A Legenda Áurea e o Exemplum

“ Bem vês como se veste e faz ornado
Co largo Cinto d, ouro(*), que estelantes
Animais doze traz afigurados,
Apousentos de Febo limitados.”

( Os Lusíadas 1572- Camões)

(*) de ouro; epiteto de aureus, muito usado pelos latinos com aplicação aos astros: aurea sidera, aurea astra, aurea luna,orion aureus.

Lenda (de “legenda”, do verbo latino “légere”= ler)era o nome dado antigamente a uma narrativa sobre a vida dos santos e mártires. Da Legenda áurea derivam o nome de todas as outras lendas.

Após um período de mais de 700 anos foi lançado no Brasil pela Companhia das Letras, um dos livros mais importantes do medievo “ O Legenda Áurea”. A legenda áurea, legenda dourada, legendae sanctorum, é obra fundamental da cultura ocidental e seus 178 capítulos constituem a suma hagiográfica latina da idade média.

O Brasil carecia de uma tradução desta obra magna da cultura cristã. A bela edição brasileira, lançada pela Companhia de Letras, foi traduzida do Latim e comentada por Hilário Franco Júnior . O livro, escrito no século XIII pelo frei Dominicano Jacopo de Varazze, latinizado para “Jacobus de Voragine”, conta a vida e história dos santos mais conhecidos: São Jorge, São Nicolau, Santo Antônio, São Francisco, São João Batista e São Sebastião. A edição brasileira – seguindo outras milhares de edições – traz um rico material iconográfico e reproduções de belas iluminuras. Esse livro , escrito numa linguagem acessível ao grande público, fez muito sucesso e influenciou definitivamente a arte cristã. É impossível imaginar um quadro de Fra Angélico, Andrea de Castagno, Pierro della Francesca ou um afresco de Giotto sem a forte influência desse livro de inspiração divina. Até mesmo as grandes catedrais e seus belos vitrais tem inspiração no Legenda Áurea. A morte dos santos pode ser trágica, mas o demônio, em geral, sai vencido como nas lendas populares do demônio logrado. Na apresentação à edição Brasileira foi escolhido um belo “exemplum” que está na vida de São Nicolau : “De Sancto Nicholao” – Nicholaus dicitur a nichos, inde Nicholaus quasi uictoria populi-, Nicolau vem de nikos, que significa “vitória” e de laos, ”povo”, i.e., vitória do povo.

Um Homem havia tomado de um judeu certa soma de dinheiro, em falta de outra garantia jurara sobre o altar de São Nicolau que a devolveria assim que pudesse. Muito tempo depois o judeu reclamou o dinheiro, mas o devedor alegou que já havia pago a dívida. O Judeu levou-o a juízo e exigiu que afirmasse sob juramento que havia devolvido o dinheiro. Como precisasse de apoio para andar, o homem ali compareceu com uma bengala, que era oca e que ele havia enchido de moedas de ouro. Quando foi prestar juramento, pediu que o judeu a segurasse e jurou ter restituído mas do que havia recebido. Após o juramento, reclamou a bengala de volta e o judeu, que não suspeitava da artimanha, devolveu-a. No caminho de volta para casa, o culpado sentiu um sono repentino, adormeceu num cruzamento e uma carroça que vinha com velocidade matou-o, quebrou a bengala, e o ouro que a enchia espalhou-se pelo chão. Avisado, o judeu acorreu ao local e entendeu a artimanha de que havia sido vítima. Tendo alguém sugerido que pegasse seu ouro, recusou taxativamente, a não ser que o morto voltasse à vida pelos méritos do bem aventurado. Nicolau, acrescentando que se tal acontecesse ele receberia o batismo e se tornaria cristão. incontinenti, o morto ressuscitou e o judeu foi batizado em nome de cristo. [cap. III]

O “exemplum” medieval é uma historieta edificante, na maioria das vezes para uso dos pregadores, que gostam de introduzir exempla nos seus discursos para que os ouvintes assimilem melhor uma lição salutar ( Jacques le Goff). O século XIII foi o grande século dos “exemplum”, mas a fórmula continuaria sendo empregada nas narrativas romanescas e historietas populares. Mais de três séculos após o lançamento do Legenda Áurea, Miguel de Cervantes Saavedra lança em 1605 – 1615, o “Dom Quixote de la Mancha. No Dom Quixote, o “exemplum” de São Nicolau é recontado por Miguel de Cervantes , o criador do romance moderno.

Perante o governador da ilha Baratária, Sancho Pança, apresentam- se dois anciões, um dos quais trazia uma cana pôr báculo, e o sem bordão disse:
 Senhor a este bom homem emprestei há dias dez escudos de ouro, do bom, para dar-lhe prazer e fazer boa obra, com a condição de os devolvesse quando lhos pedisse. Passaram-se muitos dias sem que eu reclamasse, pra o não colocar em maior necessidade, por mos devolver, mais do que a que ele tinha quando eu lhos emprestei. Pareceu- me, porém, que se descuidava na paga e reclamei- os uma e muitas vezes. Nega-se, contudo, a pagar-me e diz que nunca lhe emprestei tais dez escudos e, se os emprestei, já os devolveu. Não tenho testemunhas, nem do pagamento, porque não me pagou. Quereria que vosmecê o fizesse prestar juramento; se jurar que me pagou, perdôo- lho a divida, perante os homens e perante Deus.
 Que dizeis a isso, bom velho do báculo?  perguntou Sancho.
A isso respondeu o velho:
 Eu, senhor, confesso que ele mos emprestou. Baixe vosmecê essa vara, pois, como ele confia em meu juramento, jurarei como os devolvi e paguei, real e verdadeiramente.
Baixou o governador a vara e, entretanto, o velho do báculo entregou a cana a outro velho, para que a segurasse enquanto jurava, pois o embaraçava muito. Em seguida pôs a mão sobre a cruz da vara, dizendo ser verdade haverem-lhe emprestado aqueles dez escudos que lhe reclamavam; ele os havia devolvido, de mão para mão, e era por não se lembrar disso que de vez em quando voltava o credor a pedi- los. Vendo isso, o grande governador perguntou ao credor que respondia ao afirmado por seu oponente. Disse ele que, sem dúvida alguma , seu devedor estava dizendo a verdade, pois o considerava homem de bem e bom cristão; ele, por certo se esquecera de como e quando os havia recebido. Tornou o devedor a tomar seu báculo e, baixando a cabeça, saiu. […].

Sancho, esteve pensativo por algum momento. Em seguida, mandou chamarem o velho do bordão, que já se fora.

Daí- me, bom homem, esse báculo, pois preciso dele.
 De muita boa – vontade  respondeu o velho.  Ei -lo aqui, senhor.
E colocou a cana na mão. Apanhou- a Sancho e, dando-a ao outro velho, falou:
Ide com Deus que já estás pago.
 Eu, senhor?  redarguiu o velho.  Pois esta cana vale dez escudos de ouro?
 Sim  disse o governador. - E se não valer sou o maior asno do mundo. E agora se verá se tenho ou não miolos para governar todo um reino.
E mandou que, ali, diante de todos se quebrasse e abrisse a cana. Assim se fez, e dentro dela foram achados dez escudos de ouro. Ficaram todos admirado e tiveram seu governador por um novo Salomão. [II, XLV) […]

Os contos e histórias de “exemplum” são milenares. Utilizados desde os gregos e no velho testamento por pregadores e educadores quando desejavam transmitir uma mensagem edificante, de astúcia ou agudeza de caráter. Na classificação e seleção de contos perpetuada por Luís da Câmara Cascudo, os contos de exemplos aparecem na sua divisão, onde estão incluídos os célebres Joãozinho e Maria, o Pequeno Polegar e as Aventuras de Pedro Malazarte. Todos os povos possuem os seus contos de exemplos, e é interessante observar como esses contos são transplantados de região para região, de país para país, mantendo as suas matrizes originais que remontam à origem do homem imaginando e sonhando. São variações sem fim de um mesmo tema, sempre com o mesmo objetivo: o EXEMPLUM.

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Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Maria Aparecida Anunciata Bacci 5 de novembro de 2015 21:29

    Texto espetacular, “ O Legenda Áurea”, é um livro de muita importancia,para cultural ocidental,ao lelo teremos uma riqueza em nossas mãos, ‘Na apresentação à edição Brasileira foi escolhido um belo “exemplum” que está na vida de São Nicolau : “De Sancto Nicholao” – Nicholaus dicitur a nichos, inde Nicholaus quasi uictoria populi-, Nicolau vem de nikos, que significa “vitória” e de laos, ”povo”, i.e., vitória do povo.” O exemplum como e relatado no texto são história edificantes,muitas vezes apresentadas por pregadores do medievo, aqui não poderiamos deixar salientar mais um trecho do texto “Mais de três séculos após o lançamento do Legenda Áurea, Miguel de Cervantes Saavedra lança em 1605 – 1615, o “Dom Quixote de la Mancha. No Dom Quixote, o “exemplum” de São Nicolau é recontado por Miguel de Cervantes , o criador do romance moderno”,interssantíssimo,mai uma vez brindo o autor,por nos presentar co tão importantes informações,Parabéns.

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