A imersão de Mário de Andrade no RN será debatido nesta quarta-feira

“Cultura e Redes: de Mário de Andrade a Felipe Camarão”. Este é o tema escolhido para o Conexão Brasil 2016, evento promovido pelo projeto Conexão Felipe Camarão no mês de novembro, mas que no segundo semestre realiza ações pontuais. Com o patrocínio da Cosern, através da Lei Câmara Cascudo, aconteceu nesta terça-feira (30) a primeira ação do Conexão Brasil, quando os meninos e meninas do Orquestrim e do Boi de Reis irão receberam, no Aeroporto Internacional Aluízio Alves, o ator Pascoal da Conceição, que veio de São Paulo caracterizado de Mário de Andrade.

Nesta quarta-feira (31) será realizada a roda de prosa “O retorno do Turista Aprendiz”, evento que tem nome alusivo ao livro publicado sobre as cartas do poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista e ensaísta brasileiro Mário de Andrade em andanças pelo Brasil e, particularmente, pelo Rio Grande do Norte.

Quando Mário de Andrade escreveu “Dois poemas acreanos”, em 1925, o mais longe que tinha ido de São Paulo era Minas Gerais. Nos anos seguintes, Mário colocou em prática esse desejo de ampliação de horizontes, em duas longas viagens. Na primeira, de maio a agosto de 1927, seguiu “pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia, por Marajó até dizer chega”, como escreveu na época. Na segunda, de novembro de 1928 a fevereiro de 1929, passou por Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba com um foco mais específico: a pesquisa das culturas populares.

Nessas viagens, refletiu sobre o que via em diários, rabiscos apressados e crônicas para jornais. Essas notas só foram publicadas em conjunto 31 anos depois da morte do escritor, no livro “O turista aprendiz” (1976), organizado pela professora e pesquisadora Telê Ancona Lopez, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da USP. “A imersão na singularidade do Brasil mudou Mário de Andrade, fecundou a criação do artista e os projetos do etnógrafo, do musicólogo, do historiador da arte, do defensor do nosso patrimônio material e imaterial”, diz Telê Lopez.

O Projeto Conexão Felipe Camarão também recebe o patrocínio da Petrobras, através da Lei Rouanet.

RODA DE PROSA “O RETORNO DO TURISTA APRENDIZ” DEBATE ATUALIDADE DE MÁRIO
A imersão de Mário no Brasil é registrada em passagens memoráveis de “O turista aprendiz”. Uma das mais célebres é o relato de seu encontro com o cantador de coco Chico Antônio, em janeiro de 1929, em um engenho nos arredores de Natal (RN). Ouvi-lo foi “uma das comoções mais formidáveis da minha vida”, escreveu Mário. O talento do cantador aguçou nele a ideia de mescla entre as culturas erudita e popular. Quando Chico Antônio canta, “não se sabe mais se é música, se é esporte, se é heroísmo”, escreve Mário, que o compara a “uma dúzia de Carusos”.

Nesta quarta-feira, a partir das 14h, acontece a Roda de Prosa “O retorno do Turista Aprendiz”, com as participações de Glauce Gouveia, da FUNDAJ, do ator Pascoal da Conceição, professores das escolas públicas da comunidade de Felipe Camarão e convidados. Um ator caracterizado de Câmara Cascudo irá conversar com o ator que interpreta Mário de Andrade. Crianças das escolas públicas de Felipe Camarão irão aprender e saber sobre a relação dos dois através das encenações.

“Lendo o livro descobrimos que Mário de Andrade apostava numa ideia de Brasil como unidade composta de diversidades. Ele pensa a cultura nacional levando em consideração a contribuição de diversos setores da sociedade, não incorporando só aquilo que tradicionalmente se entendia por cultura erudita. Há algumas limitações, como reduzir a compreensão de cultura popular ao folclore. Mas preocupações dele continuam atuais e têm que ser discutidas. Por isso vamos fazê-lo”, justifica Vera Santana, Coordenadora Geral do Conexão Felipe Camarão.

TRECHOS DE ‘O TURISTA APRENDIZ’

Natal, 1929
Estou divinizado por uma das comoções mais formidáveis da minha vida. Chico Antônio apesar de orgulhoso: “Ai, Chico Antônio/ Quando canta/ Istremece/ Esse lugá!” Não sabe que vale uma dúzia de Carusos. Vem da terra, canta por cantar, por uma cachaça, por coisa nenhuma e passa uma noite cantando sem parada. Já são 23 horas e desde as 19 que canta. Os cocos se sucedem tirados pela voz firme dele. Às vezes o coro não consegue responder na hora o refrão curto. Chico Antônio pega o fio da embolada, passa pitos no pessoal e “vira o coco”.

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