A imprensa que combateu a ditadura no Brasil

Por Denise Gomide
NA REVISTA FÓRUM

Projeto “Resistir é preciso…” resgata a trajetória de veículos de comunicação e de jornalistas que lutaram contra o regime militar no Brasil. Confira o depoimento de alguns dos protagonistas dessa luta

Afinal, por que tantas pessoas foram presas, torturadas e mortas durante a ditadura no Brasil? Qual é a verdadeira história dessa história? Para contá-la, ninguém melhor que os próprios protagonistas que lutaram contra esse sistema, inclusive quando este tentou silenciá-los. Com esse foco específico e após um ano e meio de trabalho intenso, foi lançada a primeira etapa do projeto do Instituto Vladimir Herzog “Resistir é preciso…”, que resgata “a trajetória da imprensa brasileira que combateu e resistiu à ditadura militar na clandestinidade, no exílio e, como alternativa, nas bancas”. O evento se deu em 27 de junho, no Memorial da Resistência, em São Paulo. A data não foi escolhida a esmo: marcou os 2 anos de existência do Instituto e também é a data em que Vlado, como era conhecido o jornalista Vladimir Herzog – assassinado em 1975, durante a ditadura, sob tortura –, celebraria seus 74 anos.

De acordo com o jornalista Ricardo Carvalho, editor de conteúdo do projeto, “Resistir é preciso…” será implementado em várias etapas: a primeira, é o lançamento de 12 DVDs com trechos escolhidos de 106 horas de depoimentos, de 60 protagonistas da história de jornais alternativos, clandestinos, feitos tanto no Brasil como no exterior, no exílio. Esse material foi recolhido durante 34 anos pelo pesquisador José Luis Del Roio, coordenador de contexto histórico do projeto e responsável pela organização do maior acervo de impren­sa alternativa disponível no arquivo do Centro de Documentação e Memória (Cedem) da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Clarice Herzog e Ivo Herzog são responsáveis pela coordenação geral e Vladimir Sacchetta, pela de pesquisa. O apoio é da Petrobras.

“Não há nenhum projeto de resgate de memória a partir do olhar de pessoas que fizeram e distribuíram jornais, como gráficos, jornalistas, militantes, enfim, todo o tipo de gente que trabalhou em jornais alternativos, clandestinos”, afirma Carvalho. Conforme ele, os próximos passos do projeto são fazer dez documentários para TV, e um livro com mais de 200 páginas, principalmente ilustrativo, dos jornais mais significativos, com destaque para os periódicos Opinião (1972-1977), Movimento (1975-1981) e O Pasquim (1969-1988) – a “trinca de ases da imprensa alternativa pós-golpe” conforme Carvalho –, que marcaram a resistência ao regime militar.

Fórum ouviu alguns dos protagonistas de “Resistir é preciso…”. Eles discorreram sobre os mais significativos períodos por que passaram durante o regime militar, no exercício de um jornalismo de denúncia e resistência.

Exílio voluntário

Após a curta, mas intensa, experiência em Veja, no final da década de 1960, Bernardo Kucinski, jornalista, professor de Jornalismo aposentado e autor de diversos livros – atualmente ficcionista –, saiu do Brasil por livre vontade, quando sua equipe na revista, liderada por Raimundo Pereira e com o apoio de Mino Carta, publicou as duas capas denunciando torturas no Brasil. “A reação do governo a essas capas tornou nossa permanência em Veja difícil, e o grupo se dispersou; como minha mulher precisava fazer seu doutorado na Inglaterra, decidimos partir.” E o “exílio voluntário” se prolongou por quase quatro anos.

Alguns meses antes de partir, a pedido do jornalista Luiz Eduardo Merlino, que tinha ligações com a editora francesa Maspero, Kucinski escreveu, com o jornalista Ítalo Tronca e a ajuda de outros companheiros, um livro denunciando as torturas no Brasil. “Eu e minha mulher levamos o manuscrito, que entreguei ao Merlino em Paris. O livro foi publicado obviamente sem indicação de autoria, com o titulo Pau de Arara, a violência Militar no Brasil. Merlino, posteriormente, foi assassinado numa prisão brasileira”, relembra. “Apenas lamento que Luiz Merlino seja pouco lembrado nos trabalhos sobre a repressão política durante a ditadura Foi um jornalista talentoso e dotado de estilo apurado, com vasta bagagem cultural e política, que abdicou de uma carreira convencional na imprensa para combater a ditadura.”

Em Londres, Kucinski trabalhou principalmente na BBC, Serviço Brasileiro, e para a newsletter Latin América Political Report, que na época divulgava informações quentes sobre os acontecimentos no Brasil, Argentina e Uruguai. Também colaborou com outras publicações, como a Index on Censorship, que expôs a censura à imprensa no Brasil. “Ainda em Londres, por meio de Fernando Gasparian, que foi para lá depois do assassinato de Rubens Paiva, ajudei a criar o semanário Opinião, do qual me tornei correspondente”, destaca.

Quando retornou ao Brasil, Kucinski foi para a redação da Gazeta Mercantil, da qual era correspondente no seu último ano em Londres, mas logo saiu para participar da fundação do Movimento. “Foi um período difícil, em que se deu o desaparecimento de minha irmã e de seu marido, militantes da ALN [Ação Libertadora Nacional]. Após o racha no Movimento, participei da fundação do Em Tempo, do qual fui o primeiro editor. A partir de 1978 me aproximei do PT, ajudando a fundar o Jornal dos Trabalhadores e posteriormente editando o Boletim Nacional do partido.”

Um casal no exílio

Resistir e denunciar os “atos” do regime militar levou o casal Beatriz (Bia) e Paulo Cannabrava a passarem 12 anos no exílio. Ela, então dentista formada pela USP e dedicada à música. Ele, jornalista, trabalhava em veículos da grande imprensa. “Quando a ditadura cívico-militar tornou insustentável seguir como repórter político no Correio da Manhã, fui para a Folha de S. Paulo nas mesmas funções, até que assumi como editor. Paralelamente, eu era diretor de redação da Rádio Marconi”, conta.

De acordo com Paulo, de 1964 a 1968 foram anos bastante conturbados politicamente e em duas frentes: o combate à ditadura e a luta interna no PCB, que culminou com o rompimento do grupo liderado por Carlos Marighella. “A partir dai minha permanência no Brasil tornou-se insustentável e temerária, e o próprio Marighella providenciou a nossa retirada, minha e da família, a Bia e nossos dois filhos.”

Assim, em 1968, o casal foi para Cuba. Paulo foi trabalhar na Rádio Havana e Bia, sob o pseudônimo de Marina Pérez, na Casa de las Américas, cantando e fazendo pesquisa musical, e na Faculdade de Odontologia, como assistente de Odontopediatria. “Voltei para o Brasil em 1969, com os filhos, pois necessitava de uma cirurgia. Paulo voltou depois. Quando vimos que depois da morte do Marighella a situação estava insustentável, o Paulo saiu novamente e fui me encontrar com ele em Buenos Aires. Os filhos ficaram com os avós”, recorda Bia. “Daí fomos para a Bolívia, onde ficamos até o golpe contra o governo Torres, em 1971. Lá, trabalhei dando aulas de música e cantando em peñas folclóricas. Paulo, trabalhando no diário El Nacional e como correspondente da France Press. Da Bolívia, conseguimos ir para o Peru, onde ficamos cinco anos. Não consegui revalidar meu diploma de cirurgiã-dentista, e continuei dando aulas de música e cantando, principalmente em eventos políticos e sindicais.”

Bia também de­nunciava as truculências da ditadura no Brasil cantando e trabalhando nos Comitês de Solidariedade. Conforme ela, os comitês eram amplos e contavam tanto com integrantes do governo como com “um grupinho de radicais, que mais tarde cresceu muito e se transformou no Sendero Luminoso – mas que, na época, ainda não se chamavam assim”. “Também aproveitei todas as minhas apresentações em sindicatos, peñas, recitais etc., para denunciar do que acontecia aqui e, depois, em outros países da América Latina.” Além disso, teve uma coluna semanal no diário Expresso, que se chamava “Siete notas para una canción”, onde publicava uma música com letra, notação musical, acordes para violão e a história ou o seu contexto. Eu continuei esse trabalho no Panamá. A revista mensal Diálogo Social publicava a mesma coisa na contracapa, só que com outro nome: “América canta así”.

Em 1977, no Peru, com a queda do governo de Velasco Alvarado, o casal rememoraque fugiu novamente, diante da ameaça de serem entregues aos militares brasileiros. Sob a proteção do general Omar Torrijos, foram para o Panamá, onde Paulo montou e dirigiu a agência Interpress Service, além de fazer parte da assessoria de comunicação da Comissão de Negociação dos novos tratados sobre o Canal do Panamá.

“Em 12 anos de exílio, exerci um jornalismo de combate, nunca perdendo oportunidades de denunciar as permanentes violações aos direitos humanos praticadas pelo governo brasileiro. Governo que tampouco deixou de me perseguir, já que em cada país por onde passamos, a embaixada pedia ao governo que me extraditasse, e deixava claro que não estavam satisfeitos com minha presença. Além disso, a partir do início da década de 1970, havia também a Operação Condor”, destaca Paulo, que de 1975 até 2005 integrou a equipe dos Cadernos do Terceiro Mundo, publicação que circulava com uma edição em espanhol e outra, em português, pelos países da América Latina, África, Portugal e clandestinamente também no Brasil, “até que a anistia permitiu o retorno e o lançamento da revista também aqui”. Desde então, tem elaborado projetos de comunicação social e de pesquisa histórica, é sócio fundador e membro da diretoria da Associação Brasileira da Propriedade Intelectual dos Jornalistas e da diretoria do Espaço Cultural Diálogos do Sul, além de diretor da Nova Sociedade Comunicação, empresa de consultoria em projetos de comunicação social e culturais.

“Em todos esses países, mantive Marina como nome artístico. Ao voltar, recuperei a minha ‘verdadeira personalidade’”, afirma Bia, que desde então passou a trabalhar como educadora social, e é hoje tradutora juramentada de espanhol, sendo uma das fundadoras e responsável legal pela Rede Mulher de Educação; membro do Conselho Consultivo Permanente da Rede de Educação Popular entre Mulheres da América Latina e do Caribe, além de diretora adjunta da Associação Mulheres pela Paz.

A resistência no Brasil

O jornalista e escritor Audálio Dantas participou, por diversos meios, da resistência à ditadura militar no próprio Brasil. “O principal foi no exercício da presidência do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo [1975-1978], quando do assassinato de Vladimir Herzog no DOI-Codi do II Exército. Foi do sindicato que partiu a denúncia e a responsabilização das autoridades militares pela morte de Vlado, o que levou à mobilização que atingiu amplos setores da sociedade civil”, salienta Dantas, que também é ex-presidente da Federação Nacional do Jornalistas – Fenaj (1983/1986) e hoje integra a vice-presidência União Brasileira de Escritores (UBE). “Após o culto ecumênico em memória de Vlado, organizado pelo sindicato, os movimentos de resistência cresceram, levando posteriormente à queda da ditadura. A morte de Vlado foi a gota d`água.”

A atividade jornalística que manteve durante o regime foi na redação da que ele considera a principal revista de reportagens da época, a Realidade, e em jornais como o Movimento, do qual integrou o Conselho Editorial, ao lado de outras pessoas “com atuação marcante na luta democrática, como Fernando Henrique Cardoso, Chico Buarque, Elifas Andreato, Orlando Villas Bôas”.

Como deputado federal por São Paulo (1979-1983), Dantas relata que seu mandato foi marcado pela luta contra a censura e a violência da ditadura militar, as prisões ilegais, a tortura, o assassinato de opositores do regime e, de modo intenso, pela Anistia. “Propus, no MDB, criar a Comissão de Apoio aos exilados que voltavam ao País desde o início de 1979, muitos dos quais eram apanhados pela Polícia Federal ao desembarcarem”, acrescenta. “Participei, ao lado de líderes da oposição – entre os quais Teotônio Vilela, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves –, da organização do movimento das Diretas Já, em 1983, responsável pelo primeiro grande comício que reuniu 300 mil pessoas na praça da Sé [SP], em janeiro de 1984, e de outros que se realizaram depois, com a participação cada vez maior da população.”

Carlos Alberto de Azevedo, jornalista e escritor, foi repórter em A Hora, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Diário da Noite,nas revistas O Cruzeiro, 4 Rodas, Realidade, entre outros veículos, até 1968. “Em seguida, participei do movimento de resistência à ditadura, colaborando em jornais clandestinos como Libertação e Classe Operária e em livros clandestinos como o Livro Negro da Ditadura Militar [1970], Política de Genocídio contra os índios do Brasil [1973]”, informa.

Em 1967, quando era repórter de Realidade, passou a militar na organização política Ação Popular (AP). “Passei a colaborar com a AP como jornalista, escrevendo artigos e jornais de denúncia da ditadura. Com o agravamento da repressão, saí de Realidade e, aos poucos, fui passando à clandestinidade, para poder prosseguir no trabalho de jornalismo sem censura.” Perseguido pelos órgãos de repressão, viveu e trabalhou cerca de dez anos na clandestinidade a partir de 1968, elaborando jornais e outros materiais de mobilização popular e de denúncia dos crimes e exploração da ditadura militar. “Com minha mulher e três filhos, vivi na clandestinidade de 1969 a 1979, ano da anistia. Ao longo desses anos, morávamos em casas simples em bairros populares, em Osasco, São Bernardo do Campo e Campinas. Por acaso, não fomos presos”, diz e avalia Azevedo, que também foi, entre 1975 e 1979, colaborador do jornal Movimento.

Alguns meses antes da anistia, em maio de 1979, voltou à vida “legal”. “Com apoio de Raimundo Pereira, diretor do jornal Movimento, tornei pública minha colaboração no jornal, passei a assinar as matérias com meu próprio nome. Pouco depois, participei da equipe que preparou e lançou o jornal ‘Tribuna da Luta Operária’, jornal legal do PCdoB.”

Para Azevedo, a imprensa alternativa e a imprensa clandestina foram fruto da resistência popular contra a ditadura militar, “sustentada pelo grande empresariado brasileiro e sob o comando da política imperial dos Estados Unidos. Foram um instrumento fundamental da luta pela democratização do país”. Após a anistia, trabalhou no Globo Rural (TV Globo), na TV Cultura; fez programas políticos de TV para o PCdoB entre 1989-98; foi editor-chefe das campanhas de TV de Lula à presidência da República em 1989 e 1994. Escreveu os livros Do tear ao computador, a luta pela industrialização no Brasil (três edições, 1986/88/89); Cicatriz de Reportagem (2007). Participou da elaboração dos livros Brasil, Direitos Humanos (2008) e Habeas Corpus – que se apresente o corpo (2010), para a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Ações e imprensa feministas

“Trabalhei na Folha de S. Paulo e oito anos no Estadão, do qual fui afastada por ter liderado uma greve, mesmo estando grávida e sendo diretora do sindicato. Na ocasião, eu também era editora contribuinte no jornal Movimento”, relata Adélia Borges, jornalista, curadora especializada em design e professora de História do Design na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) – cuja história de militância teve início nos movimentos estudantil e sindical.

No segundo semestre de 1976, coordenou uma equipe para preparar uma edição especial do Movimento dedicada ao trabalho da mulher no Brasil, que contou com artigos de intelectuais como Paul Singer e Chico de Oliveira. “O material foi censurado em cerca de 95%, inclusive os gráficos feitos com base em estatísticas fornecidas pelo IBGE. Os 5% restantes foram publicados como matéria na edição de 27 de dezembro de 1976 do jornal.”

Demitida do Estadão, as portas se fecharam, para ela, e Adélia passou a integrar uma lista das empresas jornalísticas de pessoas inconvenientes por sua militância sindical. “Com 31 anos, dois filhos pequenos para criar e separada, gostei muito do convite da Fundação Carlos Chagas. Pude fazer uma conexão até então inexistente entre a minha vida e a minha profissão.”

Dessa forma, nasceu o Mulherio, no início de 1981, quando, no âmbito acadêmico, pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas envolvidas com o estudo da condição feminina no Brasil preocuparam-se em sistematizar informações sobre o assunto. De acordo com Adélia, no início, a proposta era compor um boletim de notícias que fizesse o intercâmbio entre as diversas instituições e estudiosos do tema, que forneceriam dados de forma sistemática e abrangente sobre os problemas que envolviam a mulher brasileira. O projeto, financiado pela Fundação Ford, teve como responsável a pesquisadora Fúlvia Rosenberg. “Pela experiência na grande imprensa e minha atuação como jornalista, sugeri fazer um jornal, para ampliar o espectro”, diz Adélia, a primeira editora-chefe de Mulherio.

“Na imprensa, aparecíamos de uma maneira dual: nuas, nas revistas masculinas; de avental, nas revistas femininas e nas seções de jornais dedicadas às mulheres; nas publicações “sérias”, nas editorias importantes, éramos invisíveis, havia um limbo. Nossos interesses, na visão dos editores, se limitavam às receitas e às dicas de beleza.” Mas aqui e ali, diz Adélia, começavam a aparecer matérias nos jornais. “E sonhamos que poderíamos servir de orientação e manancial informativo para os meios de comunicação.”

Assim, formou um conselho editorial “fantástico”, composto por reconhecidas acadêmicas, feministas e jornalistas, como Carmen da Silva, Elizabeth Souza Lobo, Eva Alterman Blay, Fúlvia Rosemberg, Heleieth Saffioti, Lélia Gonzalez, Maria Carneiro da Cunha, Maria Moraes, Maria Rita Kehl, entre outras. “Foi uma experiência muito boa, que a meu ver contribuiu para levantar a questão da situação da mulher no Brasil.”

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