A inglesa e o espírito do mal

Por Antonio Gonçalves Filho
Estadão

Hilary Mantel, premiada com o Man Booker Prize, fala de Além da Escuridão, livro sobre uma médium

Vencedora do Man Booker Prize 2009, o prestigiado prêmio literário inglês que já destacou autores como Ian McEwan e J. M. Coetzee, a escritora inglesa Hilary Mantel é conhecida no Brasil por um volumoso romance histórico sobre a Revolução Francesa, A Sombra da Guilhotina, lançado pela Record no ano passado. Ela está de volta este ano não com o livro que ganhou o Booker Prize, Wolf Hall, mas com um outro romance para o qual teve de aprender tarô e que a obrigou a buscar no próprio passado a memória de uma terrível experiência de infância quando, aos 7 anos, viu o demônio no jardim de sua casa.

Sobre esse incidente e seu livro, Além da Escuridão (Bertrand Brasil, 420 páginas, R$ 45), Hilary Mantel falou ao Estado, por telefone, de sua casa em Londres. O livro, uma obra-prima de humor negro, conta o ajuste de contas de uma clarividente de meia-idade com seu passado. Alison e sua assistente Colette fazem da mediunidade um show de espiritualidade em pequenas cidades do interior da Inglaterra, sempre seguidas de perto pelo espírito de um canalha chamado Morris.

O baixo espírito tem algo da enigmática figura que Hilary Mantel viu na infância – com a desvantagem de não aparecer sozinho, mas vir acompanhado de uma legião de almas perdidas dispostas a cruzar o caminho da infeliz Alison justamente quando esta faz o balanço de sua vida. Este é o nono romance da autora, que precedeu o lançamento do premiado Wolf Hall em 2009.

ENTREVISTA

Em seu livro Além da Escuridão é possível apostar que a sensitiva Alison está falando por você, considerando suas experiências místicas na infância, em especial uma delas, quando topou com o demônio em seu jardim. Como foi esse encontro?
Não sei como descrever. Tinha 7 anos e estava brincando no jardim de minha casa quando me senti atraída por alguma coisa que se movia, que eu conseguia ver, mas não descrever, como se essa informação fosse transmitida por um sentido indeterminado, não por meio do olhar ou da audição. O que testemunhei, toda aquela atmosfera pesada, diabólica, não pode ser descrito por meio de simples palavras, mas foi uma experiência traumática, destruidora. Meu corpo parecia estar se desintegrando. Fiquei tonta e concluí que aquele era um contato diabólico, como de fato acabei comprovando pela infelicidade cada vez maior que cercou minha família. A médium Alison, de Além da Escuridão, ao confrontar os fantasmas do passado, age um pouco à minha maneira quando busca uma explicação para os fenômenos sobrenaturais que testemunha – especialmente a presença persistente da figura diabólica do espírito Morris.

A despeito da legião de espíritos malignos que persegue Alison, o livro tem bastante humor, brincando com os espíritos de gente famosa, como o da princesa Diana. Considerando que a literatura inglesa está repleta de fantasmas desde o pai de Hamlet, você diria que a Inglaterra é uma terra onde o sobrenatural é natural?
Realmente, os fantasmas do Norte da Inglaterra já fazem parte do folclore literário. Há forças misteriosas que se manifestam no mundo real de uma forma insólita como o devasso espírito de Morris, que persegue Alison onde quer que ela vá. Quando era criança tive longos período de ausência por causa dos remédios que tomava e me transformavam numa espécie de zumbi. Depois sobreveio uma experiência africana ainda mais traumática. Dava aulas em Botswana e recebi um diagnóstico médico errado, sendo tratada com antidepressivos até descobrirem que eu tinha endometriose. Aos 27 anos, com o aparelho reprodutor extirpado, qualquer mulher sem filhos pode enlouquecer. A literatura surgiu, então, como o antídoto de toda essa situação dramática. Assim, não é com falta de respeito que invoco o espírito da princesa Diana em Além da Escuridão, mas um pouco como uma crítica à falsa imagem que se criou de uma mulher que justamente odiava a mídia e era obrigada à exposição pública. Queria mostrar que o “outro” mundo, onde ela estaria, pode ser ainda pior que este que habitamos.

Você ganhou o Man Booker Prize no ano passado por Wolf Hall, até hoje o romance mais popular entre todos os que já ganharam o cobiçado prêmio. O que lhe atraiu a atenção para a história de Cromwell, o conde de Essex que viveu na época de Henrique VIII?
Ruminava essa história desde a infância e me intrigava o fato de tantos historiadores terem concedido tanta atenção a Henrique VIII e pouca a Cromwell. Há livros de historiadores sobre ele que o pintam como uma figura diabólica, isso quando a lenda elisabetana o define como herói. A coisa toda se complica na era vitoriana, quando o “problema” Cromwell surge para os historiadores: como o filho de um ferreiro poderia ter chegado a uma posição tão alta na corte de Henrique VIII? Avaliando suas cartas, entrei em sua casa sem os preconceitos dos historiadores. Creio ser possível reescrever a história com base em pesquisas sérias, mas é preciso primeiro escavar a própria memória para encarar a dos outros. Como meus livros são autobiográficos, aprendi com eles que a melhor forma de escrever sobre a história é tratá-la no tempo presente, sem necessidade de justificá-la.

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Na segunda parte de sua entrevista sobre seu livro Além da Escuridão, a escritora inglesa Hilary Mantel fala sobre os romances históricos que escreveu, A Sombra da Guilhotina (1992), lançado no Brasil pela Record, e Wolf Hall, ainda inédito no País. O primeiro é uma versão da história da Revolução Francesa sob a ótica de seus articuladores. O segundo é uma reflexão sobre o papel de Thomas Cromwell na corte de Henrique VIII, que vai ganhar uma sequência, The Mirror and the Light, como revelou a autora nesta entrevista ao Estado.

No Brasil, você é mais conhecida como pesquisadora acadêmica por ter escrito A Sombra da Guilhotina, romance histórico sobre a Revolução Francesa que conta o episódio sob a ótica de três de seus participantes, Robespierre, Danton e Camile Desmoulins. Por que escolheu esse gênero literário, já que sua pesquisa se baseia em documentos?
Não sou historiadora, apesar do enorme interesse que tenho pelo assunto e o respeito por pesquisas acadêmicas. Como romancista, sinto-me, no entanto, quase obrigada a reescrever uma história quando se tem evidência de equívocos cometidos por seus intérpretes. Comecei a escrever esse livro, que tem quase 800 páginas, quando ainda estava na África. Portanto, foi um projeto desenvolvido durante muitos anos sobre três personalidades vigorosas que mereciam uma visão ficcional para melhor entender suas motivações. Creio que os historiadores, de modo geral, acabam adotando, voluntariamente ou não, o discurso da aristocracia ao falar da Revolução Francesa. Prefiro me colocar no lugar dos revolucionários. Afinal, o legado da ecologia e dos direitos humanos é o que conta quando se trata da herança deixada por eles.

Como sua experiência pessoal se refletiu nos livros que escreveu? Você parece ter passado por períodos difíceis na África e na Arábia Saudita.
Meu marido é geólogo e o acompanho em todas essas aventuras. Passei três ou quatro anos na África, onde ensinava na escola secundária. Na Arábia, tinha de dar aulas particulares para estudantes universitários e me sobrava tempo para escrever. Já tinha claro para mim que queria ser escritora aos 22 anos, mas foi preciso esperar até 1992 para ver publicado meu primeiro livro, A Sombra da Guilhotina, cujo primeiro esboço foi escrito em Botswana ainda nos anos 1970. Obrigava-me a escrever 15 páginas por dia, não importa se eu estivesse bem ou mal – e normalmente estava bem mal, pois minha saúde piorou bastante quando vivia na África e na Arábia Saudita.

Seu livro O Gigante O”Brien, sobre Charles O”Brien, revela que você tem grande respeito pela diversidade, considerando que o gigante irlandês, que viveu nos anos 1780, não tinha pudor de se expor como freak. O que a fez escrever a história de um homem com 2,54 metros?
Quando comecei a pensar em sua história, minha intenção era escrever sobre John Hunter, que comprou seu corpo por 500 libras, e colocar o foco no confronto entre o ideal poético e o pragmatismo científico. O”Brien, ou Byrne, era irlandês, morreu com apenas 22 anos, um ano após chegar a Londres, vindo da Irlanda, e desgostoso por ter sido roubado durante uma noite em que bebeu demais. Com medo de que seu corpo fosse dissecado por médicos, ele queria ser jogado ao mar, mas nem mesmo esse pedido foi atendido. Escrevi o livro pensando em O”Brien e Hunter como antagonistas. O gigante vivia num mundo imaginário de reis e súditos; Hunter, no mundo real da ciência. Assim, mais que uma atração por freaks, o que me motivou foi essa batalha entre o olhar poético e o tecnológico. No entanto, você tem razão quando fala em outsiders. O”Brien foi mesmo um deles. Adotei-o como uma metáfora do irlandês simplório que chega a Londres e é explorado nos piores empregos, recebendo os piores salários. No fim, marginalizado, só lhe resta se expor por um centavo à curiosidade pública.

Você já disse que um escritor, para ser bom, tem de comer carne e beber sangue, dando a entender que defende uma escritura visceral contra a assepsia da literatura contemporânea. Seus concorrentes que perderam Man Booker Prize para você no ano passado – Sarah Waters, A. S. Byatt e J. M. Coetzee – seriam, então, pobres vegetarianos?
(Rindo) Não, claro. Sou atraída por assuntos mundanos, pela política, pelo sexo. Isso não quer dizer que os outros devam seguir meu caminho. Há ótimos escritores de língua inglesa e os autores indianos, em particular, conquistaram um grande número de leitores desde os anos 1970.

O que você está escrevendo agora?
Uma sequência de Wolf Hall, que vai se chamar The Mirror and the Light, sobre os últimos cinco anos de vida de Thomas Cromwell.

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