A honra que toda cantora quer

Por Patricia Palumbo

Caetano e Moreno Veloso estão trabalhando juntos no novo CD de Gal Costa. Caetano está escrevendo as canções e Moreno está lá em Salvador com seu violão. O começo parece muito bom. A carreira e a história de Gal Costa a colocam entre as maiores cantoras do País. Bastaria citar o antológico Fa-Tal, entre tantos. A notícia de um novo disco sempre cria em mim uma forte expectativa.

Com o CD Hoje, de 2005, foi assim. Diziam que Gal gravaria novos compositores, nomes desconhecidos, mas o repertório não foi tão interessante e nem tão novo. Muito melhor foi o Ao Vivo no Blue Note lançado em 2008 no qual ela desfila lindamente sua coleção de standards.

Isso me fez pensar em quantas cantoras já tiveram esse privilégio que é ter Caetano Veloso escrevendo para elas. Me lembrei de Escândalo para Ângela Rô Rô em 81: “Oh doce irmã, o que você quer mais? Eu já arranhei minha garganta toda atrás de alguma paz…” . Para Mart”nália , Pé do Meu Samba: “Dez na maneira e no tom, você é o cheiro bom da madeira do meu violão…” e a letra desfila o Rio de Janeiro enquanto descreve a cantora mais carioca de todos os tempos. E o que dizer de Gatas Extraordinárias para Cássia Eller? Perfeitas traduções.

Cássia, intérprete incomparável, teve a seu serviço as palavras de Nando Reis pra dizer o que queria. Também ganhou música de Itamar Assumpção, que fez Sonhei que Viajava com Você. Ditou a letra por telefone um dia antes de uma viagem que Cássia havia programado – ele jura que não sabia. Eu acredito.

Ganhar música de um compositor é uma honra que toda cantora deseja. Muitas vezes acontece por afinidade e admiração, outras por encomenda. Paulinho Moska me disse que recebe muitos pedidos e que não raramente responde que tem muitas inéditas, que só ele gravou, e recomenda uma pesquisa em sua discografia. Assino embaixo. Nosso cancioneiro é um universo cheio de maravilhas.

A escolha de repertório é um momento fundamental e pode definir um artista. Antes de gravar um disco o pessoal que leva a sério essa vida sai buscando pra valer e se atormenta com isso. Escolher é uma arte.

Marina Lima sempre fez escolhas excelentes. Cantando Paulinho da Viola em Para Um Amor no Recife, Tom Jobim em Garota de Ipanema ou Solidão, de Dolores Duran, ela imprime em todas sua personalidade. As canções parecem ter sido feitas pra ela e na sua voz tem a mesma verdade do seu discurso poético como compositora.

No CD Eu Me Transformo em Outras, de 2006, Zélia Duncan ganhou um novo público além do pop-rock registrando clássicos como Janelas Abertas e Sábado em Copacabana. Mérito dela com a colaboração preciosa de Bia Paes Leme, pesquisadora e musicista. Meu Rádio e Meu Mulato, de Herivelto Martins, é uma crônica deliciosa que ninguém imaginaria ouvir no repertório da cantora de Catedral. Golaço.

Roberta Sá fez ainda agora um CD todo dedicado ao compositor baiano Roque Ferreira. Gravou seus sambas de roda com as cordas do Trio Madeira Brasil. Ficou lindo.

Há produtores que são craques em juntar a canção ao intérprete ideal. É inegável a presença de Nelson Motta na contemporaneidade do LP Elis Em Pleno Verão, de 1970. Ela canta Tim Maia, Jorge Ben, Roberto e Erasmo e o disco é genial.

E temos o caso de casamento perfeito entre Dorival Caymmi e Carmem Miranda. Caymmi ensinou até o revirar dos olhinhos para a portuguesa que tanto representou o Brasil com O Que é Que a Baiana Tem?. Outra boa história de duas mãos é a de Ataulfo Alves e Elizeth Cardoso com Mulata Assanhada e É Luxo Só, dois sambas lindos escritos em homenagem à Divina e imortalizados por ela.

Nos anos 20 e 30 Francisco Alves comprava os sambas que queria gravar e em alguns casos se aproveitava da fama pra exigir parceria. E não era pouca gente que escrevia pensando nele. Imaginem, o Rei da Voz! Sinhô foi um dos compositores que ele mais gravou.

Se o artista compõe e escolhe ser um cantautor, o desafio é outro. Tulipa Ruiz, essencialmente intérprete dela mesma, é uma das melhores de sua geração. Segura na sua diferença e originalidade, estreou com Efêmera, um dos discos mais bacanas da temporada. Agora, de Tom Jobim e Chico Buarque já falaram horrores de suas parcas habilidades ao cantar. Mas estou pra ouvir quem seria capaz de cantar melhor Falando de Amor do que o próprio Jobim. Vá ouvir. Qualquer mulher se dobra a esse charme.

A equação é difícil e o tema é delicado. O essencial é ter personalidade e sem a menor chance de dúvida, escolher bem. E eu sigo aqui, ansiosa, esperando o disco novo da Gal.

********

PATRICIA PALUMBO É JORNALISTA E COMANDA O PROGRAMA VOZES DO BRASIL NA RÁDIO ELDORADO FM. AUTORA DOS LIVROS VOZES DO BRASIL VOL. 1 E 2

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

vinte − dezoito =

ao topo