A lama sangue dos coturnos

NO NOVO JORNAL

As Forças Armadas brasileiras, hoje, merecem todo nosso respeito.
Todo o respeito do país que precisa de um aparato militar de defesa da
soberania nacional. E guardiã das fronteiras.

Mas não precisa de políticos fantasiados de generais. Onde os quartéis
eram núcleos de conspiração e abrigo de partidos perdedores de eleições.

O Império foi derrubado por um golpe militar. A república inicial
montou-se na esperteza de políticos profi ssionais, usando a ingenuidade
de militares desprovidos da malícia politiqueira.

E assim usaram e descartaram Deodoro. Usaram e descartaram Floriano.

Ainda usaram Floriano para a tentativa de derrubar Prudente.
Da sucessão de Prudente, Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso
Pena e Nilo Peçanha, a trama se desenrolava entre as convenções do Partido
Republicano e o humor dos quartéis. Até desaguar na eleição do General
Hermes, tio de um nepote que serviu de pretexto para esvaziar o
prestígio do Império agonizante.

Das animosidades insanáveis entre Marinha e Exército, uma aristocrática
e monarquista; o outro, republicano e plebeu; navegavam os conspiradores
insatisfeitos de cada época. E assim foi até a década de vinte.

Com o advento das ideias “revolucionárias” e novidadeiras da Europa,
os militares brasileiros se politizaram teoricamente e criaram o primeiro
núcleo escancarado da busca pelo poder. Era o “partido” do tenentismo.
Que durante décadas, idade e promoções foram saindo do papel
de “grupo de pressão” a serviço da conspiração, para encampar, eles próprios,
ex-tenentes e agora generais, a própria feição do poder.

E puxaram o tapete dos aliados conspiradores. Enganaram Lacerda,
traíram Magalhães Pinto, usaram Adhemar de Barros, cassaram Juscelino.

E montaram um esquema político de apoio irrestrito; Antônio Carlos
Magalhães, Petrônio Portela, Dinarte Mariz, dentre outros, que fantasiavam
a face “democrática” do regime para os olhos do exterior.

Enquanto prendiam, exilavam, torturavam, matavam sem qualquer
demonstração de culpa. Desfi braram a alma da pátria. Humilharam e
desumanizaram duas gerações. Fizeram da ditadura Vargas apenas uma
imagem pífi a da crueldade.

E ainda querem, os que restam da reserva, cantarolar sobre o esquife
da pátria enxovalhada. Canto rouquenho de rapina saudosa da carniça.

Ainda há sangue não coagulado. Nas manchas guardadas por mães
e cônjuges, em trapos reais ou imaginários, num permanente e insuportável
cheiro de súplica, como disse o poeta Alverga no seu Inventário das
Cicatrizes.

Pendurem seus coturnos, políticos sem votos, fantasiados de generais.
Traidores dos próprios juramentos.

Quando ressecada, pelo furor do tempo, começar a virar cacos caídos,
verão, pela fresta que a chama faz na escuridão, escorrer mais sangue
do que lama. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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