A hora e a vez do cabelo crescer

Durante boa parte da minha curta e já interrompida carreira jornalística, atuei em áreas que são consideradas os patinhos feios das redações: esportes e cultura, especialmente esta última. Ambas geralmente são tocadas por aficionados chamados pelos colegas de ‘setoristas’, profissionais que carregam o estigma de ‘só saberem fazer aquilo’. O Olimpo, para quem trabalha num jornal, é fazer política. Esses são os caras de tarimba, uma elite privilegiada entre a força de trabalho. Com a internet, a cobertura política aqui no estado se ampliou exponencialmente.

Um lado bacana de trabalhar com cultura é que, apesar de atrair poucos leitores se compararmos com as demais editorias, o público é qualificado e geralmente há bastante reflexão e críticas sobre o fazer jornalístico. Muitas delas são bastante pertinentes.

(Por sinal, um sintoma da indigência cultural que grassa no jornalismo potiguar pôde ser conferido neste sábado, quando apenas um jornal da capital, a Tribuna do Norte, dedicou uma foto e chamada de capa para a morte de José Saramago. É como se morressem escritores de língua portuguesa agraciados pelo Nobel toda semana. Não é notícia.)

No entanto, pouca gente reflete sobre o jornalismo político praticado no Rio Grande do Norte. Dois fatos recentes me chamaram a atenção para a relação entre a imprensa e a classe política potiguares e são, também, sintomáticos.

Um foi a denúncia feita pelo deputado federal e gato Fábio Faria de que estaria sofrendo chantagem de um blogueiro, que exigia R$ 4 mil para não falar mal do parlamentar (como se fosse possível falar bem de 97,8% dos políticos locais, segundo o último levantamento). O outro, a desistência dos principais candidatos ao governo do estado, Iberê e Rosalba, de participar do programa Xeque-Mate, da TVU, que está sabatinando todos os pretendentes a administradores desta birosca em formato de elefante.

O caso do achaque ao deputado Fábio Faria expõe um assunto delicado, verdadeiro tabu entre os jornalistas da terrinha, que é a ética obtusa que rege as relações de caráter financeiro com os políticos.

Mesmo sendo reprováveis, algumas práticas que envolvem o jogo de interesse entre os donos do poder e as empresas de comunicação já são meio que consideradas regras do jogo. Jornais se aliam a projetos políticos de olho em benesses publicitárias ou mesmo funcionam como engrenagem de grupos, vejam o exemplo da Tribuna do Norte, TV Tropical e TV Ponta Negra. É um reflexo torpe do comando exercido pela classe política sobre a mídia brasileira.

A coisa fica ainda mais pantanosa quando essas relações se dão diretamente entre o jornalista e o poder, sem atravessadores. Jornalista no RN ganha um salário porco e ruim para fazer um trabalho porco e ruim. Para viver, é obrigado a fazer mais trabalho porco e ruim em outros lugares para completar a renda familiar. Por incrível que pareça, é de praxe no jornalismo político que esse outro bico (que geralmente paga bem mais que a empresa da qual é contratado) seja de ‘assessor’ de políticos.

As aspas estão ali justamente porque existem dois tipos de assessores. Há os que exercem a atividade abertamente, pois, afinal de contas, isso é bossa nova, isso é muito natural – e se irritam sobremaneira se há quaisquer questionamentos sobre a ‘ética’ do seu trabalho, mesmo quando não há ética alguma. Há, ainda, aqueles em que é a faca entrando e eles negando até o fim que estão numa folha paralela, enquanto todos sabem em que time eles jogam.

(Você por acaso tem ideia da quantidade de gente na folha de pagamento do comitê de imprensa da Assembleia Legislativa? Se aparecerem todos para trabalhar no mesmo dia, não sobra espaço nem para os deputados no Palácio José Augusto. Era prática comum até dia desses convidar repórteres da área para entrar na listinha.)

Talvez todo o espanto e burburinho tenham sido motivados pela falta de tato do rapaz na hora de pedir um agrado ao deputado. Afinal, o que não falta na blogosfera potiguar é gente levando muito mais do que quatro pilas pelo mesmo serviço.

O que nos leva ao caso dos dois bundões, Iberê e Rosalba. O programa Xeque-Mate, uma iniciativa bacana criada pelo professor Emanuel Barreto e hoje coordenada muito bem pelo professor Ruy Rocha, consiste em entrevistas coletivas realizadas pelos alunos de Comunicação Social da UFRN.

Aproveitando o clima morno de pré-campanha, em que as agendas ainda não soterram completamente os candidatos, o programa marcou entrevistas com todos os pré-candidatos ao governo, atitude democrática e plural, apesar de eu duvidar de que qualquer um deles tenha algo edificante a dizer.

Em ambos os casos, os alunos foram avisados em cima da hora, com estúdio já montado e tudo o mais, que nem Rosalba, nem Iberê apareceriam para gravar, por problemas de agenda.

A ‘Rosa’, cujo grupo político tem como hobby processar jornalistas recalcitrantes em Mossoró (a incrível cidade em que uma única família é governo e oposição), apresentou a espinhosa lorota de que teria de ir a Brasília, mas estranhamente foi vista por Natal na mesma noite. Já Iberê tem a desculpa perfeita de precisar fazer sua candidatura e o Estado andarem, mesmo falhando fragorosamente nas duas coisas.

Dois políticos calejados, com vários anos de vida pública, temerem participar de um programa de entrevistas com alunos de jornalismo que às vezes sequer sabem o que perguntar é, ainda, um reflexo das relações espúrias que eles mantêm com os jornalistas da terrinha.

A cobertura política praticada por aqui é de uma pobreza que deixaria São Francisco de Assis com inveja, caso os santos pecassem. Com cada vez mais raras exceções, a cobertura se limita a reverberar futricas e balões de ensaio muitas vezes plantados pelos próprios jornalistas a mando de seus capos. Tem quem faz colunismo social e pensa que é jornalismo político. Desconhece-se se o Legislativo legisla ou o Executivo executa – até porque o Judiciário nunca julga.

Acostumados a tapinhas nas costas e perguntas tipo ‘vai que é tua, Taffarel’, teriam as duas raposas ficado com receio de enfrentar um ambiente distante do controle de qualidade do caixa dois? É bem possível. Foi-se o tempo em que a capacidade de diálogo e de convencimento eram primordiais para o exercício da política.

A blogosfera só fez amplificar esse mercado e pulverizar ainda mais a grana que não pinga nas grandes empresas. Enquanto isso, independente de quem coliga com quem na próxima eleição, o Rio Grande do Norte afunda cada vez mais em pobreza e corrupção, a olhos vistos, tudo com direito a fotos, notinhas elogiosas e reticências.

Fora os raros momentos em que a vida legal e administrativa do Estado serve para satisfazer as birras de um ou outro grupo, como nas mumunhas recentes sobre empréstimos a bancos públicos e liberação de verbas, você se lembra de encontrar no noticiário reportagens que investigam a fundo como andam a administração ou quais projetos são relevantes ao desenvolvimento econômico do Rio Grande do Norte?

Pior do que instituir a futrica como carro-chefe de uma cobertura que, em tese, deveria orientar a população sobre o que realmente andam fazendo seus representantes, o modelo de jornalismo político em prática tem um reflexo ainda mais pernicioso: ele limou a opinião – esse termo fantasmagórico – do dia a dia da administração pública.

P.S.: Você deve estar se perguntando o que diabos esse papo todinho tem a ver com o título lá de cima. Na verdade, eu acho essa música do Mutantes do caralho e sempre quis usá-la para encabeçar algum texto.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 21 comentários para esta postagem
  1. Anne Hellen B. 27 de abril de 2011 13:30

    Olá Alex.
    Sou secretária do Prof. João Chinelato Filho, autor do livro “O&M Integrado à Informática”. Na 14ª edição do livro gostaríamos de adicionar a imagem desse post, mas precisamos de autorização. Sabe de quem é a imagem? É sua? Se for, por favor, nos autorize a utilizá-la.

    Muito grata.
    Anne.

    • Tácito Costa 27 de abril de 2011 14:09

      Anne,
      Peguei a imagem no Google, acho que não tinha crédito porque quando tem eu assino. Grato.

  2. Antonio Salieri 17 de julho de 2010 13:37

    Vai, Alexandre, volte para o banco. Você escreve muito mal. Sugiro a leitura dos livros de Pauline Kael. Se quiser, posso emprestá-los, tenho todos aqui em casa. Leia também a Cahiers du Cinéma.
    abs
    Professor Antonio Salieri

  3. Luciano Falcão 2 de julho de 2010 18:04

    Sensacional a leitura crítica do quadro político no RN!

    Considero o texto de leitura “obrigatória”!

    Parabéns!

  4. roberto correia matos 2 de julho de 2010 9:14

    Um belo trabalho. A meu ver a coisa é mais suja e repugnante do que foi colocada na matéria. Na realidade, salvo raríssima exceção, exercitar a política e o jornalismo como profissão sem se expor a essa fedentina requer muito amor à profissão. Se o indivíduo não tiver uma renda extra padecerá no anonimato e na miséria.

  5. Edmo Sinedino 27 de junho de 2010 14:49

    Beleza Garrafa,

    de uns poucos, muito poucos mesmo, espero ler textos como esse que você escreveu. E ele faz crescer o nojo que sinto dessa crapulagem que finge ser jornalista, e das safardanagem que finge fazer e ser político. Parabéns, abraço.

  6. Alexandre Honório 25 de junho de 2010 18:03

    Já conversamos sobre isso uma vez, Alex: você sabe que a primeira vez em que desisti do Jornalismo foi exatamente para não me deixar levar pelo “lado negro”. Fui ser bancário…

    Se me arrependo? Nenhum pouco. Prova disso é que, de volta ao jornalismo, não precisei abrir mão do que acredito para, sim, tornar a fazer esse tal de jornalismo.

    Ótimo texto. Alguns vão vestir a carapuça, certamente.

    No fim, como disse pra você, a principal pergunta quando o saco de lixo se abre é se você quer entrar nele ou não.

    Eu e você fomos espertos e passamos longe dele: soubemos deixar os outros se esbaldar com o pretume.

  7. Cláudio 24 de junho de 2010 11:32

    Caros amigos, o texto de Alex de Souza não precisa de complementações… está perfeito!

    O comentário de Tácito, idem!

    Cláudio David – jornalista, ex-repórter político e estudante de Direito.

    P.S.: Alguém adivinha por que estou trocando o Jornalismo pelo Direito?

  8. Carito 22 de junho de 2010 8:28

    O texto é ducaralho! Para ficar plutão da vida! Mas o título faz toda a diferença – independência ou marte!

  9. Karl Leite 21 de junho de 2010 20:47

    Amigo Alex, parabenizo-o pelo excelente ponto de vista da mais pura verdade. Abs, Karl Leite

  10. José Valdi 21 de junho de 2010 19:32

    Caro Alex, vou resumir meu comentário, apenas dizendo: enfim encontrei vida inteligente no jornalismo do RN.

  11. tete bezerra 21 de junho de 2010 17:49

    Assino embaixo do seu texto e do lúcido comentário de Tácito. São poucos os jornalistas que não se vendem, que não tem sinecuras em assembleias legislativas e afins….

  12. DENISE ARAÚJO CORREIA 21 de junho de 2010 9:04

    Alex,
    Ler seu texto é um alento, não pelo que ele revela (em absoluto), mas como revela. São poucos os textos de jornalismo político que leio. Confio em poucos jornalistas e só leio textos em sua maioria publicados na internet. Os seus escritos comprovam que você não é um jornalista setorial, mas amplo e coeso na avaliação do que reverbera socialmente em nosso estado. Infelizmente a larga experiência no executivo e no legislativo não conferiu nenhuma probidade a essa gente. Olvidar a realidade da nossa lama política é o motor que faz com que a cada eleição nada mude, mas só perpetue um ciclo que não acaba. Nossos poucos bons jornalistas não são mais recalcitrantes do que esses dinossauros que permanecem no poder graças a uma população miserável e carente de absolutamente tudo. É uma lástima a nossa situação e um brilhante essa sua reflexão.
    Parabéns.

  13. Sérgio Vilar 21 de junho de 2010 8:00

    Antes a lista fosse só na AL. Já soube de cada um que recebe “por fora” de instituições do Estado e do Município sem nem aparecer lá. E não se resume a jornalistas. Muitos intelectuais estão no mesmo bojo. A esse tipo de jornalista, minha crítica. Aos assessores, mesmo que da área em que trabalham, vejo como uma falta de ética provocada e sem escapatória. Note que em todas as críticas a esse tema nunca há sugestões, alternativas, soluções. Claro, há os corruptos, como em toda profissão, mas muitos precisam, são pais de família, empresam seus serviços profissionais e blá blá blá, aquela velha história de sempre…

  14. Carlos von Sohsten 21 de junho de 2010 7:37

    Parabéns Alex!
    É isso mesmo. Perfeita a sua análise.
    Uma coisa que ninguém notou (ou se notou esqueceu de comentar) é que o tal blogueiro já havia ganho um BlackBerry. Ou seja, a fera foi alimentada. Quando o monstro cresce, fica incontrolável. Assim caminha o círculo vicioso dessa relação prostituída, mal amada e bem paga.
    Parece que há algo de PODRE com o PODER. Pois, do 1º ao 4º, a coisa parece estar “comprometida”.
    Nesse ritmo, viraremos uma nação de estrangeiros… estrangeiros da ética, bem antes da bandeirada final.
    Obrigado pelas reflexões!
    Abraços!
    Carlos von Sohsten

  15. Marcos Silva 21 de junho de 2010 6:32

    Amigos e amigas:

    O texto de Alex é muito bom. Não é para consolar mas o panorama no resto do país parece muito semelhante, talvez com alguma sofisticação a mais – terceirização dos pagantes, elogios e ataques com griffes célebres em grandes jornais, revistas e canais de televisão. A net ainda é um espaço onde algumas vozes independentes podem ser lidas. No tempo da ditadura, existiu uma imprensa impressa alternativa, conseguindo resultados muitas vezes brilhantes. Será que hoje isso ainda seria possível? Onde estão cooperativas de jornalistas independentes e similares?
    Abraços:

  16. Cláudia Magalhães 21 de junho de 2010 0:19

    Realmente, como disse nosso querido Tácito, o RN se encontra mergulhado numa mediocridade e ladroeira sem fim! Resta-nos o abismo? Pagamos a conta, mas até quando teremos que engolir o que tanto nos enoja?
    Alex, lendo teu texto somente uma alegria: Você escreve bem demais, moço! Aff… Como é bom te ler!
    Beijos
    Cláudia Magalhães

  17. João da Mata 20 de junho de 2010 22:42

    Caros Alex e Tácito,

    Gostei do post e do comentário.
    O imposto quem paga somo nós
    Precisamos saber a folha da AL.
    È uma vergonha o jornalismo político praticado nesse estado.
    É uma vergonha as Colunas hereditárias,
    Exijo saber quem recebe de quem.
    Quem é o acessor dos Farias e comunica o quê.
    Quem se abana com contra-cheques e quer dar uma de bom mocinho.
    Exigir isso é um ato político e também faz parte da cultura.

  18. Tácito Costa 20 de junho de 2010 21:56

    Alex,
    Assino embaixo de tudo o que você escreveu. Surpreendeu-me a reação do dep. Fábio Farias, uma vez que o pai dele, Robinson Farias, pte. da Assembléia Legislativa, usa e abusa nos mimos aos jornalistas, quer seja incluindo-os diretamente na folha ou mesmo através de anúncios nos veículos jornalísticos. Agora vem Fábio querendo dar uma de bom moço. Não colou, a não ser para os fãs dele e a mídia amestrada. Um dos segredos mais bem guardados no RN é o número de jornalistas que já passaram ou ainda estão na folha de pagamento da AL. Até o ministério público tentou saber isso e nada conseguiu.

    Parcial, politicamente partidiário, reacionário, vendido muitas vezes duplamente (pelos repórteres e pelos donos), o jornalismo político do RN é uma ficção de péssimo gosto. O resultado não poderia ser outro senão este que você apontou, o RN mergulhado numa mediocridade, incompetência e ladroeira sem fim. E o que é pior, as perspectivas são sinistras, independente de quem ganhar as eleições porque são todos muito ruins e representam o que há de pior na política brasileira.

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