A história que se foi. A história que se faz

Tenho respeito pelo Presidente Lula. Tenho algum respeito pelo Partido dos Trabalhadores. Votei em ambos e fiz campanha pelos dois, num farto punhado de vezes. Mas, confesso que, ao longo desses quase oito anos, ambos têm me decepcionado por diversos momentos e já se reduziu, consideravelmente, a minha cota de admiração pelos dois ícones de nossa política contemporânea. O PT me decepcionou primeiro, com a carga de escândalos históricos que todos já conhecem sobejamente e que fizeram com que os rumos de uma Política que se almejava, com “P” maiúsculo, descarrilhasse. Passei a ser mais descrente da política. De qualquer forma de política. E isso é algo negativo, eu sei.

Há algum tempo, no entanto, tem acontecido o que eu não acreditava que viesse ocorrer. Tenho ficado, também, cada vez mais descrente do valor político que acreditava ter o Presidente Luís Inácio. Após ter ultrapassado, com a força de sua história pessoal e política, o lamaçal escandaloso de práticas internas de seu governo e de parlamentares de seu partido e de sua base aliada, renascendo sempre das cinzas, qual uma fênix avermelhada e com uma estrela no peito, o Presidente iniciou (ou deixou mais clara), principalmente nesse final de governo, uma rota arriscada e que pode contaminar a imagem histórica que quer ter de estadista e de político de escol.

As suas más companhias na América Latina e no outro lado do mundo têm sido, para mim e para muitos, o sinal decepcionante maior de que há um lado visceralmente anti-democrático oculto (ou muito explícito) no governo de Lula. É uma contradição absurda e que contraria todo o discurso engendrado na política interna desse governo que aí está. O tom democrático e internamente tolerante (com alguns arranhões, é claro, como o do jornalista estrangeiro que sofreu constrangimentos terríveis aqui pelo simples fato de ter criticado o presidente) tem tido um contraponto que se assenta no partilhar de ideias absurdamente diatoriais que nos contaminam, principalmente no que concerne à América Latina , de um pensamento político atrasado e que retrocede.

Nos derradeiros discursos de Lula, o Presidente tem demonstrado certa irresponsabilidade institucional ao zombar das multas que recebeu, juntamente com sua candidata, do TSE. Não é preciso ensinar a ninguém  (pois todos já sabem), mas isso é um dado extremamente negativo e torna Lula numa espécie de gozador (no pior sentido da palavra) de nossa harmonia e separação dos poderes estatais. Inclusive, porque têm lugar no TSE alguns Ministros do STF, inclusive seu Presidente. Montesquieu não gostaria disso, todos sabem.

Tenho respeito pela história passada do presidente Lula. Tenho algum respeito pela história construída, lá atrás, pelo Partido dos Trabalhadores. Por isso mesmo, não consigo mais vê-los hoje como eram no passado. As rugas  e cicatrizes da história não me permitem isso.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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