A Insurreição Vermelha no RN (1935)

No dia 23 de novembro de 1935 eclodia em Natal e no dia 27 no Rio de Janeiro, a Insurreição Armada comandada pela Aliança Libertadora Nacional. Movimento civil/militar que ficou conhecida, pejorativamente, como a “Intentona Comunista”, portanto, neste mês de novembro, completa 75 anos desse levante importante da história Brasileira e que até hoje repercute na vida nacional.

Esse é um momento propício para refletimos sobre o tema: 1935 – a Insurreição Vermelha no Rio Grande do Norte – mito e realidade.

Cresci lendo nos livros didáticos e nos jornais, e ouvindo nas emissoras de rádio, as comemorações da vitória das forças “legalistas” contra os revoltosos de 1935, a derrota da famosa “Intentona Comunista”, termo usado pela direita com o intuito de desqualificar o levante civil/militar de 1935.

Natal viveu três dias sob o comando de um Governo Popular Nacional Revolucionário.

As comemorações realizadas aqui em Natal, no quartel do Comando Geral da Policia Militar, sempre faziam uma homenagem ao soldado Luiz Gonzaga, transformado em “herói” da resistência, morto no embate entre os revolucionários e os militares. O desembargador João Maria Furtado, no livro, “Vertentes”, um livro de memórias, publicado pela Gráfica Olímpica Editora, RJ – 1976, desmistifica esse fato, qualificando o soldado Luiz Gonzaga como o doidinho do quartel. Segundo Dr. João Maria Furtado, Luiz Gonzaga só veio a ser soldado depois de morto, ato assinado pelo major Luiz Júlio; Ele era um civil, conhecido como doidinho, que fazia mandado para os militares.

Mas esse fato sempre foi usado como propaganda anticomunista. Todos os anos as guarnições militares, federais e estaduais, sediadas em Natal faziam ou fazem a leitura da ordem do dia (mensagem a tropa) que era (ou ainda é?) dedicada ao combate à ameaça vermelha, relembrando, dentro da versão deles, o célebre levante comunista de 1935, denominado, pejorativamente, pela direita de “intentona comunista”, e reverenciando a memória do “herói” morto. Faziam disso uma propaganda anticomunista das mais sórdidas, mentirosas e distorcidas.

Leia “A passagem do Levante Comunista de 1935 por Pau dos Ferros”, de Manoel Cavalcanti

Na época, eles usaram esse fato para denegrir a imagem dos comunistas perante a opinião pública, inclusive aproveitando o momento histórico de ascensão do nazismo e do fascismo e, no Brasil, do integralismo para fazer a sua apologia contra os comunistas ateus, criando uma imagem como se os comunistas fossem o anticristo.

Como resultado do levante, Natal viveu três dias sob o comando de um Governo Popular Nacional Revolucionário, esta era a denominação da junta governativa composta por Lauro Cortez Lago, José Macedo, Quintino Clementino de Barros, José Praxedes de Andrade, João Batista Galvão, João Lopes e Valadares. Conheci pessoalmente alguns dos integrantes da junta, Dr. Galvão, Macedo, Lauro e seu Quintino, grandes figuras humanas que tive a honra de conhecer.

O gaúcho Luís Carlos Prestes (1898-1990)

Existe uma vasta bibliografia sobre o tema, depoimentos de personagens que tiveram uma participação importante no movimento, contra e a favor do levante. Hoje existe uma documentação disponível de fácil acesso. O nosso interesse, nesse registro, é a verdade histórica, para que as novas gerações tomem conhecimento de forma correta desse fato histórico, aproximando-se da versão verdadeira que o distanciamento dos fatos e o conhecimento dos documentos e de novos depoimentos nos vai permitindo encontrar. Para mim, 1935 foi uma insurreição bem intencionada e mal planejada.

Em Mossoró, os acontecimentos de 1935 foram vividos de forma intensa. Desde 1927 existia em Mossoró um Partido Comunista organizado, a partir de 1930 uma classe trabalhadora organizada, o surgimento do Sindicado do Garrancho agregando os trabalhadores das salinas e após 1935 um movimento guerrilheiro na zona rural. Tudo isso era uma referência forte da luta operária, além de uma militância “cafeísta” presente nas lutas sindicais, tudo isso dava a Mossoró um clima de luta operária muito peculiar.

Portanto, esse é um tema que merece uma atenção especial dos nossos mestres, nossa memória histórica merece ser recontada, existe uma boa bibliografia, cito alguns trabalhos, como do professor Homero Costa, A Insurreição Comunista de 1935, Editora Ensaio, 1995; do historiador Rubens Coelho, Precedentes e Verdades Históricas – Participação do Nordeste na Luta do Povo Brasileiro, publicado pela Coleção Mossoroense; Da Insurreição Armada, de Anita Prestes, Editora Paz e Terra, 2001; Vertentes (Memórias) do Dr. João Maria Furtado; de Giocondo Dias, A vida de um revolucionário, Ed. Agir – 1993; Prestes Hoje, entrevista com Luiz Carlos Prestes, Ed. Codecri – 1983; Aliança Nacional Libertadora, de Leila G.M.Hernandez; Fuga da História, de Domenico Losurdo, Ed. Revan -2004. São livros que esclarecem e mudam a visão distorcida desse tão importante fato histórico.

Outro excelente trabalho é o filme, dirigido por Eduardo Escorel, “O Assalto ao Poder”, um documentário que serve para informar as novas gerações que desconhecem a história do Partido Comunista do Brasil e a sua participação na vida política do País, até mesmo para membros do próprio PCdoB. Alguns desconhecem a história do Partido e do Brasil. O filme de Escorel é um excelente documentário sobre o levante armado de 1935, um trabalho honesto sobre esse acontecimento importante da nossa história.

Convido a todos, comunistas, pessoas de esquerda, os progressistas, aqueles que gostam de um bom filme, a ver esse documentário, vale a pena conferir. Um povo que não valoriza a sua história está fadado a desaparecer ou ser engolido por outra cultura. Por isso vamos rever o fato que ficou conhecido como a Insurreição Armada de 35.

Professor aposentado do Departamento de História da UERN, ex-Reitor da UERN, ex-deputado estadual e ex-vice-prefeito da cidade de Mossoró. Filiado ao PCdoB. [ Ver todos os artigos ]

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