A interdição do véu

Por Gilles Lapouge
ESTADÃO

A França é o primeiro país europeu a lançar-se ao ataque contra véu islâmico, embora numerosas muçulmanas em muitos outros países também usem a burca. Precauções extremas foram tomadas para evitar que a lei pareça dirigida exclusivamente contra o Islã.

Primeira precaução: a burca não é a única vestimenta visada. É igualmente proibido transitar com o rosto oculto sob uma máscara ou um capuz. A lei não proíbe uma prática religiosa, islâmica, mas quer simplesmente impedir que qualquer pessoa na França mostre seu rosto. Um palhaço cristão ou budista que andasse com o rosto coberto por uma máscara seria preso.

Segunda precaução: os policiais deverão dar prova de delicadeza. Antes de cobrar uma multa de 150 euros, eles explicarão à mulher que ela deve mostrar seu rosto para permitir o controle de sua identidade. Em nenhum caso, o véu será retirado contra a vontade. Mas, se a “operação persuasão” fracassar, a pessoa faltosa será encaminhada à Procuradoria da República.

Na França, contam-se no máximo 3 mil mulheres adeptas do niqab ou da burca. Como explicar que um dispositivo tão pesado tenha sido montado para tão poucas pessoas? Primeiro, defende-se um princípio: a França é um país laico. Ela não pode tolerar nenhuma marca religiosa fora dos templos. Depois, o uso dessas máscaras é atentatório à liberdade e à dignidade da mulher. Por essa razão, multas muito mais pesadas serão aplicadas aos homens que obrigarem suas mulheres a adotar o véu.

Mas como provar semelhante coerção? Uma sondagem foi feita com 32 mulheres que usavam o véu integral. A maioria, 29, é nascida na França ou convertida. Primeira constatação: 12 dessas 32 mulheres adotaram o véu somente depois que eclodiu o debate sobre a vestimenta, em 2009.

“Em face aos ataques lançados contra minha religião, quis reafirmar minha identidade.” Uma dessas mulheres explicou sua escolha: “Eu disse a Deus: se quereis que eu use o niqab, dai documentos a meu marido.” O marido recebeu os documentos e, em seguida, a mulher cobriu o rosto.

Todas dizem que estão felizes e falam de uma experiência quase mística. “Eu sinto orgulho e um verdadeiro êxtase.” Ou ainda: “A burca me introduz numa existência monástica.” Outras fazem análises de tendências feministas: “O niqab me protege do olhar dos homens.” Safra, de 17 anos, diz que o niqab assegura a separação dos sexos. Parveen, de 19, reconhece que, desde que usa o véu, não fala mais com homens.

Essas mulheres são muito críticas das instituições oficiais do Islã francês. Com frequência, lembraram que o uso do véu era um costume tardio que não figurava nos princípios islâmicos. As mulheres que optaram pelo uso do véu se dizem convencidas de que, ao contrário, a interdição está inscrita no Alcorão.

“O véu faz parte da religião”, disse uma delas. “As mulheres do Profeta estavam todas integralmente cobertas.” No conjunto, essas mulheres são hostis à lei. Nenhuma delas, porém, quer entrar em guerra contra a república. Todas dizem que, se lhes pedirem para tirar o véu para identificação, estão prontas para tirá-lo.

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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