A impossibilidade das palavras

Ficção e não ficção de Rodolfo Walsh

RESUMO

Vida e obra de Rodolfo Walsh (1927-77) se misturam à conturbada história argentina no séc. 20, do peronismo direitista dos anos 50 ao kirchnerismo peronista de hoje, passando pela esquerda que reivindicava a herança de Perón nos anos 70. Inventor do novo jornalismo, o autor tem reportagem e livro de contos lançados no Brasil.

DAMIÁN TABAROVSKY
tradução PAULO WERNECK
NA FSP

É UMA SORTE ESCREVER sobre Rodolfo Walsh no Brasil, porque na Argentina isso já não é mais possível. Ou quase.

É tanta e tão espantosa a tinta derramada sobre sua vida, a sucessão de lugares-comuns vertidos em seu nome, os recentes atos governamentais (com suas iniciais, inauguram-se praças e bibliotecas, centros culturais e bolsas universitárias), que não seria um exagero perguntar se este “revival” não esconde alguma outra coisa, se não é um sintoma de algo que vai além do manifesto.

Repassemos alguns dados, para ajudar a compreensão: em 25 de março de 1977, um ano e um dia depois do último golpe militar, o mais sangrento da história argentina, com milhares de mortos sob a forma do desaparecimento, e outros tantos enviados ao exílio; pois então, exatamente um ano e um dia depois do golpe, Walsh encontrava-se numa esquina do centro de Buenos Aires quando foi interceptado por um grupo de “tareas” (comandos militares) dos serviços de inteligência, que lhe deram ordem de se entregar.

Resistiu com a arma que carregava, foi gravemente ferido e logo depois assassinado. Mas antes, um dia antes, agora sim, no dia do aniversário do primeiro ano do golpe de Estado, na clandestinidade, Walsh escreveu a “Carta Aberta de um Escritor à Junta Militar”, em que denunciava a tortura, o assassinato em massa e o terror social. Foi seu último texto.

OPORTUNISMO

Com os anos, sua figura se converteu na de um mártir, um herói, um mito, situação aumentada pelo clima cultural que cobre a Argentina de hoje, de certa reivindicação da militância e do compromisso político dos anos 70, contexto que inclui o próprio governo do casal Kirchner (que conta em suas fileiras mais de um ex-militante revolucionário daqueles anos), ainda que, é claro, como em tantos outros aspectos, essa reivindicação setentista não esteja isenta de uma leve frivolidade e de muito oportunismo político.

Repassemos agora outros dados, um deles talvez menos conhecido. Um diálogo de 1972, publicado no jornal portenho “La Opinión”, em que Walsh declara sua insatisfação com a literatura, questiona a própria prática da escrita -em última instância, a literatura sempre é pequeno-burguesa- e convoca à passagem para a ação revolucionária como única saída possível. A ação revolucionária é uma forma de chamar à luta armada, e a luta armada para Walsh tem um nome: Montoneros.

Herdeiros de um movimento católico, antissemita e de extrema direita dos anos 60, no final dessa década seus líderes viraram à extrema esquerda peronista, sustentada pelo próprio Perón (do exílio em que se encontra desde 1955). No começo dos anos 70, os Montoneros são o principal grupo insurgente, com imenso apoio das massas (um dos mais importantes movimentos revolucionários de massa da América Latina), em especial entre os jovens.

SEGREDO

Naquele momento, Walsh não é um jovem. Nascido em 1927, ocupa-se de inquietantes tarefas de inteligência nos Montoneros. É o mesmo Walsh que, entre 1944 e 1945, tinha aderido à Alianza Libertadora Argentina, grupo profundamente revolucionário, quase neonazista. Muito, muitíssimo havia mudado em sua vida e na do país, mas talvez seu gosto pela informação precisa, pela infiltração, pela inteligência e a contrainteligência, pela conspiração como método político, pelo segredo como ética última.

Agora, para terminar com esse retrospecto, acrescentemos um último dado: durante o peronismo histórico (1946-55), Walsh permanece um percurso típico: proveniente de uma família de classe média “gorila” (antiperonista), apoia o golpe militar contra Perón de 1955. Mas, imediatamente depois, como boa parte da juventude de então, padece a brutalidade (política e cultural) das sucessivas ditaduras e governos civis neodemocráticos (chegavam ao poder com o peronismo proscrito) e vai rumo ao peronismo.

Porque enquanto o peronismo “real” dos anos 40 se baseava no apoio da classe operária, o peronismo “imaginário” dos anos 60 (o peronismo de Perón no exílio) se apoia nos jovens de classe média, que se afirmam “resistência peronista”. Este é o núcleo que, dez anos depois, na década de 70, vai gerar as condições para a volta de Perón ao poder (em 1973, após 18 anos de exílio) para integrar-se a um peronismo revolucionário, palavras que naquele momento faziam muito sentido, mas hoje não passam de um oxímoro.

MARTIRIZAÇÃO

O que se depreende dos 4.281 caracteres com espaços que escrevi até agora? Que a história de Walsh é muito complexa -como é a história política argentina- e que nada de interessante pode surgir desse processo de endeusamento, de martirização de sua figura, que provém do poder (político e acadêmico). Se queremos entender uma faceta crucial da literatura e da história argentina, é preciso pensar em Walsh a fundo, criticamente. Além -ou ainda mais- contra seu mito.

Mas agora estamos em 1957, apenas dois anos depois do golpe militar contra Perón, em plena gestação da resistência peronista, dos jovens de classe média que se tornam peronistas de esquerda com Perón no exílio. Nesse ano, nesse contexto, aparece “Operação Massacre” [trad. Hugo Mader, Companhia das Letras, 288 págs., R$ 46], sem dúvida o melhor livro de Walsh. É o livro que inventou o novo jornalismo dez anos antes que fosse inventado, que criou a não ficção quando a não ficção não existia, que fundou o jornalismo investigativo muito antes que o jornalismo investigativo se tornasse ferramenta de marketing.

A história da origem do livro é: num bar, por acaso, Walsh fica sabendo que “um dos fuzilados continua vivo”. Que fuzilados? Os militares peronistas que, num lixão nos arredores de Buenos Aires, foram fuzilados pela ditadura, quase que secretamente. E então se lança numa impecável investigação em que descobre que não há um sobrevivente, mas sete.

Com os relatos deles, vai reconstruindo a cena do fuzilamento, com precisão de relojoeiro e estilo de literato. Com “Operação Massacre”, Walsh nos lembra que se pode perfeitamente escrever um livro de denúncia em grande prosa. Nada foi igual para o jornalismo investigativo latino-americano depois de seu livro.

CONTOS

Mas, ao mesmo tempo, Walsh escreveu contos. Houve um tempo em que se sonhou escritor (ah, a pequeno-burguesia…!). É o aspecto de sua obra menos frequentado, talvez porque não tenha sido um grande escritor. Mesmo assim, escreveu mais de um bom conto, mais de um texto aceitável. Isso é pouco? Se olhamos com atenção as novidades do mercado editorial, é fácil comprovar que… é muitíssimo!

Seu conto mais famoso é “Essa Mulher”, escrito em 1963, onde trata elipticamente de Evita, do corpo morto (e embalsamado) da “Porta-bandeira dos humildes”. O conto está em “Essa Mulher e Outros Contos” [trad. Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni, Editora 34, 256 págs., R$ 39].

Num relato, um coronel menciona que viu esse corpo, o corpo de “essa mulher”, mas nunca a nomeia explicitamente. Como uma metáfora alucinatória e antecipatória, o nome de Evita (que é quase o nome do peronismo) aparece como um significante vazio, impossível de preencher.

Melhor dizendo, a ser preenchido com interpretações diversas e contraditórias. E se o conto é antecipatório, é porque em nome do peronismo se abrigaram as mais diversas e antagônicas linhas políticas argentinas: de 1946 até agora, conhecemos o peronismo original, o peronismo fascista, o peronismo marxista, o peronismo social-democrata, o peronismo neoliberal, o peronismo progressista, o peronismo católico, o peronismo que aprova a lei do casamento gay, o peronismo proibido e o militar.

E nos anos 70 essas tensões (entre o peronismo de extrema direita e o dos Montoneros) se resolviam com atentados, bombas e mortos. Entre outras coisas, o que Walsh vem dizer é que “essa mulher” é impossível de nomear. Além disso, que “essa mulher” -e sobretudo o cadáver de Essa Mulher- foi maltratada, torturada, insultada e profanada.

Uma profunda e terrível política do nome próprio se encerra no conto de Walsh: se o peronismo é impossível de ser compreendido, é porque antes é impossível de nomear. Algo sinistro ocorreu com o corpo morto de Evita -e muito depois com o do próprio Walsh-, mas as palavras não bastam para narrá-lo. A literatura de Walsh é a escrita dessa impossibilidade.

Sua figura se converteu na de um mártir, um herói, um mito, situação aumentada pelo clima cultural da Argentina de hoje, de certa reivindicação da militância e do compromisso político dos anos 70

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