A Lava Jato, as escolas sem partido e a baleia azul

Antes que me questionem, devo dizer que nada liga os três temas alinhados no título desta crônica a não ser como paradigmas da história recente. Mas, provocadoramente, acrescento que há mais coisas em comum entre elas do que sonha a nossa vã filosofia.

Fotografia de capa: Diego Baravelli

Edilberto.2Suicídio democrático

A Lava a Jato, em detrimento de sua menção à higiene e à limpeza, nada nos revela de translúcido. Muito pelo contrário, parece-me uma esfinge envolta em mistério e imersa em subterfúgios.

Ninguém em sã consciência há de negar a importância de uma ação com fins de combater o que há de mais nefasto para a vida social: a corrupção política.

Este fato é indiscutível e é o que a elevou de uma operação policial a uma instituição nacional. Aplaudida e defendida por milhões de brasileiros. Tão importante que passados três anos de sua instauração chegou a se tornar uma espécie de quinto poder a conduzir a república.

É já um novo poder, porque, embora inserida no corpo do judiciário, tem se conduzido em muitas ocasiões de forma independente e autônoma em relação inclusive ao que observam a lei e a carta magna da nação.

Edilberto.3
Ninguém nega a importância de uma ação para combater o que há de mais nefasto para a vida social: a corrupção política.

Sua maior prova de autonomia se revela em dois instrumentos fartamente utilizados à revelia do que prega o justo direito: o uso abundante (abusivo?) da delação premiada e a inversão do ônus da prova aplicada singularmente no caso dessas investigações.

O primeiro instrumento, a delação premiada, parece-me ter se tornado uma espécie de leilão em troca de favores jurídicos. As delações têm valores e preços diversos conforme a hierarquia de quem seja delatado. Há nomes de maior monta a quem vale a pena delatar e nomes que rendem menos conforme a cotação das investigações.

Embora dissimuladamente, este instrumento da delação acaba por se ligar ao outro, o da inversão do ônus da prova. Isto porque, aliada à imprensa, o quarto poder da república, a Lava Jato quase impõe a quem se viu delatado a obrigação de gerar provas que contraditem os autores da acusação.

O que assistimos ao fim e ao cabo é que a Lava Jato com sua visão higienista tem deixado atrás de si um rasto de destruição nefasto à soberania nacional.

Destruída está a indústria nacional e a Petrobrás mais punidas do que os corruptos que dilapidaram o seu patrimônio, muitos deles beneficiados por suas delações.

Destruído está o sistema representativo que oxigena o organismo democrático de uma nação. Mortos os partidos políticos, terceirizaremos e importaremos gestores que conduzam a nação ou delegaremos o poder a uma monarquia de toga? Vejo em tudo isso uma espécie de suicídio político.

Edilberto.haters
“Difamar os professores significa eliminar do imaginário juvenil a referência moral e intelectual que sempre representou a figura do educador. Significa apagar da lousa da história o preponderante papel transformador da sociedade”.

Suicídio intelectual

Chegou-me via Whatsapp recentemente o áudio de uma suposta educadora a praguejar contra professores, desejando que todos “levassem um tiro, que se tornassem paraplégico e que ainda assim fossem para a sala de aula de cadeiras de rodas, para aprenderem”.

Não deixa claro o que quer que aprendamos, mas deixa implícito que somos responsáveis por uma suposta desgraça social que vivemos.

Por trás de sua fala mansa e pastosa, revela-se um ódio salivante. Um caso isolado? Uma loucura pontual?

Jackson Rees
Que nação livre e democrática condena os jovens a odiar os educadores? Ilustração: Jackson Rees

Poderia ser, não fosse o caso de que paralelamente a onda higienista contra a corrupção tenha crescido também um absurdo movimento intitulado “escola sem partido” a propagar serem os professores os inimigos da nação e os inimigos do povo.

Acusados de “deseducarmos” os jovens, este movimento tenta instaurar no ambiente escolar o instrumento da delação premiada utilizado pelos higienistas da Lava Jato.

Sua missão consiste reduzir a importância transformadora dos educadores junto aos jovens, a quem sempre coube a magnânima função de serem a extensão formadora do espírito de liberdade, de percepção crítica e da capacidade de participação ativa e cidadã na sociedade.

Difamar os professores significa eliminar do imaginário juvenil a referência moral e intelectual que sempre representou a figura do educador. Significa apagar da lousa da história o preponderante papel transformador da sociedade.

Que nação em sã consciência condena os jovens a odiar os educadores? Estaria a nossa nação suicidando-se intelectualmente?

Edilberto.4A Sombra de Thanatos e a Baleia Azul

A nossa infância é preenchida de cores, sonhos e fantasias. A fada dos dentes premia a criança que vê nos seres mágicos do mundo encantado, nos Botos Cor de Rosa e nas brincadeiras a formação de seu caráter e a solidificação da sua psiquê.

Passada a infância, a juventude se prepara para a vida adulta açulada pela utopia e pelo desejo de ser maior que a realidade.

O espírito inquieto da adolescência precisa desta força sonhadora para alçar seus voos em busca de sua autoafirmação.

Mas como alçar seus voos numa sociedade que se esvazia dos valores e renega o sonho e a utopia. Sem a utopia, a juventude é condenada ao salve-se quem puder do individualismo.

Bruno_O amor acabou
Uma nação sem sonhos, política, consciência crítica e utopia, afundada em uma crise socioeconômica, cria uma geração de jovens sem perspectiva da realidade.

Os que não possuem estofos solidificados amargam o vazio e a depressão, regredindo do desejo de aderência à realidade e entregando-se a anti-infância da baleia azul.

Uma nação sem política, sem partidos, sem consciência crítica, sem sonho, sem utopia, condenada a uma crise socioeconômica, cria uma geração de jovens sem perspectiva de enraizamento no solo da realidade.

Órfãos de pais e de educadores que semeiem valores e instiguem a ousadia da autoafirmação, os jovens se condenam ao suicídio de uma vida vazia e sem referências morais e intelectuais.

Se não somos capazes de erguer bandeiras, assumir partidos, enlaçarmo-nos coletivamente na utopia de um mundo melhor, que resta a todos além do suicídio?

A sombra de Thanatos se ergue assustadoramente sobre a nossa sociedade. Que os deuses tenham misericórdia da nossa nação.

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Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. EDILBERTO CLEUTOM DOS SANTOS 26 de abril de 2017 17:50

    Obrigado, caro amigo poeta. Estou no barco e não pararei de remar! Que bom ter sua solidariedade. É bom saber que não remo solitário! Um grande abraço também.

  2. José de Castro 26 de abril de 2017 14:46

    Excelentes reflexões, caro amigo educador e poeta. Atravessamos um período difícil, no qual muitas coisas naufragam… Mas não podemos perder a força do sonho e imaginar que poderemos remar, mesmo contra a maré, e juntarmos os barcos da educação com o da poesia e chegar a um porto destino onde a esperança nos acene com dias melhores. Com mais luz sobre todas essas trevas que nos ameaçam engolir. Um abraço solidário.

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