A ilegalidade acima da realidade!

Arte: Steve Gribben (Mulheres grávidas)

Por Maria Gerlane da Silva

Entre diálogos frequentes com minha amiga Tânia, sobre essas exposições postadas neste blog, me senti motivada a partilhar uma passagem de minha vida e poder assim, contribuir com o debate sobre a legalização do aborto. Nos anos 80, fui vítima de uma violência sexual. Após este acontecimento, tive reações diárias de enjôos e muitos outros tipos de mal-estar. Fiz a denúncia, me submeti ao exame de corpo de delito e minha vida virou de ponta cabeça.

Não consegui mais voltar para o interior do estado, onde exercia a profissão de educadora e também estudava para concluir o segundo grau. Minhas amizades e meus relacionamentos estavam todos pautados num mundo completamente diferente do qual, por um acidente, havia sido necessário um rompimento brusco e totalmente fadigo.

Vim para Natal sem a menor condição financeira, entre outras dificuldades, pois éramos pobres e nossa família enfrentava um período de muitas adversidades. Fui acolhida por minha irmã e por seus amigos e amigas. Um grupo de sujeitos extremamente humanos e solidários. Estes me orientaram e me conduziram a um acompanhamento psicológico contribuindo, inclusive, com a minha alimentação.

Este acolhimento fez ressurgir a esperança por dias melhores, construído a partir de parâmetros novos, os quais até aquele momento não tinha conhecimento. O fato é que continuava a sentir náuseas e meus dias eram de muitas dificuldades. Distante de minha mãe e de meus irmãos menores, que também considerava como meus filhos, pois uma das coisas que realizava junto à minha família, era cuidar de meus irmãos e irmãs. Já haviam transcorridos dois meses e meu estado de saúde era cada vez mais difícil. Sofria desmaios, náuseas e frequentes crises de choro, falta de ânimo e uma tristeza que me consumia a alma.

A volta para o interior para prestar depoimentos no Fórum da Comarca, enfrentar aos muitos curiosos me consumiam ainda mais, não era tarefa fácil. Aquele acontecimento fora o primeiro caso efetivamente denunciado. Vivia um inferno cotidiano. A psicóloga me encaminhou para uma ginecologista e quando fui pegar o resultado do exame solicitado pela mesma, a confirmação “POSITIVO”.

Vivi um verdadeiro horror naquela manhã. Minha irmã andava de um lado para outro e nós apenas chorávamos o pesar dos acontecimentos. – Não quero isto, quero abortar e quero agora, já! Mas a quem recorrer? Uma ilegalidade monstruosa batia na nossa cara. Nossa família se dividia em dois blocos religiosos: Católicos fervorosos e evangélicos nada moderados. Todos se juntaram e contribuíram financeiramente para a realização do feito.

Uma senhora distinta e educada me aplicou uma injeção. Não sei se era auxiliar de enfermagem ou se exercia outra função. Senti-me dentro de uma montanha russa, numa velocidade estonteante, pedia socorro para o rapaz pelo qual devotava meus mais sinceros sentimentos e que até então fugira e que eu sabia não estar mais ao meu alcance, pois havia muitas rupturas, cujas ocorrências não me permitiriam mais voltar atrás, apenas seguir, avançar rumo ao novo e inesperado mundo. Vomitei sem parar e após um breve instante, a senhora me aconselhou a deitar, abriu minhas pernas e introduziu uma sonda.

Fui para casa e a sonda permaneceu por vinte e quatro horas, alojada em meu útero. Após sua retirada fiquei com sangramento e com muitas dores. Como a maternidade Januário Cicco estava em greve, pegamos a carteira do INAMPS de uma prima e procuramos atendimento no hospital da polícia. Tive hemorragia durante a noite e delírios.

Por pressão da médica de plantão, relatei os acontecimentos e fui “intimada” a abandonar imediatamente aquele hospital. Minha irmã levou-me para outro hospital da cidade num estado de risco de morte. Não houve outras intervenções, senão, a realização da curetagem.

Passado anos, ainda sem preparo emocional, cometi um deslize que considero inconsequente e lá me vi decidida à realização de outro aborto. O fiz com consciência, porém correndo todos os riscos inerentes ao primeiro. Não trago arrependimentos desse ato. Mas reporto-me a levantar alguns questionamentos. Já não era mais uma menina ingênua, meu parceiro era uma pessoa experiente, porém em determinados momentos acreditamos que isto não irá acontecer conosco.

Minha residência, posteriormente, foi palco de acolhimento para muitas mulheres que fizeram abortos e que por motivos de ordem familiar, não podiam partilhar com os seus familiares, suas necessidades e seus sofrimentos. Eram estudantes universitárias ou não, com namorados ou não, mas eram mulheres ativas, sujeitas de suas vidas, com dramas particulares diferentes e tão semelhantes.

Todas as mulheres têm histórias de vidas semelhantes e particulares, mas na sociedade, estas questões não são debatidas. Nossas famílias são bombardeadas por conceitos que em muitos casos são antagônicos as suas existências. Mas como dar conta destas dimensões? A problemática da legalização do aborto se dá por uma série de questões que muitas vezes se distanciam de nossas percepções.

Defendo a legalidade do aborto como uma questão social e política. Não compreendo que, com o fato do aborto ser legalizado em nosso país, esteja-se abrindo portas para as mulheres, de maneira indiscriminada, realizarem a prática do aborto. Mas, a necessidade de políticas públicas que remetam à sociedade a encarar este debate, sem subterfúgios. Quanto às questões religiosas que estas dêem conta de realizar uma discussão apurada, sem hipocrisia, como atualmente vemos na maioria das vezes.

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