A imprensa “é nois”, boy!

Por Beto Leite
NA REVISTA CATORZE

Essas ultimas semanas têm sido históricas para Natal. Já foram duas passeatas pedindo o impeachment da prefeita Micarla de Sousa. Mas existe algo de diferente nesses protestos comparado com outros da história da nossa cidade e do país: o uso das redes sociais. O que para alguns seria mais uma ferramenta de interação social para “jogar conversa fora”, Twitter, Facebook e Orkut vêm sendo usados como principal ferramenta de mobilização dos protestos. Fato que está mudando o comportamento da juventude e provocando fissuras na credibilidade de grandes veículos de imprensa.

Vejam só, eu recebi um convite via facebook para participar da manifestação realizada no dia 25 de maio, em frente ao shopping Midway (http://www.facebook.com/event.php?eid=213491732006503), dois dias antes de acontecer. Pouco menos de 500 pessoas haviam confirmado presença, em apenas 48 horas o número pulou para mais de 2 mil. Mas quem é o líder disso tudo? Qual partido está por trás? Que político está bancando? Talvez você não encontre respostas porque as perguntas estão erradas. O formato de algumas redes sociais, e principalmente o a forma como são usadas provocam uma horizontalização da organização. Afinal, qualquer coisa só vai ganhar grande proporção se for “curtido” ou “retwittado” por um grande número de pessoas. Qualquer assunto só vai pra frente se eu indicar aos meus amigos, se eles inçarem aos deles e por ai vai. Esse comportamento barateia muito os custos de uma divulgação. Nos dois protestos cada um levou seu cartaz de casa, se encontram em um lugar combinado e tomaram as ruas. Não é mais necessário um financiamento para mobilizar os jovens, basta apenas uma causa simpática as idéias deles. E assim o movimento parece vir se organizando, de maneira apartidária, com inúmeras insatisfações, até na esfera estadual, mas com um foco comum: a deposição da prefeita de Natal.

O comportamento da imprensa local, em meio as manifestações, é um tanto paranóico. Não é segredo para ninguém que os grandes veículos de comunicação do Rio Grande do Norte (seja impresso, rádio ou televisão) são propriedade de grupos políticos que se revezam no poder a séculos. Por tanto, não é surpresa (pelo menos para mim que sou jornalista) que eles sejam tendenciosos aos seus interesses. Mas até que ponto isso ainda vai funcionar? No protesto do dia 25, a grande imprensa deu um “show” de números, quando o assunto era a quantidade de pessoas: dependendo do veículo a variação foi de 200 a 2 mil. Mas qual a validade disso quando o protesto está sendo transmitido ao vivo? Quando os próprios manifestantes e transeuntes estão munidos de aparelhos que podem tanto registra o ocorrido como enviá-lo para rede mundial de computadores?

Ao mesmo tempo em que algumas notícias parecem diminuir o ocorrido, ditos “colunistas políticos” plantavam boatos infundados sobre possíveis brigas na manifestação do dia 1 de junho. Essa oscilação de importância dada aos eventos mostra que a imprensa local não sabe lidar com um protesto que não tem a cara de um líder e sim uma hashtag. A coisa complica quando os próprios cidadãos têm o poder de noticiar alguma coisa para seus amigos, que em sequência podem fazer isso se propagar.

É verdade que a internet não têm o mesma alcance de meios como a televisão. Mas sem dúvida é o veiculo mais promissor e já possui um peso considerável. De acordo com o IBGE 41,7% da população brasileira têm acesso a internet. Dos usuários 80% usa alguma rede social (segundo a Nielsen), tudo isso em 2009. A forma como isso vêm se expandindo no mundo aponta como essa relação com a notícia vai se modificar. Hoje no Estados Unidos 32% da informação local consumida vêm de redes sociais como o Facebook e Orkut. Seguidos por blogs, com 19%, mensagens por telefone celular, 12%, e as micro-mensagens do Twitter, com 7%. Restando apenas 30% distribuídos entre os veículos da imprensa convencional, de acordo com institutos Monitor e Pew Internet.

A juventude que iniciou a série de manifestações é de classe média e deve ter livre acesso a internet em suas residências. Mas isso não desqualifica a movimentação. No Egito os protestos eram arquitetados na internet por estudantes e ganhavam apoio da população nas ruas. É isso que vêm acontecendo por aqui. A grande maioria das pessoas que estão nas ruas aplaude e se mostra favorável ao movimento. Resta saber se aqui ele vai conseguir aderir às classes mais baixas.

Não podemos também ser completamente progressista com relação à internet. Ela têm um forte poder de alienação, uma capacidade de desviar o foco de assuntos importantes para outros superficiais. No entanto, por mais pesquisa que se faça é difícil definir com precisão quais vão ser os seus rumos e conseqüentemente a influência na sociedade. Tudo depende da forma como ela vai ser usada. Mas vamos acompanhar essa geração que não descola da frente do computador e que está se politizando em uma via contrária ao funcionamento do sistema.

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