A internet entre os oligopólios e os nichos

Por Carlos Castilho
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Pouco mais de uma década depois de alimentar esperanças e utopias, a rede mundial de computadores está entrando numa fase sombria que será marcada por uma guerra implacável entre grandes empresas e um esforço hercúleo de iniciativas locais e hiperlocais para obter sustentabilidade financeira.

Esta foi a impressão dominante entre os participantes da sétima Conferência Web 2.0, criada em 2004 e considerada o principal termômetro de tendências na internet. Para os veteranos da web, entre eles Tim O’Reilly, criador da conferência, a possibilidade de uma guinada radical na web tornou-se assustadoramente presente.

A conseqüência mais mencionada na web 2.0 é uma previsível redução no ritmo da inovação e uma ênfase maior na competição feroz, quando o crescimento das grandes empresas será feito mais à base da compra de empresas menores do que na criatividade interna.

A guinada seria materializada por consolidação de duas tendências:

1) Uma concorrência brutal entre os gigantes da web como Google, Facebook, Apple, Microsoft e Amazon pelo controle cada vez maior de serviços, formando oligopólios cada vez mais poderosos. A tendência está confirmada pelo contínuo expansionismo de empresas como a Google, Facebook e Apple em direção a segmentos como webTV, telefonia celular, internet móvel, vídeos por encomenda e comércio eletrônico.

2) O aumento da segmentação de iniciativas de pequenos e médios empreendedores e criadores visando a exploração de nichos de consumidores e público em geral por meio da publicidade boca a boca.

São duas estratégias bem diferentes e usando métodos opostos. Enquanto as grandes empresas usam o seu peso político e econômico para disputar posições hegemônicas cientes de que não podem deixar espaços para concorrentes, o segmento dos nichos usa a colaboração e a descentralização para desenvolver serviços que muito provavelmente acabarão sendo comprados pelos grandes, numa versão digital do canibalismo corporativo do final do século 20.

Há elementos interessantes nesta competição entre os oligopólios e os nichos. Na guerra entre as grandes empresas não há espaço para acordos, pelo menos por enquanto. Google, Facebook e Apple estão movidas pela lógica da concentração porque seus projetos corporativos estão associados à convergência de serviços.

É cada vez mais difícil separar áreas como telefonia, mensagens, dados e vídeo. Quem domina uma área é levado a dominar também as outras porque deixar espaços para a concorrência significa permitir brechas que poderão ser exploradas pelos adversários, já que a lógica da convergência empurra todas as grandes empresas da web para a mesma direção.

Na era do capitalismo analógico e industrial era possível dividir mercados para evitar uma guerra comercial, mas na era da digitalização e da informação esta repartição é improvável porque teria que se basear na colaboração, e não em meros acordos de não agressão. Está na cara que vai ser muito difícil a Google colaborar com a Apple em qualquer área da web.

Por seu lado, os pequenos empreendedores têm diante de si duas possibilidades: o desenvolvimento independente, o que significa apostar na colaboração e cooperação; ou trabalhar isoladamente esperando ser comprados por alguma grande empresa, como tem acontecido com freqüência cada vez maior.

É obvio que prever um desenlace é coisa para bola de cristal. Mas há uma pequena grande diferença no quadro atual, se comparado com o predominante no século passado, antes da revolução tecnológica. A possibilidade dos pequenos criarem redes colaborativas para desenvolverem projetos é muito maior do que no passado, porque a internet permite a integração de mercados. A diferença pode vir por aí. É a grande esperança de que não tenhamos mais do mesmo na era digital.

A mesma análise aplica-se ao setor da imprensa online, com a crescente concorrência entre os grandes grupos midiáticos, como já acontece na Europa e Estados Unidos, por um lado, enquanto do outro multiplicam-se os blogs e projetos comunitários baseados na produção colaborativa de informações.

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