

Lembrei de Hilda porque foi uma das maiores amigas de Lygia. Um dia, nos jardins da Chácara do Sol, onde morava, envolta em seus cães e com os olhos borrados de espanto, Hilda me disse: “Eu sei que você sabe: não estou louca”. Louca? Sua mente solar, que fervia e ardia, era pura lucidez. Talvez excesso de lucidez, posso admitir. (Talvez seja isso a loucura: lucidez em excesso, lucidez desumana.) Um hábito incurável de escutar.

Não era por outro motivo que, através de ondas de rádio, Hilda pretendia comunicar-se com os mortos. Tinha convicção de que falava com eles. E mais: de que eles lhe respondiam. O rádio foi, provavelmente, uma “desculpa técnica” a que Hilda se agarrou para explicar o que lhe acontecia. Aquelas vozes todas: era preciso lhes apontar uma origem. Era preciso dizer que percurso faziam. Era indispensável, no mundo da técnica, que um rádio explicasse isso.

Nelson Rodrigues ouvia vozes. Um dia, em uma entrevista, lhe perguntei como conseguia escrever suas crônicas na imensa zoeira da redação de “O Globo” _ e falo do tempo das máquinas de escrever, com seu ranger enlouquecedor. Disse-me Nelson algo assim: “Eu não estou aqui. Estou, mas minha cabeça está em outro lugar”. O mesmo outro lugar. Mesmo e outro: eis o paradoxo. Que nome lhe dar?

Muito doente, entre frascos de remédios e ampolas de injeção, Adolfo Bioy Casares já não se importava com o entra e sai das enfermeiras, suas perguntas de rotina, suas aferições, suas recomendações. Apesar delas, continuava a escrever, sempre a mão, em um caderno espanhol. Visitei-o em Buenos Aires, eu mesmo vi. Seu lindo quarto de solitário, de uma Argentina nostálgica e elegante, tinha a aparência triste de uma enfermaria. Bioy, no entanto, fez questão de vestir paletó e gravata para me receber. Como o senhor consegue se concentrar? Como pode? Já não sei se a frase foi exatamente esta: “O quarto não importa, vem tudo de meu caderno”.

Um caderno: outro lugar. Um aparelho de rádio. Começam a surgir imagens deste “outro lugar”. Um homem perdido no burburinho de uma redação: o outro lugar escondido em sua mente. Clarice escrevia na cozinha, enquanto sua empregada batia um bolo. Adélia Prado também escreve na cozinha, enquanto vigia seu feijão mineiro. Vinicius rascunhava seus poemas em mesas de bar. João Gilberto Noll escreveu uma de suas narrativas (já não me recordo qual) no salão de um restaurante, enquanto o arrumavam para o serviço de jantar.

Qual lugar? Isso, na verdade, não importa, já que se trata de outro lugar. Condições ideais? Só viriam atrapalhar. Mas, então, que outro lugar é este que permanece indiferente às coisas da realidade? Que a atravessa, como outra dimensão, como _ penso em Cabral _ uma faca que corta o vazio? Não sei pensar isso muito bem, sei apenas que tem algo a ver com o possível.

Costumamos limitar nossas vidas. Escutamos sempre as mesmas pessoas e as mesmas coisas. Dizemos sempre as mesmas palavras, nossas reações são sempre parecidas. No entanto, podemos agir diferente. Podemos (somos) outros. Por que não alterar um pouco? Chego a um nome para o estado que define a posição do escritor: estado de alteração.

Sim, enquanto escreve, o escritor está alterado _ como dizemos daqueles que bebem demais, ou se entopem de psicotrópicos, ou estão fora de si por causa de uma paixão, ou de um luto. Essa alteração é o estado ideal da escrita. Ouso usar uma palavra, carregada de misticismo e de comprometimentos: trata-se de um transe. Há, sim, um transe no momento da escrita. Não porque espíritos se apossem do corpo de quem escreve. Não porque ele esteja “fora de si”. Ao contrário, enquanto escreve o escritor está dentro de si. Para escrever, é preciso “cair em si”. É nessa queda que se ouve algo diferente. É dela que o escritor retira o inesperado.

Comecei falando de vozes que ecoam de outro lugar, e cheguei à queda. Vejam como são escorregadias as palavras! Também eu fui arrastado por uma voz que _ de onde ela vem? São sete e meia da manhã, a casa está em silêncio. Nada se ouve, além do canto dos pássaros. Dormi bem, acabei de tomar um café preto, estou bem disposto e lúcido. Mas as vozes estão aqui. Eu não as ouço, mas elas estão por perto, e me atravessam. Talvez sejam elas que me empurram. Talvez por isso, porque sou empurrado por vozes que não ouço, eu pense em uma queda. Escrever é cair?

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Maíra 3 de novembro de 2011 19:23

    Excelente texto, lembrou-me uma música que ouvi recentemente, do artista Wado:

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