A ideologia dos outros

Amigos e amigas:

O texto “A ideologia marxista hoje”, de Antonio Cícero (FSP, 1º/5/2010, caderno Ilustrada – E 18 – publicado no final), faz um bom balanço das catástrofes sofridas pelo pensamento marxista quando se transformou em ideologia para legitimar opções políticas eventualmente bem intencionadas e seguramente calamitosas – ex-URSS e China, dentre outras. Como toda ideologia tem função legitimadora, essa prática se faz acompanhar da suspensão de qualquer juízo crítico. AC vê bem tal fenômeno nos outros. Resta ver se consegue se enxergar no universo das ideologias.

Senti falta de uma avaliação mais ponderada, por AC, das grandes conquistas que a tradição crítica marxista (que nada tem de ideológica), presente nos textos de Marx e Engels, trouxe: a crítica do Capitalismo, a análise de suas relações de exploração e poder, inclusive de ideologias! Se nós lermos “O 18 brumário de Luís Bonaparte”, de Marx, ou “Situação da classe trabalhadora em Inglaterra”, de Engels, encontraremos brilhantes reflexões sobre violências que envolveram – e continuam a envolver – a avassaladora produção de mercadorias pelo Capitalismo. Reconheço, todavia, que ele já manifestou um movimento nesse sentido ao recuperar a crítica de Engels ao Capitalismo de estado.

Lamentei o desfecho francamente ingênuo de Antonio Cícero para seu texto: ele supõe que as metas de direitos humanos, livre expressão do pensamento, maximização da liberdade individual e autonomia de arte e ciência já tenham sido conquistadas neste mundo onde vivemos. Onde? Na Suécia? Até lá, isso é muito duvidoso! Qual a liberdade individual de um pobre morador de favelas ou de cortiços no Brasil de hoje? Liberdade para continuar a ser miserável? Qual a liberdade de um jovem de baixa classe média no Brasil? Liberdade para sofrer ressentimento porque não consegue ser tão bonito nem bem sucedido quanto seus desiguais de classes superiores? Qual é a liberdade de um adulto de alta classe média no Brasil? Liberdade para espezinhar quem ele considera inferior socialmente, liberdade para destruir?
Tenho certeza de que AC pode ainda mais, é um escritor sensível e talentoso. Por enquanto, está enxergando bem a ideologia dos outros e, cegamente, reafirmando a ideologia dele. Porque ver o Capitalismo como final da História é ideologia!

Abraços a todos e todas:

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Do editor: para facilitar a vida dos leitores tomei a liberdade de postar abaixo o texto de Antonio Cicero:

A ideologia marxista hoje

JÁ CITEI uma vez, nesta coluna, a observação do filósofo Theodor Adorno no ensaio “As Estrelas Descem à Terra” de que, ao semierudito, “a astrologia […] oferece um atalho, reduzindo o que é complexo a uma fórmula prática e oferecendo, simultaneamente, uma agradável gratificação: o indivíduo que se sente excluído dos privilégios educacionais supõe pertencer a uma minoria que está “por dentro'”. Na época, mostrei que tal descrição convém também à ideologia religiosa do apóstolo Paulo, assim como à de Martinho Lutero. Pois bem, o fato é que ela se aplica igualmente bem a ideologias seculares, tais como o marxismo vulgar.

Embora tencione dar uma chave para o entendimento do mundo, como uma religião, o marxismo, longe de se tomar como religião, considera-se inteiramente racional, declarando-se tanto filosofia quanto ciência da história e da sociedade. Isso faculta ao semierudito ter-se, do ponto de vista cognitivo, como superior também aos eruditos que, por diferentes razões, não tenham adotado a concepção marxista.

Como, além disso, essa concepção do mundo quer fundamentar uma teoria revolucionária, tendo em vista a superação do capitalismo e a instauração do comunismo, sociedade em que pretende que não haverá mais propriedade privada dos meios de produção, nem diferentes classes sociais nem os flagelos da exploração e da opressão do ser humano pelo ser humano, os marxistas, já pelo simples fato de se posicionarem a favor de tal revolução, consideram-se, a priori, superiores, também do ponto de vista ético, a todos que não o tenham feito.

Para esse modo de pensar, o mundo existente, em que domina o modo de produção capitalista, é inteiramente desvalorizado. Nele, qualquer progresso é tido como meramente adjetivo, quando não fictício. A democracia existente -qualificada de “burguesa”- não é valorizada senão enquanto caminho para a revolução. Só esta deverá trazer um progresso real.

Hoje, porém, nem os marxistas podem pretender saber como se daria a superação do capitalismo. Não ignoro que, se questionados, certamente falariam em “socialismo”. Concretamente, porém, que poderia significar para eles tal palavra?

Seu socialismo certamente nada teria a ver com a social-democracia, pois esta, sendo compatível com o capitalismo, não representaria sua superação. Tratar-se-ia então do socialismo como a estatização dos meios de produção, tal como se deu, por exemplo, na URSS?

Tomando a estatização da economia sob a ditadura do Partido Comunista, pretenso representante do proletariado, como a propriedade social dos meios de produção, os revolucionários russos supuseram que já haviam deixado para trás o modo de produção capitalista.

Será possível identificar a estatização com o socialismo? Friedrich Engels diria que não, pois afirmava que “quanto mais forças produtivas o Estado moderno passa a possuir, quanto mais se torna um capitalista total real, tantos mais cidadãos ele explora. Os trabalhadores continuam assalariados, proletários. Longe de ser superada, a relação capitalista chega ao auge”. Dado que a propriedade estatal dos meios de produção não garante a posse real deles pelos trabalhadores, ela é capaz de não passar de uma forma de capitalismo estatal.

A Revolução Cultural Chinesa pode ser entendida como uma tentativa de mobilizar as massas contra o estabelecimento de situação semelhante, na China. Seu líder, Mao Tse-tung, chegou a dizer: “Não se sabe onde está a burguesia? Mas ela está no Partido Comunista!”.

É possível. Como, porém, a verdade é que as “massas” são inerentemente plurais, particulares, instáveis e manobráveis, o fato é que, na época moderna, qualquer “democracia direta” não pode passar de uma quimera. Não admira, portanto, que a Revolução Cultural se tenha tornado extremamente caótica e violenta, de modo que, por fim, tenha sido necessário, ainda nas palavras de Badiou, “restabelecer a ordem nas piores condições”. O resultado é que impera hoje na China o mais brutal capitalismo, tanto estatal quanto privado.

Contudo, só a miopia ideológica impede de ver que, embora a “revolução” se tenha revelado um beco sem saída, o mundo em que vivemos encontra-se em fluxo incessante; e que a sociedade aberta, os direitos humanos, a livre expressão do pensamento, a maximização da liberdade individual compatível com a existência da sociedade, a autonomia da arte e da ciência etc. -que constituem exigências inegociáveis da crítica, isto é, da razão- constituem também as verdadeiras condições para torná-lo melhor.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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